Trinta vultos que merecem as novas páginas da História

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Trinta vultos que merecem as novas páginas da História
O silêncio das 'Kalashnikov', após 41 anos de guerra em que petróleo e diamantes serviram mais para destruir cidades do que para construir sonhos, permite destacar uma trintena de nomes relevantes nestes 30 anos de independência

Dom da oratória e imagem moderna, o primeiro líder da bancada parlamentar da UNITA, discordando do retorno às armas de Savimbi, manteve-se em Luanda, mas sem aderir à UNITA Renovada. Actualmente, até deixa o caminho da candidatura presidencial para o líder Samakuva, mas o futuro do partido deve passar por este jovem político, que cativa tanto os círculos urbanos luandenses como os EUA.

Agostinho Neto

"Hoje, a África parece um corpo inerte, onde cada abutre vem debicar o seu pedaço." Aquele "hoje" não significa 2005, mas 1977, quando o Chefe do Estado de Angola proferiu a frase na 15.ª Conferência da OUA. Um dos raros poetas-presidentes da História, quando Agostinho Neto assumiu o poder já era, havia décadas, um vulto respeitado pela sua produção literária e, sobretudo, pelo activismo político anti-salazarista e pela consagração da ideia do nacionalismo angolano. Falhados os acordos do Alvor (um Governo tripartido), ao proclamar a independência, numa Luanda cercada pela FNLA e pelos soldados zairenses, a norte, e pela UNITA e pelos militares sul-africanos, a sul, a música de fundo da festa era a batalha de Kifandongo, onde já lutavam cubanos. A partir daí, na terminologia oficial, começava a "segunda guerra de libertação nacional".

Desde Alda Lara que a literatura angolana não tinha uma autora tão importante como Ana Paula Tavares. A lírica dos poemas de Ritos de Passagem ou Dizes-me Coisas Amargas Como os Frutos justificavam, por si só, a escolha. Mas optar por uma poetisa permite mostrar que a importância das mulheres não se mede apenas pela boda da filha de José Eduardo dos Santos.

António Ole

Ao chocar Luanda colonial com o quadro Sobre o Consumo da Pílula, em que Paulo VI tomava o comprimido, António Ole iniciava uma carreira fulgurante nas Artes Plásticas. Telas, assemblages, vídeos, filmes, instalações têm divulgado a sua assinatura na Bienal de Veneza, no MoMA nova-iorquino ou no parisiense Georges Pompidou.

Um "kota" da música respeitado pelos jovens, Bonga iniciou a carreira nos anos 50. Lançou 32 álbuns, compôs umas 300 músicas e tem temas seus cantados pelos brasileiros Martinho da Vila e Alcione, pela francesa Mimi Lorca, pelo zairense Bovic Bondo Gala, pelo uruguaio Heitor Numa de Morais, pela nova vaga angolana - até grava com a cantora dos Vaya Con Dios. A propaganda da UNITA apresentava-o como próximo do movimento.

Secretário-geral da UNITA, presente no Protocolo de Lusaka, Eugénio Manuvakola rejeitou o regresso à guerra decidido por Savimbi, em 1992. Ao lado de Jorge Valentim e alguns deputados, criou a UNITA Renovada, que ganhou o labéu de "fantoche do MPLA". Após a reunificação, defendeu uma reflexão crítica acerca do passado.

A organização da primeira Trienal de Arte de Luanda, no próximo ano, projectou o nome do artista plástico Fernando Alvim, que é o comissário dessa mostra transversal, onde vão participar criadores africanos contemporâneos, e também espaço para reflexão, com convites enviados a Mandela e Morin.

O oitocentista Tratado de Simulambuco é a base jurídica evocada pelos movimentos independentistas de Cabinda. Ao longo dos anos, a Frente de Libertação do Enclave de Cabinda teve várias dissidências e cisões. Muito activa, até no rapto de cooperantes, tem sido a FLEC- -FAC, liderada por Henrique Nzita Tiago, que gostava de ver Portugal empenhado na procura de uma solução política, tendo mesmo apelado, sem êxito, a Barroso e a Soares.

