Depois de 16 horas de votação, às 04.30 de quarta-feira, o plenário conjunto da Câmara dos Deputados e do Senado aprovou por maioria o projeto do governo que revê a meta orçamental e autoriza um défice de 170 mil milhões de reais para as contas de 2016. A aprovação da meta era essencial para o executivo provisório liderado por Michel Temer, do PMDB, caso contrário teria de cortar investimentos e programas sociais. Por isso, horas depois, o presidente em exercício regozijava-se com um sorriso no rosto: "Ficámos todos a assistir à votação até de madrugada, foi uma bela vitória.".Desde meados do primeiro mandato de Dilma Rousseff, do PT, que uma sessão no Congresso não acabava com sorrisos no Planalto. Pelo contrário: ao longo do segundo e inacabado mandato, a presidente acumulou desaires e amargos de boca, incluindo as derrotas nas votações do seu impeachment na Câmara dos Deputados e Senado. Para as alegrias de Temer de hoje e as tristezas de Dilma contribuiu um homem: Eduardo Cunha (PMDB)..O presidente da Câmara dos Deputados afastado por unanimidade no Supremo Tribunal Federal (STF) por "não ter qualificações pessoais mínimas para ocupar a segunda figura da hierarquia do Estado", por "representar risco para as investigações penais do STF" e por "usar o cargo para destruir provas contra si", tem, no entanto, um preço: influência pesada no governo de Temer..O nome do último cunhista a entrar no executivo foi o mais controverso. André Moura (PSC), que gosta de ser tratado por "André Cunha", tal a proximidade com o aliado, e é o "líder da polícia de choque de Cunha", foi nomeado representante do governo na Câmara. Moura "tem um prontuário de dar inveja ao padrinho", escreve Bernardo Mello Franco, na Folha de S. Paulo. "Investigado na Lava-Jato (...) é réu em três ações penais no STF, sob acusação de desviar verbas, foi condenado por improbidade após torrar dinheiro público para promover um churrasco e responde a mais três inquéritos." Um por tentativa de homicídio de um ex-aliado.."Moura no governo é um escárnio", comentou Jarbas Vasconcelos, que votou, como Cunha, pelo impeachment e até é, como o deputado, do PMDB. "O cleptomaníaco Cunha manda no governo do Temer", reagiu Paulo Teixeira, do PT..Antes de Moura, dois advogados pessoais e dois membros acabados de sair do gabinete de Cunha entraram para cargos-chave políticos e jurídicos do governo Temer. A comunicação institucional também passou a ser da responsabilidade de um "cunhista". Reportagem d"O Estado de S. Paulo informa que o deputado quer ainda indicar um novo diretor da Receita Federal, órgão com papel fundamental nas três maiores operações policiais em andamento no país, a Lava-Jato, da qual Cunha é réu, a Zelotes e a Acrónimo..A influência de Cunha, continua o Estadão, resultou ainda no chumbo de Mara Gabrilli, do PSDB, para a pasta dos Direitos Humanos por ela ter exigido em público a sua demissão e a entrada no executivo do também tucano Bruno Araújo, membro da "polícia de choque de Cunha", como titular das Cidades..Interrogado no Conselho de Ética da Câmara - onde responde por falta de decoro por ter mentido sobre contas na Suíça - quanto à influência no governo, Cunha, político mais detestado do país, com 80% de rejeição, segundo o Datafolha, foi perentório: "Falso, não indiquei um alfinete sequer neste governo, mas se indicasse não haveria ilícito.".Em simultâneo, deputados do PSOL entraram com pedido no STF para impedir que Cunha continue, mesmo afastado da presidência da Câmara, a usufruir de gastos na ordem dos 500 mil reais por mês (mais de 125 mil euros). Segundo dados do próprio partido, cerca de 400 mil, resultam dos custos de manutenção da sua residência oficial, 33 mil de salário e 92 mil para pagamento dos funcionários do seu gabinete..São Paulo.[artigo:5193581]