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Passar por uma experiência <em>aupair </em>é uma boa opção para viajar, conhecer outras culturas, ganhar sentido de responsabilidade, aperfeiçoar uma língua estrangeira, fazer amigos, trabalhar noutro país ou até mudar de vida. A nm conta-lhe as histórias de três jovens portuguesas que rumaram aos EUA e à Alemanha para cuidar de crianças. De uma aventura só se sabe como começa.<br />
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O programa aupair dirige-se a raparigas dos 18 aos 26 anos de idade que tenham, no mínimo, concluído o 12.º ano de escolaridade. A maioria das jovens que procuram esta experiência já têm uma licenciatura. Existem alguns requisitos obrigatórios para se poderem candidatar. «É obrigatório saber falar inglês razoavelmente, o suficiente para conseguirem entender as crianças com quem irão conviver e para se expressarem. Devem também ter carta de condução porque vão ter um carro à sua disposição para ir buscar e levar os miúdos à escola. Obviamente, têm de gostar de crianças», refere António Valadas, director da Multiway, uma das agências que trabalham actualmente com aupairs nos EUA. «Por vezes, temos pedidos para países europeus, daí que encare, num futuro próximo, começar a ter também aupairs na Europa, o que lhes permite irem por um tempo mais curto. Nos EUA, o tempo mínimo de permanência é de 12 meses.»
As inscrições estão abertas todo o ano pois existem partidas mensais e as candidatas têm de pagar uma taxa de 140 euros, que se destina a remunerar o trabalho desenvolvido pela agência e que inclui testes psicotécnicos, uma entrevista presencial, seguro e as burocracias respeitantes à viagem. «Realizo uma entrevista em inglês com a aupair, um teste psicotécnico e uma troca de informações para que saiba exactamente o que é o programa e o que é esperado dela. Existem alguns documentos que devem ser preenchidos pelas candidatas. Têm de fornecer informação escolar, entregar três cartas de recomendação de pessoas conhecidas que são confirmadas posteriormente (por exemplo, pais de crianças a quem prestaram serviços de babysitting; professores ou colegas de curso), sendo ainda exigido um registo criminal», salienta o director da Multiway. A informação é posteriormente enviada para a agência dos EUA e as candidatas entram efectivamente num processo de selecção.

Rapazes não entram
Apesar de, hoje em dia, já existir alguma divulgação, os programas aupair ainda são desconhecidos da maioria das pessoas. Muitas das candidatas ouviram falar deles em alguma acção de promoção, pesquisaram informação na internet ou deixaram-se convencer por uma amiga que tenha vivido a experiência.
Dizemos amiga porque os programas costumam fazer-se no feminino. Embora se encontrem algumas agências que aceitam rapazes para o desempenho deste trabalho, a Multiway não o permite. A explicação é simples. «Não é muito comum, mas uma aupair pode ter alguma divergência e necessitar de mudar de família. Enquanto existem logo famílias que procuram raparigas para o trabalho de aupair, a escolha de rapazes é muito mais escassa, sendo difícil a sua integração.»
As aupairs têm de permanecer durante um ano nos EUA e trabalhar 45 horas semanais a tomar conta das crianças da família de acolhimento: «As suas funções passam por estar com elas, ajudarem-nas a fazer os trabalhos de casa, levarem-nas e irem buscá-las à escola, dar-lhes banho (se forem pequenas) e fazerem algumas brincadeiras. É uma espécie de trabalho de babysitter», refere António Valadas. A aupair recebe 158 dólares por semana e tem direito a alojamento e a alimentação. É o chamado «dinheiro de bolso», uma ajuda para as suas despesas. Tem ainda direito a uma bolsa até 500 dólares para os estudos que vai fazer nos EUA. «É obrigatório escolher determinados módulos até ao fim da estada lá fora para que não possam ser consideradas trabalhadoras mas sim trabalhadoras/estudantes. Por outro lado, antes de partirem, estão obrigadas a fazer um depósito de 500 dólares, uma espécie de garantia de que ficarão nos EUA durante aquele período de tempo, que é reembolsado após o regresso. Se decidirem voltar antes dos 12 meses, a viagem de regresso é paga do seu bolso e perdem o direito ao reembolso», reforça o director da Multiway. Ao contrário de outras agências para aupair, a viagem de ida e volta é da total responsabilidade da Multiway. Actualmente, as raparigas podem, se assim entenderem, prolongar a sua estada por mais seis ou doze meses, o que constitui uma novidade do programa.

