Socialismo ibérico. Podem Costa e Sanchéz ajudar o PS francês a ressuscitar?

Em França, com o Partido Socialista que um dia foi de Mitterrand, Jospin, Rocard ou Delors pelas ruas da amargura, sugere-se uma "estudiosa peregrinação" ao lado de cá dos Pirenéus para que se analise a força dos socialistas ibéricos. E de onde vem ela, afinal?
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O tema fez manchete na edição de quarta-feira passada do diário francês Libération: "Espanha, Portugal - A esquerda que avança." Num momento em que o PS francês se encontra num indescritível buraco negro eleitoral - em apenas cinco anos, de 2012 para 2017, passou de 297 deputados eleitos (num total de 577) para não mais do que uma trintena, caindo de 40,9 por cento dos votos para 5,6 por cento - a esquerda gaulesa social-democrata tenta perceber que modelos pode seguir para regressar ao mundo dos vivos.

Citaçãocitacao"Olhar para Madrid ou Lisboa não implica de modo algum acreditar num milagroso copy-paste. Apenas nos lembra que existe uma esquerda que funciona."

No editorial fazia-se uma sugestão: "Os nossos líderes rebeldes, socialistas ou ecologistas fariam bem em fazer uma pequena e estudiosa peregrinação aos seus amigos espanhóis e portugueses, que governam, não sem dificuldade, claro, mas que governam e demonstram que os ideais progressistas não devem ser atirados pela janela, pelo contrário!"

E prosseguia: "Da presença de muitas mulheres no governo de Pedro Sánchez, passando pelo aumento do salário mínimo, da licença de paternidade XXL a um discurso credível, mas de esquerda, sobre questões de segurança, não faltam temas inspiradores. Olhar para Madrid ou Lisboa não implica de modo algum acreditar num milagroso copy-paste. Apenas nos lembra que existe uma esquerda que funciona."

Ou seja - e em conclusão: "Os desafios do tempo são muitos e difíceis, mas em nada desqualificam as respostas do campo progressista. Mas é exatamente o contrário: o conservadorismo, ou pior, a reação, não podem ser resposta às mudanças impostas pelas atuais desordens do mundo."

A resposta, porém, à profundíssima crise do PS francês - que faz lembrar as dos socialistas italianos e a dos socialistas gregos - pode porém não estar necessariamente à vista atravessando os Pirenéus na tal "estudiosa peregrinação".

Marco Lisi, politólogo italiano há vários anos radicado em Portugal, investigador destes assuntos ("Partidos Políticos, Comportamento e atitudes políticas, Política Comparada, Eleições, Comunicação Política, Representação Política", lê-se na sua ficha no site da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova), explica o colapso do PS francês com razões do próprio sistema político francês: a sua forte personalização, decorrente da natureza presidencial do regime. Dito por outras palavras: "Os partidos são reféns da popularidade do seu líder."

No caso, o líder foi François Hollande. Em 2012 conquistou a Presidência da República. Mas todo o seu mandato foi marcado por níveis demasiado elevados de desemprego, bem como por escândalos de vária ordem.

Ao fim de cinco anos, em 2017, os seus níveis de popularidade eram de tal forma miseráveis que Hollande se tornou no primeiro Presidente francês a não tentar a reeleição - o que lançou o PS francês na crise em que hoje está.

Do caos socialista emergiu um ex-ministro, Emmanuel Macron, que, apostando num centrismo absolutamente pragmático onde os conceitos de "esquerda" e "direita" são vistos como leituras anacrónicas da realidade, se fez eleger Presidente da República (e reeleger em 2022) roubando tanto eleitores do PS como da direita tradicional.

Citaçãocitacao"Para o sucesso atual do PS português - que é absolutamente único no panorama europeu - foi fundamental não ter gerido a governação durante a troika."

Mas as razões do colapso socialista gaulês radicam também, segundo Marco Lisi, num certo acaso. A saber: François Hollande teve de governar numa situação de crise económica profunda, obrigando-se portanto a implementar medidas de austeridade, isto é, medidas de cortes nos direitos e nos rendimentos.

Ora o azar de Hollande foi a sorte de Costa. O PS - embora absolutamente dominante na política nacional desde 1995 - conseguiu manter-se imune ao desgaste da governação austeritária dos anos da brasa da troika (2011-2015) passando essa legislatura tranquilamente sentado na oposição. "Isso foi fundamental. Para o sucesso atual do PS português - que é absolutamente único no panorama europeu - foi fundamental não ter gerido a governação durante a troika", diz Marco Lisa.

Falando ao DN, um outro cientista político, António Costa Pinto, aponta ainda outra razão para a sobrevivência no poder tanto dos socialistas portugueses como dos socialistas espanhóis: "Não se criou uma situação de crise de representação eleitoral à esquerda."

Tradução: os eleitores de esquerda continuaram a sentir que podiam continuar a votar no PS de António Costa ou no PSOE de Pedro Sánchez, designadamente porque os dois líderes definiram políticas de alianças privilegiando outras forças políticas de esquerda.

Em Portugal, de 2015 a 2019, Costa encabeçou a "geringonça", o entendimento entre o PS, o PCP, o Bloco de Esquerda e o PEV cuja prioridade maior foi revogar medidas de cortes de direitos e de rendimentos implementadas no tempo da troika (e que morreu quando essa agenda acabou); em Espanha, o PSOE de Pedro Sanchéz governa desde 2020 em coligação com o Unidas Podemos (uma aliança que inclui o Podemos, equivalente ao nosso Bloco de Esquerda, a Esquerda Unida - a nossa CDU - e diversos outros partidos de esquerda).

Citaçãocitacao"O PS francês é muito mais à esquerda do que o PS português. Na verdade é quase como o Bloco de Esquerda. Aliás, toda a esquerda francesa é muito mais radical do que a portuguesa."

Além do mais, sublinha ainda Costa Pinto, os dois partidos fizeram isto - dar prioridade a entendimentos à esquerda - sem se descaracterizarem como partidos de centro-esquerda, moderados, europeístas e obedientes à ortodoxia do défice zero, para enorme desgosto dos seus parceiros.

Vivendo em Portugal há 25 anos, o jornalista francês Olivier Bonamici não deixa de porém de acompanhar com atenção a realidade política do país onde nasceu há 50.

O jornalista assinala que se o PS francês olhasse agora para o PS de Portugal como fonte de exemplo - como sugeriu o Libération - a conclusão a tirar teria de ser a que não há outro caminhão senão o da moderação. Porque - explica - "o socialismo francês não se soube renovar". Ou seja: "O PS francês é muito mais à esquerda do que o PS português. Na verdade é quase como o Bloco de Esquerda. Aliás, toda a esquerda francesa é muito mais radical do que a portuguesa."

Além do mais, "a esquerda tradicional deixou de conseguir falar ao povo", isto é, "houve um desligar". Assim, nas cinzas do incêndio provocado por Hollande no PS francês emergiram dois ex-ministros de governos socialistas: à direita, Emanuel Macron; e, à esquerda, Jean-Luc Mélenchon, agora líder de uma coligação, NUPES (Nova União Popular Ecologista e Social), que integra a França Insubmissa e o PS e já é a segunda força no Parlamento francês.

Bonamici não tem dúvidas: "O PS francês está à beira da morte." Estar à beira da morte não costuma ser a melhor condição para fazer "peregrinações estudiosas".

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