Joana Gama corre a maratona do deserto ao piano

A pianista toca amanhã, ininterruptamente durante 14 horas, na Gulbenkian, <em>Vexations</em>, peça de Erik Satie, feita para ser repetida durante 840 vezes. A performance está integrada no ciclo Pianomania! que neste mês leva à fundação concertos e filmes que têm o piano como figura nuclear
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Entre as 10.00 e a meia-noite de amanhã poderá fazer várias coisas, em princípio tomará várias refeições, conversará com alguém, caminhará, pode entrar e sair de casa. Mas Joana Gama vai passar essas 14 horas ao piano, na Fundação Calouste Gulbenkian. E apesar de as passar sem comer, beber, levantar-se ou esticar-se, a pianista diz que a sua ideia "não é fazer uma performance atlética. Não quero provar nada a ninguém: é uma questão de convivência com a peça durante aquele tempo e de partilha da música".

A peça, de Erik Satie (1866-1925), é Vexations. Uma partitura que, segundo o compositor, deve ser repetida 840 vezes, e que dizem ser impossível de decorar, para quem toca e para quem escuta. Uma vez um pianista levantou-se a meio da performance porque começou a ver estranhas criaturas na partitura: "As pessoas que a tocam fazem-no sob o seu próprio risco", disse o próprio, Peter Evans, citado pela New Yorker. E assim fará Joana, numa performance integrada no ciclo Pianomania!, que neste mês leva à Gulbenkian concertos de Daniil Trifonov, Elisabeth Leonskaja, ou Menahem Pressler (hoje às 19.00), e filmes como O Piano, de Jane Campion, ou O Pianista, de Roman Polanski.

Enigmática, maldita, ascética, ou uma espécie de grande fresco musical feito sempre com a mesma melodia, assim é essa música que, em 1963, um pequeno grupo mostrou no Pocket Theatre, em Nova Iorque. Demoraram 18 horas e 40 minutos a tocar essa peça que, segundo Satie, se deve fazer de forma très lent. Entre o grupo estavam John Cage, que depois diria daquele concerto "Eu tinha mudado e o mundo tinha mudado", ou John Cale, que depois fundaria a banda Velvet Underground.

O compositor avisa, numa nota, que o intérprete que se lançar a Vexations deve preparar-se antes "no mais profundo silêncio, através de imobilidades sérias". Joana Gama, que em 2016, quando se assinalaram 150 anos da morte de Satie, lhe dedicou-lhe esse ano em recitais e palestras (em 2017 faria ainda concertos para crianças), diz que vive com essa ideia do concerto e que "há uma preparação que é quase inconsciente mas que vive comigo desde que soube que vou tocar".

Foi em 2016 que a pianista a tocou nos Jardins Efémeros, em Viseu. Foram 15 horas: das 13.30 às 4.30. "Toquei só - como quem diz - 471 vezes. Por uma questão conceptual imprimi as 840 páginas, portanto comecei com um grande molho de folhas do meu lado direito e fui passando para o lado esquerdo de cada vez que tocava. Eu preciso realmente da partitura e isso é uma questão que pode parecer até um pouco estranha, mas não sei essa peça de cor, apesar de ter estado 15 horas a tocá-la. É uma peça estranhíssima, mesmo ao nível da notação musical. É preciso estar sempre concentrada para não me enganar. A própria peça não é luminosa, convida à introspeção, e corresponde a uma fase complicada da vida de Satie."

Uma das teorias é que o compositor a terá criado depois de romper com a pintora Suzanne Valadon, única relação amorosa que se lhe conhece. Quanto ao número 840, Joana diz que poderá estar "relacionado com a série de Lucas, que tem a ver com proporções, e que ele usou noutras peças; ou pode ter questões esotéricas, ele também era um amante de esoterismo". Todavia, como "pode ter várias leituras e não havendo uma razão que se conheça para terem de ser 840 vezes", a pianista afirma não se ter preocupado em tocar esse número em Viseu, e o mesmo acontecerá amanhã. "A partitura diz "muito lento", por isso eu toco à velocidade que sinto as repetições que acontecerem naquele dia. É relativo."

A preparação física

Quando, a 9 de julho de 2016, Joana se levanta do piano às 4.30 da madrugada, "não sabia se ia cair para o lado. Estavam algumas pessoas. Algumas tinham estado lá a dormir", recorda. Na preparação do corpo para tocar aquela "música muito intensa", espécie de maratona do deserto, Joana está a ser "acompanhada por pessoas ligadas ao lado físico e à nutrição para preparar o meu corpo para estas 14 horas. Estou a desacelerar o metabolismo aos poucos para que o corpo esteja um bocado quase adormecido", para que não peça "água, nem comida, nem descanso". É importante, acrescenta, "não gastar muita energia nem comer demasiado, dormir bem, fazer exercícios para fortalecimento do corpo."