Mudar de vida
Ana Lanceiras tinha 20 anos quando se inscreveu na agência e 21 quando partiu para os EUA. Teve conhecimento do programa através dos serviços sociais do Instituto Politécnico de Lisboa, onde estudava na altura. «Estava a acabar o curso de Publicidade e Marketing, especialização em Marketing, na Escola Superior de Comunicação Social, e não me aliciava a ideia de começar logo a trabalhar e ficar presa a obrigações diárias. Sentia que se o fizesse talvez nunca mais tivesse a oportunidade de explorar o mundo.» Encontrou, portanto, um verdadeiro escape para a vida empresarial, com a qual acabou por não se identificar minimamente.
Apesar de ser filha única, os pais nunca se opuseram à sua decisão. «Estavam muito habituados a estar longe de mim porque moram no Algarve e eu estudava em Lisboa. Lembro-me apenas de o meu pai me perguntar: e se gostares tanto daquilo e optares por lá ficar?» Ana nunca pensou que tal fosse possível até porque tinha namorado em Lisboa, com quem tencionava casar. O regresso estaria garantido, pensava ela.
Mas nessa altura ainda estava para vir o dia que mudou toda a vida de Ana Lanceiras. A família em que foi colocada foi a única com quem contactou durante todo o processo. «Foram muito simpáticos e tinham apenas uma menina de 13 anos, também filha única. Chamava-se Carolyn. Os pais trabalhavam todo o dia, chegando a casa por volta das 19 horas. Por vezes, a mãe também viajava em trabalho e eu lá estava para ajudar no que fosse preciso», refere. Ana vivia nos subúrbios de Filadélfia, tinha o seu próprio quarto, dava-se bem com a família, apesar de confessar que «nem sempre correu tudo bem».
O tempo foi passando e, ao final de um ano e ao contrário do que pensara, a jovem começou a equacionar a hipótese de tirar um mestrado nos EUA. Foi aí que conheceu o seu actual marido. Namoraram durante um ano e meio e casaram. Actualmente, Ana Lanceiras também tem o apelido Grabish, é mãe de um rapaz de 4 anos e, juntamente com o marido, já coloca a hipótese de ir viver para outro país, Portugal ou não.
Passaram dez anos desde que Ana Lanceiras se aventurou como aupair. Hoje, com família constituída, continua a conviver com a família que a acolheu. E embora dê muito mais valor à cultura e aos costumes do país, percebe «a urgência em aceitar outras maneiras de pensar e de viver». Diz que também tem «mais confiança nas suas capacidades» e que aprendeu «a ultrapassar barreiras, seja de que natureza forem».

