Viúva transporta casamentos e rejeita propostas de compra

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Ana Fantasia. Está à frente de uma empresa de transportes que se prepara para entrar na quarta ge-ração. Um negócio familiar que se lançou na inovação

Quando a empresa Viúva Monteiro e Irmão nasceu, "oficialmente em 1935", ainda era o tempo de ir à Guarda "buscar o correio e trazê-lo para o Sabugal", conta Maria Luísa Monteiro, da terceira geração da primeira empresa portuguesa a efectuar um expresso rodoviário para França. Foi Virgílio Monteiro quem "comprou uma diligência para ir buscar a mala-posta à estação de comboio do Barracão", conta. "Entretanto, o meu bisavô enviuvou e a empresa registou-se como Viúva Monteiro e Irmão", revela Ana Monteiro, a próxima geração a tomar em mãos os destinos desta empresa que tem a particularidade de ter uma administração só de mulheres. Num universo de 29 funcionários, 20 autocarros e cinco administradoras, a Viúva, como é conhecida no Sabugal e em toda a Beira Interior, "é hoje o negócio de várias vidas", diz Maria Luísa, uma professora de Lisboa que todas as segundas-feiras se desloca ao Sabugal para tratar dos negócios da família.

Em 1960, "a emigração enche-nos os autocarros e o meu avô cria uma ligação directa a Paris", adianta Ana Monteiro. Estava iniciado um negócio que tem atravessado várias vidas. As cinco mulheres que actualmente administram a empresa herdaram "um passivo de 500 mil euros". "Mas resolvemos investir e continuar a crescer, não em dimensão mas em qualidade, que é a única forma de as pequenas empresas de transporte de passageiros sobreviverem", afirma Ana Fantasia, outra das mulheres ao leme da Viúva. "E estamos a renovar a frota até que a idade média atinja os 10 anos", revela a mesma responsável.

Numa empresa de mulheres, "a imagem do motorista é a imagem que passa para o exterior". Conceitos num interior onde "a grande maioria dos motoristas trata os passageiros pelo nome", revela Ana Monteiro. É que "quando chegámos à administração, por via da morte do meu avô, encontrámos uma empresa decadente, fechada e cheia de estereótipos antigos". Ana Monteiro e a restante administração resolveram então "adquirir os primeiros autocarros novos, cada um a 40 mil euros". "Manter uma empresa destas é uma teimosia, mas aqui vive-se muitíssimo bem", diz Maria Luísa.

Com o ressuscitar do negócio, a empresa "optou por contratar serviços em vez de os criar". O outsourcing instalou-se e "hoje a consultoria para as viaturas, advocacia e economia são áreas que contratamos no exterior. O resto é tudo feito por nós", afirma Ana Fantasia. Com a desertificação do interior em processo acelerado, "a diminuição de passageiros acaba por ser uma consequência e tivemos de lançar novas ideias". Às excursões e transporte de alunos a empresa juntou o pioneiro serviço "Leva-me para o Casamento eTraz-me de Autocarro". "Temos pessoas que casam aqui mas depois a boda é a 30, 40 ou mais quilómetros. Casamento significa alegria e festa, pelo que os noivos optam por alugar autocarros para o transporte dos convidados e estes deixam de se preocupar com os testes de alcoolemia no regresso", afiança Ana Monteiro.

Os tempos modernos implicam a concentração no sector do transporte de passageiros. "Já tivemos ofertas de compra, mas recusamos sempre. Este é um negócio familiar e assim irá continuar a ser", adianta Ana Monteiro.|

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