Sempre que uma porta se fecha nesta comédia, abre-se logo outra. Cada entrada em cena introduz novos elementos que complicam o emaranhado de equívocos e desencontros que é 2 Amores, peça com a qual José Pedro Gomes e António Feio regressam a partir de hoje ao palco do Teatro Villaret..Numa peça feita de dualidades, António Feio volta a assumir a dupla condição de encenador e intérprete e a preterir o papel principal, com o qual ficou José Pedro Gomes. À semelhança de outras peças encenadas por si, como Jantar de Idiotas e 0 Chato, 2 Amores acaba por revelar uma forte cumplicidade cómica entre duas das personagens..Uma cumplicidade adensada pelo facto de, neste caso, actualizar uma das duplas de maior sucesso do humor português. Embora os seus caminhos se tenham cruzado há mais tempo, António Feio, de 51 anos, e José Pedro Gomes, de 54 anos, começaram a trabalhar juntos com maior intensidade há cerca de dez anos. "Encontramos em todos os trabalhos uma forma muito especial de fazer comédia", explica António Feio. "Temos processos de representação diferentes, mas partilhamos os mesmos objectivos", diz..Um homem, duas casas.2 Amores conta a história de um homem dividido entre duas mulheres e residências. Por um lado, a "Rua do João das Regras", por outro a "Avenida da Liberdade aos Prazeres". José Pedro Gomes interpreta João Santos, um taxista bígamo que gere os seus dois casamentos de acordo com os turnos do trabalho. Tudo corre sobre rodas até um acidente perturbar o seu precário malabarismo matrimonial. .José Pedro Gomes compara a sua personagem a um aprendiz de feiticeiro, que "às duas por três não consegue dominar as situações em que ele próprio se mete". .António Feio faz o papel de Simão, o vizinho hippie e desocupado que tenta ajudar o taxista a manter a farsa, ainda que inadvertidamente a sua presença só a complique ainda mais..Os equívocos causados pelas mentiras sucedem-se, à medida que o caos começa a tomar conta da história. O desfecho catastrófico pressente-se várias vezes estar iminente, sempre para ser evitado no último momento pela desenvoltura de João e Simão..António Machado, Cláudia Cadima, João Didelet, Joaquim Guerreiro, Maria Henrique e Martinho Silva ajudam a compor o elenco desta "comédia de situação e costumes", como a descreve José Pedro Gomes. .António Feio escolheu encenar o texto do britânico Ray Cooney depois de assistir à sua representação no Théâtre de la Michodière, em Paris. "É uma comédia como há poucas, muito bem escrita, com personagens muito bem definidas e com bastante potencial cómico", explica..Depois de êxitos em comum, com O que Diz Molero (1994 e 1999), Conversa da Treta (1997 e 2000), Arte (1998), Inox (2000) e O Último a Rir (2004), os dois amigos escolheram a peça de Cooney para voltarem a partilhar o mesmo palco, depois de uma interrupção de dois anos. Em 2005, após ser operado a um aneurisma cerebral, José Pedro Gomes estreou a peça Coçar onde é Preciso, uma comédia sobre o típico "portuga". .2 Amores e a estreia da adaptação cinematográfica da Conversa da Treta, intitulada Filme da Treta , assinala o regresso definitivo da dupla. "Já tinha saudades de trabalhar com o António", diz José Pedro. "É muito divertido trabalhar com ele e como encenador é alguém que dá uma segurança extraordinária", assegura. Os primeiros espectáculos de 2 Amores (às 21.30, de terça a sábado, e às 16.30 ao domingo) já esgotaram e não existe data para sair de cena.. O texto original da peça tem quase 30 anos, já tendo sido representado em Portugal por João Mota e Raul Solnado, e acumula vários episódios caricatos no seu longo historial de actuações, em vários países. Um deles, a meio caminho entre a verdade e o mito, dá conta de um espectador que morreu durante uma representação e em relação ao qual António Feio só deposita a esperança de "que tenha morrido a rir".