No final de 2016 editou o disco Harmonies, em que Satie volta a ser uma peça fundamental. Mas até há sete anos, como muitos, Joana conhecia do compositor apenas as Gymnopédies, tão usadas no cinema e noutros meios. "Se querem pôr alguém a chorar, pronto: põem a Gymnopédie nº1." Depois mergulhou a fundo no universo Satie.

"As peças dele são um bocado como os livros pop-up: dali saem coisas inusitadas e que nos põem depois em relação com outras. Não sinto o peso de especialista, porque não sou, mas sou uma amante da sua obra, e gosto que ela me faça ir para outros mundos. Tal como me faz pensar em questões de nutrição e de preparação física para a obra Vexations, faz-me ir buscar desenhos para fazer o concerto que tenho feito para crianças, e nesse concerto falo de arquitetura, de geografia, de animais marinhos, tudo a partir da obra de Satie", conta a pianista.

Além da possibilidade de assistir ao vivo à performance de Joana Gama, esta será transmitida em streaming pela Gulbenkian.

O ciclo Pianomania!

Pedro Burmester e Mário Laginha

Amanhã às 18.00 no Grande Auditório, os dois pianistas portugueses juntam-se no palco para tocar Grande Tango, de Astor Piazzola, duas baladas de Chopin (dois solos, um para cada um dos pianistas), Prélude à l"après-midi d"un faune, de Debussy, La Valse, de Ravel, e uma peça do próprio Laginha. Apesar de Laginha ter feito uma carreira mais ligada ao jazz e Burmester à música clássica, os dois pianistas gravaram Duetos em 1994 e, desde aí, têm dado vários concertos juntos. Em 2007 criaram o projeto 3 Pianos, com Bernardo Sassetti. Em fevereiro estarão na casa da música e no verão no festival MIMO em Amarante.

Os filmes: de Glenn Gould a Zhu Xiao-Mei

Da programação do ciclo Pianomania! fazem parte cinco filmes, sempre com entrada gratuita. O primeiro, Thirty Two Short Films About Glenn Gould, sobre o pianista, realizado por François Girard, é exibido hoje às 16.00. Na segunda-feira passa O Pianista, de Roman Polanski; no domingo, dia 21, os documentário Zhu Xiao-Mei: How Bach Defeated Mao e J.S. Bach - Goldberg Variations - Zhu Xiao-Mei, de Paul Smaczny; na segunda-feira, dia 22, será exibido O Piano, de Jane Campion

O furor do jovem Daniil Trifonov

No seu regresso à Gulbenkian, na próxima sexta-feira às 21.00, Daniil Trifonov, de 26 anos, interpretará o único Concerto para Piano e Orquestra de Robert Schumann, além do Cantus Arcticus, op. 61, de Einojuhani Rautavaara, e da Sinfonia n.º 2, em Ré maior, op. 43, de Sibelius. O crítico Alex Ross compara o impacto causado pelo jovem russo àquele que, quando apareceram, causaram Horowitz, Richter, Martha Argerich ou Evgeny Kissin. Hannu Lintu será o maestro a conduzir a Orquestra Gulbenkian

Mitsuko Uchida de volta com Schubert

A pianista nipo-britânica de 69 anos é uma presença regular na Fundação Calouste Gulbenkian, a cujo Grande Auditório regressa no domingo, dia 21, às 18.00 para tocar três sonatas para piano de Franz Schubert. Com uma carreira de mais de 40 anos, Mitsuko Uchida é tida como uma das grandes pianistas do nosso tempo. "Foram precisos anos para perceber que não basta tocar piano: é uma tarefa para a vida perceber como é que a música realmente funciona", disse numa entrevista ao Telegraph.

Yuja Wang, pianista sensação

A carismática pianista chinesa de 30 anos regressa à Gulbenkian na quinta-feira, 25 de janeiro, às 21.00, depois de ali se ter estreado em abril, confirmando o sucesso internacional que tem conhecido. À frente da Orquestra Gulbenkian, conduzida por Lionel Bringuier, interpretará um concerto de Prokofiev e uma sinfonia de Sergei Rachmaninov. Estreou-se em 2005 e, passados dois anos, ainda estudante, subiu ao palco do Symphony Hall para substituir Martha Argerich, num concerto conduzido por Charles Dutoit.

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