Berlim vai ver a implosão do bairro do Aleixo

Russa é uma das seis produções portuguesas no festival de Cinema de Berlim, que amanhã começa.

O cinema português volta a ter comitiva forte no Festival de Berlim. Três curtas e três longas-metragens. As afinidades dos grandes festivais internacionais com o nosso cinema de autor voltam a estar ao rubro, contra tudo e contra todos. João Salaviza (Russa, realizado a meias com o brasileiro Ricardo Alves Jr.), João Viana (com a curta Madness e a longa Our Madness), David Pinheiro Vicente (Onde o Verão Vai - Episódios da Juventude), André Gil Mata (A Árvore) e Sandro Aguilar (com o fortíssimo Mariphasa) são os nomes de uma avalancha de talento para comprovar que o novo e o novíssimo cinema português não é uma moda passageira, venha palmarés ou não.

Nesta invasão de filmes portugueses, o caso de Salaviza pode criar um estrondo diferente. Russa, história de uma habitante do bairro do Aleixo, mostra o drama do famoso bairro portuense parcialmente demolido e aponta o dedo a Rui Rio, na altura o autarca da cidade. O filme, rodado muito antes da corrida de Rio à presidência do PSD, não é um documentário, mas antes uma transposição da realidade em ficção e interpretado pelos próprios moradores do bairro, com especial incidência em Russa, Helena, uma senhora que sai da prisão uma noite para visitar a família.

Rodado ao abrigo de um programa da Câmara do Porto, o Cultura e Expansão, Russa não teve qualquer limitação ou condicionante. Os realizadores poderiam filmar o tema que quisessem.

Do Brasil, onde agora reside, Salaviza não tem medo dos efeitos políticos que esta obra pode causar num dos maiores festivais de cinema do mundo: "Rui Rio é uma espécie de papão, de pesadelo que assombra a memória dos moradores do Aleixo. Trata-se de um tipo tenebroso e sinistro que decidiu brincar com a vida de centenas de pessoas para ceder aos interesses da especulação imobiliária. Há uma imagem dele muito paradigmática quando, na demolição da torre, o vemos no Douro, num barco de luxo a fazer uma pequena celebração com champanhe e a brindar à demolição. Ele transforma aquele momento de aniquilação de uma comunidade numa celebração. E é este tipo que tem esta forma de estar na política e de jogar com a vida das pessoas que quer ser primeiro-ministro de Portugal...", disse ao DN.

Nesta curta vemos através de um telemóvel a intensa imagem de uma das torres a ser demolida e o jogo da docuficção é conduzido com poder genuíno de cinema. A câmara deleita-se com os efeitos do real apesar de respeitar as mais sagradas ideias de composição de planos de ficção.

Para Salaviza é importante não deixar cair o flagelo de um bairro ostracizado do Porto: "O cinema pode ser esta forma de diálogo, pôr-nos a pensar sobre que cidades queremos habitar e de querer saber quem são os inimigos de uma ideia de cidade que nem eu nem os moradores do Aleixo queremos ver." A importância de Russa é ainda maior sobretudo depois da curta Torres, de André Guiomar, e de Tarrafal, documentário de Pedro Neves, projetado no Porto/Post/Doc, bem como de Ruído ou as Troianas, de Tiago Afonso, todos eles versando o mesmo drama de bairros obliterados pelo poder.

O cineasta que venceu já o Urso de Ouro das curtas em Berlim ainda não viu 15:17 - Destino Paris, o novo filme de Clint Eastwood, em estreia esta semana, também recorrendo à encenação dos factos verídicos pelos protagonistas. Para Salaviza, o cinema português é pródigo em saber trabalhar com o real.

Abertura com Wes Anderson

Para além do contingente nacional (onde também está Diogo Costa Amarante, o cineasta que venceu o Urso de Ouro no ano passado, precisamente como jurado nas curtas, e João Pedro Rodrigues, como um dos tutores do programa Berlinale Talents), a Berlinale na competição tem nomes consagrados como Christian Petzold, Lav Diaz, Gus Van Sant e Benoit Jacquot, embora a sessão fora de competição do thriller de José Padilha, 7 Days in Entebbe, também provoque alguma curiosidade. Um olhar sobre o avião sequestrado em 1976 por um grupo de libertação da Palestina e uma organização alemã de extrema-esquerda. Uma obra protagonizada por Daniel Bruhl e a inglesa Rosamund Pike.

Na Berlinale Special, secção destinada a antestreias, o último filme a ser anunciado foi Songwriter, de Murray Cummings, olhar íntimo e pessoal sobre o músico campeão de audições, Ed Sheeran. Uma antestreia mundial que atesta a tendência do festival em mostrar obras sobre músicos pop. Mas mais apetecível nessa área do festival é a coprodução anglo-espanhola The Bookshop, de Isabel Coixet, com Emily Mortimer, vencedor dos últimos prémios Goya, da Academia de Espanha. Poderá ser o "agrada-multidões" da Berlinale. Outro dos títulos já garantidos para Portugal.

Amanhã, passadeira vermelha para Wes Anderson e a sua animação Ilha de Cães, divertimento para adultos a concorrer para o Urso de Ouro. É o filme que causa maior expectativa na capital alemã e que traz mais estrelas: Edward Norton, Bryan Cranston, Bill Murray e Jason Schwartzman, as vozes caninas.

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.