Theresa May resiste (por ora) a demissões e ameaças à liderança

A governante britânica ignorou o estado de guerra civil no seu governo e partido e reafirmou, com firmeza, que a direção em que conduz o Brexit é o correta. Theresa May perdeu vários membros da equipa e foi anunciada a hipótese de uma moção de censura à liderança dos conservadores.
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A noite começou com as informações de que a ministra para o Desenvolvimento Internacional, Penny Mordaunt, e o ministro do Ambiente, Michael Gove, não iam pedir a demissão, mas que podiam fazê-lo nas próximas horas. A acontecer juntam-se aos ministros do Brexit, Dominic Raab, e do Trabalho e Pensões, Esther McVey. Também se demitiu a secretária de Estado para o Brexit, Suella Braverman, e o secretário de Estado para a Irlanda do Norte, Shailesh Vara.

As outras demissões são de secretários parlamentares, membros do Parlamento que fazem a ligação entre os deputados e os respetivos ministros. Demitiram-se Ranil Jayawardena, na Justiça, e Anne-Marie Trevelyan, na Educação. Demitiram-se também Rehman Chisti do cargo de enviado da primeira-ministra para o comércio com o Paquistão, e Nikki da Costa, diretora dos assuntos legislativos.

O segundo governo de Theresa May já tinha perdido 11 pessoas, entre ministros com peso como Boris Johnson ou David Davis a secretários parlamentares.

Foi um dia de alta tensão em Londres, pontuado pelas demissões, com a primeira-ministra a defender-se dos críticos no Parlamento e reafirmar, em tom determinado, a sua posição de defesa do acordo técnico de retirada do Reino Unido da União Europeia, em conferência de imprensa.

Para o lugar de ministro do Brexit foi convidado Gove. Também ele adepto da saída da UE, mas não nos termos que May quer aprovar, terá imposto como condição poder voltar a negociar com Bruxelas. Perante o "não" da primeira-ministra, Gove recusou o convite.

Sob forte contestação interna, May dirigiu-se aos deputados de manhã, tendo garantido estar a cumprir o mandato do povo britânico e esperar ser ainda a primeira-ministra no dia 29 de março de 2019.

Enquanto respondia às perguntas dos deputados, a ala do European Research Group, pró-Brexit e crítico de May, pelo punho do deputado Jacob Rees-Mogg, apresentou uma carta a pedir uma moção de censura à liderança de Theresa May.

"Lamentavelmente, o projeto de acordo de Brexit apresentado hoje revelou-se pior do que o previsto e não cumpre as promessas dadas à nação pela primeira-ministra, seja por sua conta própria ou em nome de todos nós no manifesto do Partido Conservador. É de importância considerável que os políticos cumpram os seus compromissos, ou não assumam tais compromissos em primeiro lugar", escreveu Rees-Mogg, pelo que decidiu apresentar a carta formal.

Rees-Mogg revelou ter expressado há várias semanas a sua preocupação pelo facto de a líder tory estar a perder a confiança dos deputados e que seria do interesse do partido que se demitisse.

May precisa de 158 deputados

Para haver um voto contra May, o líder do grupo parlamentar dos deputados conservadores (conhecido como comité 1922) tem de receber um número de cartas a pedir a exoneração que atinja 15% do total de deputados. Ou seja, 48 cartas dos 315 deputados conservadores.

Se Rees-Mogg - que declarou não ser candidato à chefia do partido - tiver a companhia em número suficiente para levar a liderança a votos, serão necessários 158 votos para destituir Theresa May da liderança do partido e, em consequência, do governo.

Em conferência de imprensa, à tarde, Theresa May garantiu aos jornalistas que este acordo é do interesse nacional e que todos devem unir-se em torno dele, incluindo os membros do Partido Conservador, numa mensagem dirigida aos deputados conservadores que estão contra a sua política.

"Vou fazer o meu trabalho de conseguir o melhor acordo para o Reino Unido, os deputados vão fazer o trabalho deles quando o acordo chegar ao Parlamento e serão responsabilizados pela decisão que tomarem", disse.

May garantiu que vai levar o projeto de acordo ao Conselho Europeu extraordinário de dia 25. E quanto ao seu papel, disse que não está nos seus planos pedir a demissão. "Liderança é tomar a decisão correta, não é tomar decisões fáceis."

Incerteza castiga mercados

Os mercados financeiros reagiram à incerteza com a queda da libra esterlina face ao euro em 2%, a maior descida desde o referendo do Brexit em 2016, e 1,8% face ao dólar.

A empresa de notação Standard & Poor's alertou que pode reduzir o rating de crédito AA do Reino Unido de novo se o risco de um Brexit "desordenado" se tornar um cenário mais provável.

Há, porém, quem perante o cenário de não haver acordo não se mostre preocupado. Henry Newman, do grupo de reflexão Open Europe, diz que passada a rutura ("reconhecidamente uma coisa bem grande para se ignorar") e "olhar para o efeito que pode ter no comércio geral em, digamos, 13 anos, é um impacto relativamente pequeno no crescimento do PIB", diz à BBC.

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