Aldina Duarte: "O meu fado tornou-se a testemunha daquilo que sou"

Quando se Ama Loucamente, que será editado na próxima sexta-feira, é um disco de quem celebra a vida depois de cumprir o luto de um amor que acabou como "uma morte acidental". E de quem foi salva por uma comunidade de estranhos

"Sabe lá a gente o que anda para cá enterrado no mais fundo de nós. Vamos morrer sem saber, e se calhar não é preciso, mas às vezes há sofrimentos de tal maneira profundos... por qualquer razão a vida exige que a gente vá lá. Às vezes a única maneira de voltar à superfície é submergindo." Aldina Duarte fala num banco do jardim da sua vida, em Lisboa. Aponta para a árvore debaixo da qual escreveu, "de jorro, numa semana", as letras que canta no seu novo álbum. Quando se Ama Loucamente será lançado na próxima sexta-feira às 18.30 na FNAC do Chiado, com a fadista a cantá-lo. "É aquela ali, que dá flor no outono. É a única que eu conheço assim." Coincidência ou não, também Aldina só deu flor no outono: viveu meia vida até chegar ao fado.

Este é o disco em que a fadista canta o luto de um amor que acabou como "uma morte acidental", de súbito, durante a paixão. Um acontecimento colossal na sua vida. "Já sou isto. Eu canto um fado ou outro que associo a sentimentos, a pessoas, a momentos da minha vida: aqui não. Isto é um testemunho. O meu fado tornou-se a testemunha daquilo que eu sou, mesmo que mais ninguém entenda. Quem me vir nestes fados que eu canto, está a ver-me: estou a ser vista como eu sou. Mas também não me vou dar para além disso."

E se a vemos assim, ao seu sexto álbum, é porque muito confluiu para que Quando se Ama Loucamente nascesse. A leitura recolhida dos livros de Maria Gabriela Llansol em que Aldina cumpriu silenciosamente o seu luto, e de onde sairiam depois as letras que escreveu; a canção que Manel Cruz, dos extintos Ornatos Violeta, lhe enviou - Quando se Ama Loucamente -, escrita e composta para ela, quando ainda não lhe passava pela cabeça fazer um disco; ou, além de tudo o que não se enumera, o facto de ter visto na televisão refugiados a desembarcar na Europa. "Essa foi a primeira vez que reparei que não estava o dia inteiro a associar tudo àquele fim. Fiquei com uma gratidão tão grande à vida. Senti que afinal aquela dor era de um coração que está tão vivo ou mais do que era, mais inteiro ainda. O meu maior medo na vida é que algum dia me acontecesse alguma coisa tão grave, ou tão maior que eu, que me fechasse o coração, que eu não conseguisse voltar a sentir, por causa do terror de determinada dor. Tenho medo de ter medo de sentir. É isto."

Nunca um episódio da vida de Aldina tinha entrado diretamente para o seu fado. Até agora: a esta "autoficção" dedicada ao "Elfo da Araucária" pela "fada Aldiana" ("Lembra-te de mim no primeiro mergulho no grande mar do verão", pede-lhe). Aldina é a fada que canta e conta o seu próprio conto de fadas, protagonizado por ela, com a sua voz - ora forte ora sussurrante -, a sua memória, e a sua vida. A partir dos livros de Llansol, a fadista escreveu os poemas que canta em fados tradicionais.

Todas as letras são dela, à exceção da canção de Manel Cruz, e de Beijo Enganador, de Maria do Rosário Pedreira, nome já comum na sua obra. Outro que agora se repete é o de Pedro Gonçalves, dos Dead Combo, que tal como aconteceu no último disco, Romance(s), assina a produção musical. E ainda Paulo Parreira na guitarra portuguesa, e Rogério Ferreira na viola.

"Queria que a história tivesse aquela subtileza que a Llansol tem: parece que dá a ver claramente o que é invisível, parece que consegue dizer o que é indizível. É disso que se trata. Foram dores que eu não quis dizer a ninguém. Eu sou mesmo um animal nisso, não deixo ninguém perceber a minha fraqueza." Não se pense, todavia, que este testemunho é uma espécie de livre-trânsito para a vida privada da fadista que detesta estar no centro de tudo. "A minha privacidade continua intacta e continuará. No dia em que perdermos a noção do espaço privado e público, provavelmente ficaremos uns insensíveis de merda. Desculpe a expressão, não me ocorre outra coisa. Detesto esse aspeto da realidade que estamos a viver hoje. Esta exposição do que é privado, sem freio. É um tiro no pé, uma coisa suicida."

Uma "tábua de salvação"

"Eles não fazem ideia", diz, com um sorriso, Aldina. Falávamos da Comunidade Fado para Todos, que desde janeiro do ano passado se reúne no Museu do Fado para discutir, ouvir (e às vezes cantar) o fado, sob a batuta de Aldina. Um grupo tão heterogéneo que nele cabem uma dona de casa, uma psicóloga, ou um informático bancário. Ela agradece-lhes "pela inteligência coletiva e pela nobreza de espírito" no booklet que acompanha o álbum. "A comunidade foi terapêutica. Acho que foi a minha tábua de salvação", admite. A comunidade foi um projeto de Aldina ainda pensado ao lado do seu então companheiro, e que começaria depois "em plena dor". Ninguém entre os que se contam na comunidade adivinharia. "Obrigava-me a olhar para os outros, a sair de mim, em nome daquilo que eu mais amo. Estava a falar de fado, de poesia, com pessoas que não me conheciam de lado nenhum, nem eu a elas." Agora já não é assim, claro.

