Arte Urbana vai ter museu com obras de Vhils

Jonathan Frazen e Murakami confirmados no Festival de Cultura, um dos 50 eventos que Cascais vai receber em 2017.

"Uma oportunidade única para os artistas da arte urbana". É desta forma que Vhils classifica o convite que a Câmara de Cascais lhe fez para participar na criação de um Museu de Arte Urbana que durante este ano vai nascer no concelho. A localização e a data de abertura ainda não foram revelados, mas sabe-se já que contará com 300 obras da coleção particular de Vhils em depósito e 25 obras adquiridas e comissionadas pela autarquia liderada por Carlos Carreiras que ontem divulgou o seu plano de atividades para 2017.

Alexandre Farto, conhecido no mundo artístico como Vhils, revelou ao DN que este foi um convite que lhe foi feito pela câmara. Uma oportunidade que o artista, de 29 anos, conhecido mundialmente pelos rostos de grande dimensão que esculpe em paredes ao ar livre, vê como "única" para quem, tal como ele, se dedica à arte urbana.

Valorizar esta arte é o grande objetivo que o artista pretende ver concretizado com a instalação deste museu. "Vai permitir fazer uma recolha, um levantamento de obras que existem no País, de Norte a Sul, e a sua preservação", adiantou ao DN sem, contudo, querer avançar muito sobre o projeto que, diz, "ainda está em fase de negociações".

No entanto, revelou que o objetivo é valorizar esta arte, recriando a história do grafitte em Portugal, "desde o movimento muralista pós-74, passando pelos grafittes dos anos 80 e a arte urbana contemporânea dos anos 2000, valorizando os artistas que trabalham na rua".

Vhils, que começou a fazer graffiti ilegal em comboios durante a adolescência, criou entretanto um estilo próprio que já esculpiu (sobretudo rostos) em paredes um pouco por todo o mundo. Considerado pela revista Forbes como um dos 30 artistas mundiais mais importantes com menos de 30 anos, também já realizou videoclips, nomeadamente para a banda irlandesa U2.

Sobre o seu papel no museu, Vhils também deu poucos pormenores, adiantando apenas que "o museu terá uma equipa própria e envolverá muitos outros artistas para preservar a imparcialidade dos criadores".

Murakami e Frazen no FIC

Ao longo do ano, Cascais vai receber mais de 50 eventos, culturais e desportivos, num investimento municipal de oito milhões de euros provenientes das receitas do jogo. Para além das Conferências do Casino (ver texto ao lado), destaque ainda para o Festival Internacional de Cultura, de 1 a 10 de setembro, que vai trazer a Portugal pela primeira vez dois dos maiores escritores da atualidade: o norte-americano Jonathan Frazen, conhecido sobretudo pelos seus romances Liberdade e Purity, e o japonês Haruki Murakami, autor de, entre outros títulos, Sputnik, Meu Amor. A estes dois escritores juntar-se-á ainda o norte-americano Paul Auster, que acabou de lançar um novo trabalho: 4321, que chegará ao mercado português a 31 de janeiro.

Snowden e Oliver Stone no Estoril

Edward Snowden, o ex-analista informático que divulgou a espionagem em massa dos serviços de informações dos EUA, e o realizador norte-americano Oliver Stone estão entre as participações confirmadas na edição deste ano das Conferências do Estoril.

Marcadas para 29, 30 e 31 de maio, as Conferências do Estoril têm como tema "Migração Global", "o grande desafio do século XXI", como afirmou à imprensa o vice-presidente da autarquia, Miguel Pinto Luz. No caso de Edward Snowden, exilado na Rússia desde 2013 e acusado de espionagem nos Estados Unidos, a sua intervenção será através de videoconferência e responderá a perguntas da assistência, acrescentou o autarca de Cascais, que ontem anunciou a programação para 2017.

Presente estará o realizador norte-americano, que tem uma carreira marcada por filmes sobre questões políticas - como a trilogia presidencial JFK (1991), Nixon (1995) e W. (2008) e a série documental A História Não Contada dos Estados Unidos (2012-2013). Ele que, neste momento, prepara um filme sobre Vladimir Putin.

A estes dois nomes de peso juntam-se ainda quatro magistrados conhecidos a nível internacional por mediáticos processos: Baltasar Garzón, Sérgio Moro, Antonio di Pietro e Carlos Alexandre.

Garzón, que se tornou mundialmente conhecido ao ordenar a detenção do ditador chileno Augusto Pinochet em Londres, em 1998, chefia atualmente a equipa de defesa de Julian Assange, o fundador da Wikileaks, refugiado desde junho de 2012 na embaixada do Equador em Londres para impedir o cumprimento de um mandado de detenção emitido pela Suécia, onde foi acusado de agressão sexual, e uma possível extradição para os Estados Unidos, que o querem julgar por ter divulgado centenas de milhares de documentos classificados.

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