Uma cidadã do mundo
Rita Nascimento teve o primeiro contacto com o programa aupair numa aula de inglês. Tinha apenas 11 anos quando estudou um texto que referia a experiência. «Na altura, lembro-me de ter achado que aquilo era uma coisa engraçada, que gostaria de fazer mais tarde. Entretanto, segui a minha vida e quando tinha 19, 20 anos, andava à procura de escolas e opções para estudar fora do país. Tinha estado a estudar teatro em Portugal e os cursos lá fora eram muito caros. Foi quando me lembrei da tal história das aupairs, em que eu poderia estudar e evitava os custos do alojamento e da alimentação, para além de ser uma experiência única», afirma.
Depois de alguma procura que incluiu a visita às embaixadas dos EUA e do Reino Unido, acabou por encontrar o que procurava. «Gostei menos das condições de Inglaterra e achei que o programa que ofereciam para os EUA era mais organizado e dentro daquilo que eu gostaria de fazer. Fui até à agência, comecei a tratar dos documentos necessários e tive de tirar a carta pois era uma regra essencial para me inscrever. Depois, o processo foi muito rápido. Tive de apresentar um relatório criminal, ir a uma consulta médica, escrever uma carta de apresentação para a família e realizar uma entrevista com o dono da agência. Passado muito pouco tempo, tive um primeiro contacto com a família de acolhimento», diz-nos.
Fazer um curso superior não era a sua prioridade. Com o apoio da mãe – acérrima adepta de viagens –, que começou logo a pensar que a poderia ir visitar, Rita começou a fazer as malas. EUA aí vou eu! Destino? Filadélfia, tal como Ana Lanceiras (conheceram-se na altura e ainda hoje são amigas). Primeiro impacte? Não se recorda. «Não tinha ideias preconcebidas do que iria encontrar. Os membros da família eram muito simpáticos e o local onde eu estava agradava-me. As primeiras três semanas foram de adaptação», explica. Tinha de ir buscar as crianças à escola de carro e teve de aprender os caminhos, a rotina da casa e tentar perceber como eram as pessoas e como iria ser o seu relacionamento com elas. «Quis tentar perceber os miúdos, que era com quem ia passar mais tempo, a Zoe, que na altura tinha quase 7 anos, e o Tyler com quase 5. Éramos cinco pessoas, um cão e dois gatos», acrescenta. Garante que nunca teve tempo para se sentir sozinha e que acabou por conhecer «raparigas que estavam a passar pela mesma experiência».
A teoria repleta de regras, direitos e deveres nunca preocupou Rita: «Nunca encarei o programa como um trabalho nem olhei ao que deveria exigir. Eu trabalhava muito menos do que as horas semanais exigidas.» Optou por tirar três cursos na área de representação, seguindo a experiência que tinha adquirido em Portugal. Sentia-se vocacionada para ser actriz e considerou excelente a hipótese de tirar um curso noutra língua. Escolheu ainda uma formação em cerâmica: «Sempre fui fascinada por tudo o que se relacionava com barro e fiz muitas canecas e tigelas que a minha mãe gosta muito para servir aperitivos às pessoas que nos visitam.»
Durante as duas semanas de férias, recebeu a visita da mãe e aceitou o convite para ir, como membro da família, para uma ilha perto de Atlanta, na Geórgia: «Nadar numa praia com golfinhos é algo que cansa e que dá cabo do sistema nervoso de qualquer um», ironiza.
Ao contrário de outras aupairs que relatam problemas com as famílias, Rita Nascimento considera que a sua história é atípica: «A minha experiência foi peculiar, nunca tive qualquer problema. Houve um perfeito encaixe de personalidades.»

Rumo ao universo
«Antes de partirem para os EUA, as aupairs são preparadas para o choque cultural que poderão enfrentar. «A primeira semana é passada em Nova Iorque num workshop organizado pela agência em que nos dão noções de primeiros socorros e nos preparam para o ano nos EUA. Obviamente que há sempre coisas diferentes nas outras culturas.» Rita não sentiu qualquer choque cultural quando entrou nos EUA, senti-o ao regressar a Portugal. «Era tudo muito pequenino. Lembro-me de que ia destruindo o frigorífico quando cheguei a casa porque o dos EUA era bastante maior e requeria muita força para abrir. Achei as ruas e as casas minúsculas. O facto de estar fora um ano fez que não tivesse a mesma relação com os meus amigos da altura porque as pessoas acabam por se afastar. Tive pena também de deixar a minha família e os amigos que fiz. Foi mais difícil voltar do que partir, ao contrário da maioria das pessoas». Actualmente, tal sentimento foi ultrapassado.
Rita considera-se uma cidadã do mundo. Estudou três anos em Sevilha, estagiou em Itália, trabalhou no País de Gales e tem recebido algumas propostas que a fazem hesitar. Actualmente, dedica-se à actividade de pastelaria e com imenso sucesso, como poderão confirmar no blogue onde divulga as suas obras-primas – www.cake-land.blogspot.com. Surpresos? «Quando voltei dos EUA, vi que o teatro era uma actividade muito difícil e comecei a pensar estudar pastelaria e fazer disso uma nova carreira. Tirei um curso superior e actualmente trabalho por conta própria e dou apoio a algumas empresas. Estou muito satisfeita com a minha decisão», confessa.
Rita mantém contacto assíduo com a família de acolhimento. Actualmente, são as próprias crianças que lhe escrevem, que lhe pedem conselhos. E só para as ver voltou lá duas vezes: «Foi para assistir ao bat mitzvah da Zoe e ao bar mitzvah do Tyler, uma festa judaica muito importante que consiste na apresentação das crianças à sociedade quando têm cerca de 11 anos.»

