A tristeza e felicidade dos portugueses mora em Andorra

Novo filme de Joaquim Leitão chega amanhã aos cinemas. "Índice Médio de Felicidade" adapta o romance de David Machado.

De 0 a 10 até quanto conseguimos ser felizes? A pergunta deve ser feita num contexto específico: o Portugal da crise da era da troika. Uma resposta para ser dada por uma família com uma mãe e um pai desempregados e dois filhos na escola.

A mãe, Marta, teve de sair de Lisboa e instalar-se em Viana do Castelo, onde ajuda os pais no café da família. O pai, Daniel, partiu para a luta. Não desiste enquanto não arranjar trabalho. Mas o tempo passa e não há empregos nesta crise. A dada altura, perde a casa. Resta-lhe um desafio de um amigo: meter-se numa carrinha de nove lugares e fazer um favor a uma desconhecida em Andorra. Este é o ponto de partida da adaptação ao cinema do romance homónimo de David Machado.

O índice referido no título é lançado pelo tal amigo, o depressivo Xavier. Juntos, com a ajuda de um outro amigo, Almodóvar, criaram um site de favores em cadeia. É daí que surge um apelo para conduzir de Andorra a Barcelona uma senhora inválida. A história é sobre como uma certa tristeza portuguesa pode ser combatida através do altruísmo.

Joaquim Leitão, depois da adaptação do best-seller Sei Lá, de Margarida Rebelo Pinto, e antes de adaptar O Fim da Inocência, de Francisco Salgueiro, atirou-se de cabeça a esta história, tentando construir um drama com alguma dose de ingredientes emocionais à base de uma certa fórmula feel-good movie à portuguesa. O resultado é tudo menos feliz. Esta viagem terapêutica pode ter muito boa vontade mas não lhe sobram muitas ideias de cinema.

Adaptar romances nunca é fácil (e aqui temos o próprio David Machado na adaptação, bem como Tiago R. Santos, habitual argumentista dos filmes de António-Pedro Vasconcelos) e a imensa quantidade de voz off não ajuda. Índice Médio de Felicidade tropeça num ritmo lento, em diálogos sem chama e numa falta de garra gritante. As personagens são todas moles e as explosões dramáticas são sempre mornas.

Tão mais frustrante é sentirmos que não houve um interesse verdadeiro em filmar uma certa classe média portuguesa (em breve vamos ver Colo, de Teresa Villaverde, onde aí, sim, vemos uma família portuguesa a ser verdadeiramente engolida pela crise económica). Esse poderia ser um dos trunfos do projeto, mas Leitão não parece tocado pelas personagens nem pelas suas dinâmicas familiares. O tom é de um anonimato total, muito perto da mais desinteressante ficção telenovelesca que por aí se vê. Trata-se seguramente do pior filme assinado por Joaquim Leitão, cineasta que depois de 20,13 (2006) parece andar perdido em encomendas.

A própria direção de atores carece de vitalidade, como se os atores estivessem aborrecidos. Marco D"Almeida faz o que pode com uma personagem muito ingrata, Patrícia André demonstra o talento que já conhecíamos dos palcos e António Cordeiro é mais do que competente. Quando a narrativa se converte em "filme de estrada" parece que o filme ainda fica mais lento. As coisas arrebitam um bocadinho quando surge Lia Gama, a interpretar a senhora de cadeira de rodas. É o único raio de sol de um filme tristonho.

No fim, a entrar pelo genérico final, aparece a canção dos Xutos & Pontapés, Sementes do Impossível, composta de propósito para o filme. Mais uma vez, a nossa maior banda de rock colabora num filme produzido por Tino Navarro. Sem dúvida um trunfo importante para a promoção de uma obra que quer chegar ao grande público. Será um teste curioso para perceber se o espectador adere a uma adaptação de um romance recente de um escritor que caiu nas boas graças dos leitores e da imprensa. Já era tempo da novíssima literatura portuguesa ter espaço no cinema português...

Índice Médio de Felicidade é o primeiro filme de uma leva considerável de cinema português a chegar às salas. Já no próximo dia 14 estreiam três curtas: Farpões Baldios, de Marta Mateus, o Urso de Ouro de Berlim, Cidade Pequena, de Diogo Costa Amarante, e o magnífico Coelho Mau, de Carlos Conceição. Setembro traz-nos ainda Comboio de Sal e Açúcar, de Licínio Azevedo, coprodução entre Portugal e Moçambique.

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