No 50.º aniversário da fadista, curiosamente na semana em que gravou o disco, eles ofereceram-lhe aquilo a que Aldina chama "a prenda mais bonita da minha vida". Um livro com poemas escolhidos para ela, e depoimentos escritos por eles acerca de Aldina e da comunidade, que gravaram também em vídeo. "E ainda fizeram uma letra dedicada a mim, e gravaram-na a cantar, pessoas que nem cantam. É uma coisa comovente..." Quando, há cerca de uma semana, Aldina deu um concerto no largo do Teatro São Carlos, lá estavam eles na plateia, aqui e ali, espalhados, discretos, entre admiradores anónimos, pessoas que passavam, ou Camané e Maria da Fé, duas figuras centrais na vida e no fado de Aldina, que lhes agradeceu logo no começo do concerto.

Outro elemento que garantiu a constância da vida no seu quotidiano, apesar do luto que Aldina vivia, foram as noites no Sr. Vinho, a casa de fados de Maria da Fé, onde canta desde 1997. "Fiz uma coisa que nunca tinha feito", começa a contar enquanto conversávamos ainda acerca do concerto. "Vim de cantar no São Carlos para 2500 pessoas, um momento extraordinário da minha vida e que nunca mais vou esquecer, e de repente fui a correr para o Sr. Vinho. Estavam ainda sete pessoas e pedi à Maria da Fé se podia cantar. Ela nem queria acreditar. 'O que é que estás a fazer?' Cantei três fados de que gosto muito. Senti-me tão bem. Cheguei a casa. Fiz as melhores férias da minha vida, mas cheguei a casa. Visitei o sítio mais lindo do mundo, mas cheguei a casa. Parece que é ali que tudo se cumpre. Disso é que eu nunca me vou esquecer."

Sobre a paixão: "Está tudo doido?"

Resistem na distância as histórias mais belas / Ninguém há de apagar um amor que foi feliz, canta a fadista em No Amor do Teu Nome. Como quem vê a vida de novo reerguida, e a si mesma levantada depois de algo que não pediu mas aconteceu (Que há quem escolha a sua sorte / E quem não possa escolher, escreveu Maria do Rosário Pedreira em Beijo Enganador), Aldina Duarte diz ver agora "como é que as coisas, ao longo deste luto, foram ganhando cores tão diferentes; e é lindíssimo ver a mesma coisa a transformar-se." De repente, e pelas mãos do tempo, o que era "horroroso, afinal era um cisne."

A fadista para por momentos e depois recomeça: "Eu sempre gostei dos contos de fadas, mas antes do Walt Disney a branquear. São histórias de amor fantásticas e extraordinárias que mexem com as convenções todas. São sempre muito corajosas, embora acabem em tragédia. Mas qualquer fim é trágico quando o que se quer é viver, não é?"

Oiça-se o disco e perceber-se-á que o luto que Aldina canta nunca diz que não valeu a pena. Pelo contrário, ao arrepio de uma letargia que tantas vezes acompanha o luto, todo ele é vida, uma celebração da paixão. "Acho que vale a pena arriscar qualquer forma do amor que seja. A paixão é uma delas, e muito válida. Não é maluqueira, como se está a fazer querer. Está tudo doido? Só podem estar doidos. Porque é que de repente fica exclusivamente associada a delírio, ao que é doentio? A paixão é o começo das coisas mais sérias da vida na maior parte das vezes, e dos grandes acontecimentos da História da humanidade. Portanto, quis fazer-lhe um elogio."

Outra coisa que Quando se Ama Loucamente nos dá é um outro tempo, fora das horas, quase no avesso da vida. Aí onde a fada Aldiana canta : Quem sabe se qualquer dia / Noutra vida por magia / Eu te encontro inda menino. "Esse é o território da fé e da esperança", explica. E o lugar das fadas. "Eu tenho tanto de cristã como de pagã. Um dia falei com o Padre Tolentino Mendonça e disse: 'Eu misturo os anjos com as fadas.' Ele respondeu: 'Em cada cristão há um pagão.'"

A história de amor de onde partiria o álbum Quando se Ama Loucamente começou com a oferta de um livro de Maria Gabriela Llansol de ele para ela. E no fim de tudo, conta: "Ela foi mesmo o meu grande abrigo, das minhas dores, de tudo o que eu não dizia." No final do disco, ouve-se a voz de João Barrento, do espaço Llansol, a ler uma passagem da escritora que morreu em Sintra, onde Aldina passava os três meses de férias de verão e onde um dia, diz, "gostava de morrer calmamente, e feliz". Ri-se outra vez. Como quando canta, nela o trágico e o seu contrário justificam a existência um do outro num instante.

Por sugestão de Pedro Gonçalves, todo o disco foi gravado num só take: "O mais parecido possível com uma casa de fados." Entretanto, virá uma caixinha de música com uma fada e a melodia que se ouve em Conto de Fadas, que abre o disco. Pedro Cabrita Reis pintou uma aguarela que aparece no disco, Hélia Correia escreveu um texto, Isabel Pinto fotografou Aldina na água, elemento a que esta recorre quando precisa de voltar à vida.

A fadista diz que quando canta costuma dirigir-se a alguém. Agora não. "Estes fados eu não canto para ninguém. Canto-os, não me preocupo com mais nada." No final do disco, vemo-la a rir. É Aldina que se levanta de novo.

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