Holden Roberto

Após os massacres da UPA no Norte de Angola, em 1961, numa espécie de resposta ao ataque do MPLA à prisão de Luanda, o líder do movimento, Holden Roberto, estabeleceu um Governo Revolucionário de Angola no Exílio, em Kinshasa, e transformou a organização que tinha como base étnica os bacongos na FNLA. Protegido por Mobutu e com ligações aos EUA e à China, em rivalidade permanente com o MPLA pelo reconhecimento internacional, mesmo com o apoio zairense e de mercenários, perdeu a guerra de 1974/75 e, depois, deixou a oposição ao regime de Luanda entregue à UNITA. Exilado em Paris, regressou a Luanda para concorrer às eleições de 1992 e quedou-se por uns humilhantes 2,1 por cento dos votos. Desde então, tem disputado a legitimidade da liderança da FNLA com Lucas Ngonda.

A maioria esmagadora dos votos no IX Congresso da UNITA, em 2003, confirmava a escolha do "ponderado" Isaías Samakuva, em detrimento de Lukamba "Gato" e de Eduardo "Dinho" Chingunji. "Sama", que representou o partido em Inglaterra e, depois, passou a delegado na Europa (o seu exílio em Paris, quando a UNITA estava debaixo das piores sanções da ONU, causou atritos diplomáticos), tinha sido o chefe dos negociadores do partido (com Manuvakola e Valentim) em Lusaka. Nas próximas eleições - ainda sem data -, mesmo havendo quem defenda outras opções, deverá bater-se nas urnas com José Eduardo dos Santos.

O dream team de Michael Jordan e Magic Johnson apresentava-se, nos Jogos Olímpicos de Barcelona, contra a estreante selecção de Jean Jacques e José Carlos Guimarães. Os nomes da NBA cilindraram (48-116), é claro, mas a equipa treinada por Vitorino Cunha espantou o Mundo ao bater a equipa espanhola por 20 pontos de diferença (83-63). O nome mítico do basquete angolano é Jean Jacques da Conceição, que começou no 1.º de Agosto, celebrizou-se com as camisolas do Benfica e da Portugal Telecom, envergou a francesa do Limoges e a espanhola do Unicaja de Malaga - e foi sete vezes campeão de África pela selecção que representou 23 anos.

Acerca do vulto inseparável do seu bastão de soba há um caleidoscópio de opiniões. Na época da Guerra Fria, o líder do Galo Negro - cuja passagem por Pequim lhe permitiria repetir em escala pequena a longa marcha de Mao na sua retirada estratégica e imitar o culto da personalidade do timoneiro chinês - era apoiado por americanos e sul- -africanos. Perante um Governo de Luanda inserido no espaço do afrocomunismo, as suspeitas da antiga colaboração com o regime colonialista ou as acusações de tribalismo eram relegadas para segundo plano, pois o Ocidente via na Rádio Vorgan uma espécie de "voz da liberdade" e no político que recebia delegações na Jamba um "defensor da democracia". Depois da derrota nas urnas e da rejeição dos resultados, já sem o Muro de Berlim a exigir maniqueismos, Savimbi perdeu quase todos os apoios, muitos deles pagos com diamantes. Aparentemente, só se tornou válido para a paz em Angola quando foi morto.

J. Eduardo Agualusa

Jornalista em Lisboa antes de se tornar famoso como o escritor de Estação das Chuvas e Nação Crioula, Agualusa assumiu uma posição crítica em relação ao regime de Luanda. Trocando o endereço de Lisboa pelo Recife e, mais tarde, por Luanda, o seu cosmopolitismo permitiu-lhe abalançar-se a títulos como Um Estranho em Goa ou O Ano em que Zumbi Tomou o Rio.

J. Eduardo dos Santos

A efígie nas notas de kwanzas de Dos Santos - como é conhecido na diplomacia internacional - ou de Zé Dú - como é tratado entre os angolanos - pode servir como marco do tempo em que o Presidente da República de Angola já está no poder, transitando do estalinismo para o capitalismo, imune ao aparecimento da perestroika e ao fim do apartheid. Desde que assumiu o principal cadeirão do Futungo de Belas, em 1979, em Portugal foi reeleito Eanes e cumpriram dois mandatos Soares e Sampaio. Com um estilo oposto ao carisma dos líderes africanos, foi discreto para ser o preferido na sucessão de Neto e hábil no posterior afastamento dos rivais e na construção de uma rede clientelar. Lançando, em 1996, uma fundação com o seu próprio nome, não se livra da acusação de controlar parte das receitas estatais.