Três experiências distintas
Mafalda Cabral era muito nova para se candidatar ao programa aupair por altura do primeiro contacto com o mesmo. Estava no 11.º ano: «Aí uns dois anos antes de ir para os EUA, comecei a acompanhar o blogue de uma rapariga portuguesa que estava a fazer o programa e achei fascinante», explica. Tinha 22 anos quando decidiu que queria mesmo candidatar-se mas já havia colocado essa hipótese antes. «Com o curso de História terminado no ano anterior, sem estágio nem trabalho na área, achei que era o momento certo para me lançar nessa aventura», confessa.
Mafalda Cabral já passou por três experiências diferentes, uma vez que teve um problema com a primeira família norte-americana: «Decidi mudar porque, além de não me ter sentido bem tratada na primeira casa, estava praticamente a fazer todo o trabalho doméstico, o que não faz parte das regras. Substituía a mãe das crianças, limpava a casa, tratava dos cães, era secretária pessoal da mãe. Foram quatro meses difíceis, mas achei que não devia desistir. Já tinha feito amigos e sabia que isso ajudava e tinha uma community councelor fantástica que me apoiou sempre até ao fim», adianta. Nos EUA, há representantes regionais das agências, que apoiam as aupairs quando há algum problema e organizam convívios mensais com as jovens.
À experiência americana seguiram-se oito meses na Alemanha, «numa família e num sítio fantásticos», onde fez mais amigos e viveu experiências memoráveis. Mafalda Cabral confessa que «a vida alemã é mais parecida com a de Portugal. As minhas funções são praticamente as mesmas que tinha com a segunda família nos EUA, mas com menos horas de trabalho e um salário igualmente menor. Tem corrido tudo muito bem por aqui».
A família vive em Witten, perto de Colónia e Düsseldorf: «Os meus host parents estão separados, mas dão-se muito bem e normalmente o pai está cá em casa na hora das refeições e para deitar os miúdos. Tomo conta de três crianças, apesar de ainda haver uma irmã com 14 anos, de quem não preciso de cuidar. O único rapaz tem 11 e as outras duas meninas têm 9 e 5 anos. Fazem ainda parte da família dois cães, dois porquinhos-da-índia e um coelho!»
As tarefas de Mafalda são muito semelhantes às relatadas pelas duas aupairs também entrevistadas pela nm. As compensações é que diferem: «Tenho o pocket money de 260 euros por mês, um género de passe que posso utilizar sempre e frequento um curso de alemão pago pela família.» Por esta altura e perto do regresso, já sente saudades da sua família e dos seus amigos e conta os dias para voltar. Mas sabe identificar muito bem as grandes vantagens deste programa: «Fazemos amigos. Viajamos. Ganhamos outra família. Crescemos.» Quem quiser acompanhar os últimos dias da vida de Mafalda na Alemanha pode aceder ao blogue http://maphalafora.blogs.sapo.pt/.

Só para educadoras de infância
Além do programa aupair, a Multiway tem ainda à disposição o programa Aupair Par Expérience que tem condições muito especiais e é indicado para raparigas que se licenciaram em educadoras de infância. Recebem 225 dólares por semana e também têm direito a uma bolsa. No final dos 12 meses, recebem ainda um bónus de 600 dólares. É uma forma de começarem a trabalhar no curso em que se especializaram. «Hoje em dia, qualquer experiência no estrangeiro é óptima para o curriculum. Qualquer pessoa que demonstre a capacidade de enfrentar uma cultura estrangeira durante um determinado período de tempo, para as empresas, conta quase mais do que o próprio curso. É a chamada experiência cultural de longa duração, que permite enfrentar novos desafios em qualquer parte do mundo», salienta António Valadas.
Para contactar a Multiway, telefone para os nºs. 21 813 25 35 ou 91 815 74 27 ou escreva para o e-mail multiway@multiway.org.


11 de Setembro «ao vivo»
Rita Nascimento estava nos EUA quando se deram os atentados de 11 de Setembro. «Lembro-me perfeitamente desse dia. Levantei-me, liguei a televisão por casualidade e dei de caras com as imagens do 11 de Setembro. Pensei que era um anúncio e que era de muito mau gosto transmitirem-no. Passado um minuto é que realizei o que estava a acontecer. Fui logo falar com a Cyndie [a mãe das crianças] e ali ficámos. Em choque. E preocupados porque o pai, Dave, tinha ido dar uma conferência a Chicago. Todos pensámos que ele poderia estar num daqueles aviões, ainda não se sabia de onde vinham nem para onde iam», conta. Recorda que as escolas foram fechadas, não havia transportes à disposição e que a mãe das crianças teve de ir buscar o Dave porque a conferência foi cancelada. «Passadas umas semanas, tive a oportunidade de ir a Nova Iorque e de constatar de perto o que se tinha passado. A imagem era realmente devastadora», refere.

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