DVD. O quotidiano do maior nome da música brasileira.'A Casa do Tom' foi apresentado na Mostra de Cinema Brasileiro.Quando se mudou para a nova morada da família Jobim, no alto do mui carioca Jardim Botânico, António Carlos, o Brasileiro, tinha apenas uma preocupação: garantir o transporte seguro do seu piano para a sala mais adequada, de acordo com a acústica e a orientação da luz solar. Tanto cuidado para, na mais imediata das oportunidades, dizer adeus: apanhava o primeiro avião que deixasse o Galeão (o aeroporto que foi mais tarde rebaptizado com o seu nome) em direcção a Nova Iorque e abria as portas do apartamento que comprou pela vista, nunca pela área. E ainda que também se escapasse com regularidade para o Poço Fundo (na Mata Atlântica, a 200 quilómetros do Rio), a tudo apelidava de "casa". .A Casa do Tom, seguindo o título escolhido por Ana Jobim para o filme que revela a intimidade deste "Mundo, monde, mondo". A produção esteve na Mostra de Cinema Brasileiro que passou por Lisboa no início de Novembro e está agora disponível em DVD. .Ana Jobim, que integrou a Banda Nova composta por Tom em meados de 80, manteve a paixão pela imagem depois de casar com o artista que há muito idolatrava. Fotografou e filmou intimidades que quis revelar quando, em 1987, o casal lançou Ensaio Poético. O livro encontrou ponto de partida no poema Chapadão (ode à nova casa construída) e o filme repete o exercício, com as imagens que ficaram guardadas. A necessária edição de horas gravadas entre famílias - doméstica e criativa, diríamos - revelou-se dolorosa de mais e pediu tempo extra para ganhar corpo adulto. .A Casa do Tom não é um olhar histórico sobre a obra do mais importante nome da música brasileira. É inevitável que recorde o seu percurso, Jobim é afinal apelido de músico que nunca soube ser coisa nenhuma senão compositor, arranjador e maestro. Mas cada memória é desfiada partindo do que lhe era mais pessoal: o quotidiano..Enquanto compõe, pede "o cafezinho" a quem por ali passe, talvez o terceiro do dia, entre charutos e pautas. Nos entretantos, é pai babado, mais uma vez rodeado de crianças, com brincadeiras fotografadas no rural Poço Fundo ou no romântico Central Park. .Os filhos já adultos também são visita regular mas transformam-se em parceiros criativos. Na verdade, tudo se confunde, quando Dorival Caymmi e Jaques Morelenbaum figuram entre as estrelas que batem à porta da "casa do Tom". Tal como as imagens, que relatam a felicidade de Tom Jobim entre o final de 80 e inícios de 90. .E as canções, da Ipanema de 58, passando pelo Carnegie Hall, Frank Sinatra, sucesso internacional e todos os gloriosos regressos a casa. Recordemos o Tom Jobim que lê Pablo Neruda como o chileno fosse carioca até à última rima. Que homenageia Guimarães Rosa como inspirador da palavra, tão importante como Vinícius de Moraes..Queríamos rever a história da música que Tom Jobim compôs e a novela que foi o nascimento e afirmação da bossa nova. Esperávamos por tudo isto porque o protagonista de A Casa do Tom é o actor principal desse belo romance cantado com sotaque brasileiro. Encontramos outra história: contudo, como relata Ana Jobim, uma que também é "muito boa".