O nome que escolheu é, desde logo, uma homenagem à capital angolana. O autor de Luuanda, esse livro escrito em português e quimbundo, que levou a PIDE a destruir a sede da Associação Portuguesa de Escritores, em 1965, por ter atribuído o Grande Prémio de Novelística ao escritor preso no Tarrafal, envolveu-se sempre na política do MPLA. Após a independência, chefiou o Departamento de Orientação Revolucionária, dirigiu a Televisão e foi secretário-geral da União dos Escritores de Angola. Em 1992, o criador de Nós, os do Makulusu e de Nosso Musseque, mudou-se para Portugal, retomando a escrita.

Figura intrinsecamente ligada à história do MPLA, de que foi um dos fundadores, seria o número dois do regime durante a Presidência de Neto. Na altura da sucessão, representava o núcleo mais marxista, que parecia não simpatizar com a escolha de José Eduardo dos Santos. Depois, foi perdendo influência até ser afastado do Bureau Político do MPLA, no Congresso de 1985, oficialmente a seu pedido e por problemas de saúde. Curiosamente, continua a ser apontado como um "valor moral" do partido.

Lukamba 'Gato'

Secretário-geral da UNITA de 1995 a 2003, líder interino entre a morte de Savimbi e o congresso de eleição do seu sucessor, Lukamba "Gato", que logrou um cessar-fogo em tempo recorde e foi figura-chave no novo partido que reunificou as várias tendências, apesar do favoritismo que lhe davam os observadores, perdeu a liderança para Samakuva.

Manuel Rui

"Oh! Pátria, nunca mais esqueceremos / os heróis do 4 de Fevereiro." O hino de Angola, que começa com estes versos e foi musicado por Rui Mingas, é da autoria de Manuel Rui. O advogado, que assumiu a acusação no chamado "processo dos mercenários", escreveu mais de uma dezena de títulos, entre O Regresso Adiado e O Manequim e o Piano, com destaque para Quem Me Dera Ser Onda e Rioseco, sendo um cultor do sarcasmo e da ironia.

Se tivesse sido apenas primeiro-ministro, escolhido sobretudo por ser um dos raros ovimbundos (a etnia de Savimbi, dominante na UNITA) no seio do MPLA, Marcolino Moco não merecia destaque. Mas ao ser indicado, em 1996, para primeiro secretário-executivo da CPLP - e embora essa comunidade lusófona ainda não se tenha projectado na cooperação nem na geoestratégia -, garantiu o seu lugar na História.

Director artístico do Elinga, Mena Abrantes é, simultaneamente, dramaturgo e encenador. Jornalista, poeta e contista, iniciou a actividade teatral quando estudava em Lisboa, prosseguindo-a no exílio alemão. Co-fundador de grupos como Tchinganje e Xilenga Teatro, criou na década de 80 a mais reconhecida companhia teatral angolana.

O apelido Mingas, que começou por estar associado às canções de Rui e André, tornou-se um valor absoluto nas passereles da moda, onde a "pantera negra" Nayma, com sua cor de chocolate, se impôs pela classe e beleza. "Negro é jinga. Sabe balançar as ancas, não tem vergonha do corpo", escreveu a manequim no seu livro Nayma , a Arte de Um Rosto Perfeito. Ao triunfar num mundo de louras, arrasou os racistas de um País onde não há qualquer deputado ou pivot televisivo célebre que seja negro.

O dia 27 de Maio de 1977 eternizou o nome de Nito Alves na História de Angola. Apontado como "delfim" de Agostinho Neto, no regresso de uma visita à União Soviética, fez conferências em que criticava a política económica e o excesso de brancos e mestiços no Governo. Nesse dia, tentou impor as teses que defendia (com José Van-Dúnem e a portuguesa Sita Vales) posicionando soldados nas avenidas da capital e transmitindo propaganda na ocupada Rádio Nacional. A resposta à insurreição foi brutal os principais implicados foram fuzilados e centenas de "nitistas" internados em campos de reeducação.

