A Comedy Central deixou de ser um clube de rapazes

Parte da ascensão das mulheres no canal de comédia norte-americano deve-se ao presidente Kent Alterman, um defensor da diversidade

A primeira coisa que Kent Alterman percebeu quando regressou à Comedy Central em 2010 foi que nada tinha mudado em relação à perceção das mulheres na comédia. Depois de dez anos de ausência, voltou para assumir a direção de produção e programação original e queria introduzir sangue novo no canal. "Fiquei chocado por ainda haver aquela sabedoria convencional, não tanto a ideia velha e esquisita de que as mulheres não são engraçadas, mas a proposta de negócio de que a nossa audiência era composta por homens", disse o agora presidente da Comedy Central, num painel dedicado à diversidade que decorreu em Hollywood.

"Enfrentei muita resistência quando quis introduzir séries lideradas por mulheres", contou Alterman, que foi responsável pelo lançamento de Inside Amy Schumer e Broad City, entre outros sucessos de crítica e audiência.

Apesar de mais mulheres verem televisão do que homens, a corrente dominante em Hollywood é de que as séries e os programas têm de ter "apelo masculino." Isso dificulta a entrada nas grelhas de séries lideradas por caras femininas. O obstáculo também se reflete na escassez de oportunidades dadas a mulheres que querem realizar episódios ou ocupar cargos de poder; e foi por aí que Kent Alterman começou.

"A minha diretora-geral é uma mulher, a líder de negócios também, e tenho outras mulheres em cargos de direção. Isso faz uma grande diferença", explicou o executivo, que disse não ter propriamente chegado à empresa com esta agenda em mente. "Eu queria ter coisas mais engraçadas, inovadoras, diferentes", refere. "Há sempre este puxa e empurra em Hollywood do que é seguro e do que é arriscado." Mas quando o risco é bem tomado, a audiência compensa-o, acredita. "O risco criativo pode ser uma boa abordagem de negócio."

À margem do evento, Alterman explicou ao DN que a influência de mulheres poderosas no seu crescimento influenciou o pendor para aliado do sexo feminino em Hollywood. "Parte do brinde do meu casamento foi passado a falar sobre casar com uma mulher forte. Devo muito à minha mãe, avós e irmã, são todas mulheres fortes", contou, emocionado. "Penso que quanto mais cada um de nós puder ser autoconsciente e ciente do mundo que nos rodeia, mais fortes e eficazes nos tornamos", acrescentou. "É a forma inteligente de abordar o trabalho e a vida. É ser aberto e tentar aprender o máximo possível. É uma vantagem competitiva."

Uma das mudanças quase imediatas que efetuou quando assumiu a presidência da Comedy Central foi relativa à formação antiassédio. "Confrontámos isto há dois anos, antes de explodir publicamente", referiu. Essa alteração foi desencadeada por um episódio de assédio sexual por parte de um comediante que foi varrido para debaixo do tapete por uma supervisora - uma mulher, nada menos. "Porque era a norma", explicou. Não se falava dessas coisas. Alterman pediu à direção de recursos humanos que fizesse um programa de treino mais relevante e a formação foi totalmente revista. Agora, o que reina na Comedy Central é "uma política de recrutamento zero idiotas", disse.

Isso também significa que o escândalo provocado pela denúncia de Harvey Weinstein, e que deu origem ao movimento Time"s Up, não teve grandes efeitos na empresa. A Comedy Central pertence ao grupo Viacom, também dono de MTV, VHI e Paramount Network, e Alterman nota que as coisas estão a evoluir como um todo. "Não posso falar por outros, mas posso dizer que há um sentido de menos isolacionismo do que antes. Vê-se isso desde que houve a mudança na gestão."

Alterman tem uma visão interessante sobre o momento que se vive não só em Hollywood e diz que não é possível saber se isto teria acontecido caso Hillary Clinton tivesse ganho em vez de Trump. "Às vezes é preciso lembrarmo-nos de que se ela tivesse ganho estaríamos a viver num mundo diferente. Aprendemos com Obama: tivemos o primeiro presidente afro-americano e o racismo não acabou", disse.

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