Eva Green, o charme da musa gótica de Tim Burton

Protagonista de A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares, a ex-Bond girl encaixa a sua negritude no universo de Burton

Foi Bernardo Bertolucci quem em 2003 inventou Eva Green em Os Sonhadores, a sua homenagem libertina a Truffaut. O mesmo Bertolucci que afirmou que a sua beleza era indecente. Mas essa indecência tem ainda a verdadeira sacanagem das melhores atrizes com sal. Com sal, com veneno, com charme, com classe. A vantagem de Eva é que convoca tudo. À conta dessa imensidão de peculiaridades, já foi estrela de blockbusters, de filmes de culto e de obras arty. Uma atriz para todas as ocasiões e que nesta altura é preciosidade rara. Faltam em Hollywood, sobretudo em Hollywood, atrizes com essa carga, capazes de um olhar selvagem e de pisar o plateau com um à-vontade tão dominante. É isso, Eva Green é uma criatura de cinema que domina.

Agora é a musa de Tim Burton, gótica e estilizada. A sua senhora Peregrine possui todos os mandamentos weird para ser heroína burtoniana: uma aura deslocada, um guarda-roupa escuro e uma presença ameaçadora. Uma fada feiticeira que ajuda crianças "diferentes" que não encaixam no mundo real, o nosso. Uma guardiã da terra dos freaks que faz da excentricidade dos mutantes algo de genuinamente sedutor. Se quisermos, uma bruxa boa que é uma versão de espelho distorcido de Mary Poppins. Um papel que encaixa na perfeição em Eva, atriz que tem uma afeição nítida por personagens de margem.

Nascida em França, cedo se tornou bilingue e foi estudar para Londres

A colaboração com Tim Burton já tinha sucedido em Sombras na Escuridão, uma divertida comédia de vampiros com data de 2012, em que aplicava a sua negritude sexy ao universo sinistro da vampiragem . Tinha um piadão enorme e aparecia com uma cabeleira loura que primava pelo exagero. Consta que Burton nesse plateau deu-se muito bem com ela e terá percebido que a atriz emanava todo o seu universo. Aliás, Eva deverá ter chamado a atenção de Burton quando surgiu "estranha, estranhíssima" em Franklyn - Colisão entre Dois Mundos (2008), de Gerald McMorrow e em Cracks - Inocência Roubada, de Jordan Scott, em que era ameaçadora e tremendamente sensual num conto sobre meninas de colégio interno.

Nas mãos de Tim Burton, Eva tem aquele apanágio de dama gótica elegante, tão bela como potencialmente maléfica, tão bizarra como sedutora. Tem aquilo que a sua anterior diva, Helena Bonham Carter, não tinha, peso. Mas compete com a estranheza de outras musas: a Michelle Pfeiffer do Batman Regressa (1992), embora lhe falte um "miau" iconográfico; ou a Winona Ryder de Os Fantasmas Divertem-se (1988) e Eduardo Mãos de Tesoura (1990).

A novidade com Eva é que Tim Burton parece ter também ficado seduzido com um refinamento novo. Em A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares terá ganho a tal fatalidade que as outras musas não tinham. Veja-se uma certa infantilização em Christina Ricci em A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, em 1999, ou toda a pose disneyana de Lisa Marie numa série de filmes (em Marte Ataca! chegou a dar nas vistas). Marie e Bonham Carter, além de musas, foram companheiras do cineasta.

O je ne sais quoi de Eva

São muitos os que atribuem parte do charme de Eva ao seu percurso. Nascida em França, cedo se tornou bilingue e foi estudar para Londres, onde começou a especializar-se num sotaque inglês muito posh. Ficou com o melhor da finura britânica mas não perdeu a tal finesse francesa. É claro que o cinema francês não a agarrou e depois de 007 - Casino Royale, ainda hoje um dos melhores Bonds, ficou lançada para a fama global. A sua Bond girl é tão forte que está para além do compartimento da mera Bond girl. É quase consensual que até hoje é o papel feminino mais coeso de toda a franchise. Mas, com mais ou menos type casting, as suas grandes criações são mulheres fatais, neste caso em 300 - O Início de Um Império, de Noam Murro, e Sin City - Mulher Fatal, de Robert Rodriguez, ambos de 2014. É sobretudo neste último, como impiedosa assassina pintada a preto e branco num universo de fumo e BD, que espantou o mundo. Uma composição com um veneno de vamp que levou muito boa gente a não ter medo de a comparar à Kathleen Turner dos anos 1980 ou à Lauren Bacall jovem.

Agora, fresca do impacto da série demoníaca Penny Dredfull e A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares (o filme fica sempre mais rico com ela, é pena surgir inesperadamente tão pouco), está em alta novamente. O mundo quer ver e sentir a sua estranheza. Depois de acabar Euphoria, de Lisa Langseth, em que contracena com a sueca Alicia Vikander, estará às ordens de Roman Polanski em Based on a True Story, thriller literário escrito por Olivier Assayas.

O feitiço gótico de Eva Green está a render...

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