O golo de Akwá no estádio de Kingali concretizava o sonho dos "Palancas Negras" a selecção de futebol garantia a presença no Mundial da Alemanha. Mais do que destacar os craques que brilharam no campeonato português, de Jordão a Mantorras, o símbolo deste êxito é o seleccionador Oliveira Gonçalves, até agora só conhecido como o "Carlos Queirós de Angola", pelo seu trabalho com as camadas jovens. No Verão, os jogos podem vir a unir os antigos inimigos da guerra, os eternos adversários políticos, a capital do "asfalto" e os musseques, os musculados e os mutilados, a elite luandense e as comunidades do interior, os bacongos e os ovimbundos, os que falam quimbundo e os de língua umbunda, os apelidos tradicionais como Van-Dúnem e as altas patentes militares transformadas em empresários de sucesso no ramo da segurança privada, além da vasta diáspora.

Menção honrosa no Prémio António Jacinto com o livro de poesia actu sanguíneu, no ano 2000, o prolixo autor de, entre outros títulos, Quantas Madrugadas Tem a Noite ou Momentos de Aqui é o mais promissor da novíssima geração.

Pepetela

Da guerrilha para a literatura, autor de obras como Parábola do Cágado Velho, Gloriosa Família e Jaime Bunda, o Prémio Camões de 1997 publicou alguns dos seus títulos muito tempo depois de os ter concluído, como sucedeu com Muana Puó (romance escrito em 1969 e dado à estampa em 1978) ou A Geração da Utopia (iniciado em 1972 e editado só em 1994). Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, membro do MPLA desde 1963 e vice-ministro da Educação de Agostinho Neto, professor de Sociologia da Faculdade de Arquitectura de Luanda, tornou-se famoso através do pseudónimo Pepetela, com o qual, desde Mayombe a Predadores, ficciona em cima da realidade histórica da moderna Angola.

Presidente do MPLA de 1960 a 1962, no período em que Neto esteve preso pela PIDE, foi um dos fundadores do Centro de Estudos Africanos em 1951 e, mais tarde, do partido. Exilado em Paris, integrou a redacção da revista Présence Africaine e participou no I Congresso de Escritores e Artistas Negros. Abraçou a luta política sem descurar a sua faceta de ensaísta (A Poesia Africana de Expressão Portuguesa, Amílcar Cabral - Ensaio de Biografia Política, Origens do NacionalismoAfricano). Em 1974, com o seu irmão Joaquim e outros intelectuais, Mário funda a Revolta Activa, corrente que se opõe à liderança de Neto no MPLA. Fugindo à perseguição, exila-se na Guiné-Bissau, onde será ministro da Informação e Cultura.

O título "O bâton da ditadura" valeu ao jornalista Rafael Marques ser condenado a seis meses de prisão, em 1999, por difamar o Presidente da República. Impedido de ver a companheira ou o advogado, fez uma greve de fome, suscitando as atenções gerais, da administração americana aos Repórteres Sem Fronteiras. A falta de liberdade de Imprensa em Angola vai do misterioso assassínio de Ricardo de Mello, director do Imparcial Fax, à expulsão de Luanda da (então) correspondente do DN, Ivone Ferreira.

O livro Actas de Maianga é, por si só, um manifesto de cidadania. Antropólogo e poeta, cineasta e universitário, Ruy Duarte de Carvalho é um dos mais completos pensadores do mundo lusófono, tanto se debruçando sobre comunidades piscatórias (Ana a Manda - Os Filhos da Rede) como acerca do cinema (O Camarada e a Câmara), passando por narrativas como Vou lá Visitar Pastores e Os Papéis do Inglês.

A fama de Felicidade e bocaesquadra fazem de Sebem o "pai" do mais inovador movimento musical angolano, o kuduro. Outros nomes em destaque nesta batida dançante, que invadiu as discotecas dos PALOP, são Dog Murras, Gata Agressiva, Fofan-ndo, Nayo Crayse ou Noite Dia. Mas a nova cena musical, que vai da voz de Yola Araújo à girls-band Jingas, inclui outros géneros que se devem realçar semba (Yuri da Cunha, Bangão, Carlitos Vieira Dias, Justino Andinga), kizomba (Caló Pascoal, Negro Bué) e rap (Father Mac, Kalibrados).

O Herói é título de filme, mas devia ser também título de cineasta. Zezé Gamboa venceu, este ano, o prémio do júri para melhor filme dramático estrangeiro no Festival Sundance (EUA). O realizador, que já assinara documentários e curtas, impôs-se com a sua primeira obra de ficção no mais importante festival de cinema independente.

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