"Querem ir ver o meu quarto? Está top. Até pintei o teto"

A resistência a sair da rua é um dos obstáculos com que se confrontam as equipas que trabalham com os sem-abrigo. Na maioria dos casos, há transtornos mentais associados ao consumo de álcool e de drogas. No Centro de Alojamento Temporário gerido pela Cruz Vermelha, completamente preenchido, já não há memória de uma altura em que não tenha havido lista de espera. E há quem já lá esteja há dez anos, porque não tem mais para onde ir. Faltam respostas.
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São quase 11 horas da noite e Ismael não tem mãos a medir junto ao Braga Parque. Com o centro comercial a fechar, o movimento de carros nos estacionamentos exteriores em redor faz desta uma das alturas mais proveitosas para quem, como ele, vive das "moedinhas" pedidas aos condutores que chegam e aos que partem. Mal avista o carro da Cruz Vermelha, no entanto, corre para lá de mão estendida. Não é uma "moedinha" que procura aqui, mas sim "um penso, doutora" - dirige-se a Lia Jorge, a assistente que lidera a equipa de turno desta noite. Parece agitado, dividindo as atenções entre uma ferida aberta num dedo e as moedinhas que vai vendo fugir nas costas. "Vá lá, doutora. Veja ali, dentro daquele estojo", aponta para o interior do carro.

Ismael está referenciado como uma das pessoas em situação de sem-abrigo de longa duração nas ruas de Braga, entre os cerca de 20 a 30 sem-teto que a Cruz Vermelha local tem sinalizados, numa lista dinâmica que vai atualizando quase diariamente num quadro fixado nas instalações do Centro de Alojamento Temporário (CAT) Dr. Francisco Alvim, mais afastado do centro da cidade. "Os nomes vão sofrendo alterações. Uns vão sendo integrados em respostas de emergência, outros novos vão sendo sinalizados, mas o número de pessoas a viver efetivamente sem teto, na rua, tem-se mantido entre esses 20 a 30, apesar do aumento de casos de risco", refere Gil Machado, psicólogo responsável pela equipa de intervenção social direta da Cruz Vermelha de Braga.

É dali, do CAT, que sai esta equipa que todas as quartas-feiras faz uma ronda noturna para apoiar os casos sinalizados e procurar novos por identificar (há também uma outra ronda, diária, feita durante a tarde, pela equipa de apoio de rua). A cumplicidade com Ismael já é evidente. Enquanto se tenta improvisar um curativo no dedo, ensaiam-se mais uns dedos de conversa, tenta-se perceber se há alguma alteração nos hábitos, por onde tem dormido. Com o movimento dos carros a desaparecer nas suas costas, Ismael entrega-se à conversa com "mais gente" do que é habitual na equipa destas rondas. E surpreende com um convite, orgulhoso: "Querem ir ver o meu quarto? Está top. Até pintei o teto."

Entre as ruínas de uma casa abandonada que se esconde atrás de um muro, de onde transborda vegetação selvagem, Ismael mostra-nos a divisão onde dorme. Nota-se o esmero em transformar o lugar ermo num espaço minimamente acolhedor. Confirma-se, o teto está quase todo pintado - "faltou só um bocado de tinta para acabar" -, há prateleiras decoradas, um capacete pendurado, um pufe, uma cama com um "colchão bom", assegura, saltando para cima dele, e também uma mesinha onde sobram alguns sinais do consumo que o levou à situação de sem-abrigo. E do qual assume não querer abdicar. "Nem que me saísse o Euromilhões, ó velhinho." Lia assegura que ele tem retaguarda familiar. "É a mãe que lhe trata da roupa e está disposta a recebê-lo, mas ele não quer.". "Não quero. Estou bem aqui", confirma o homem, de 39 anos, que diz ter começado a consumir "de forma mais pesada há cinco anos". Porquê? "Porque gosto."

As adições, de drogas ou de álcool, são comuns a muitos dos sem-teto da cidade, como comprovaremos ao longo da noite. Os problemas de saúde mental também. Este é o fim da linha da cadeia de assistência social, onde caem, naturalmente, os casos de mais difícil resolução. "Na maioria deles há já processos de deterioração cognitiva associados a consumos, o que torna qualquer processo de reintegração muito mais complicado", explica a técnica. A realidade mostra que muitos destes sem-teto resistem a sair da rua. E alguns não o aceitam, de todo.

É o que vemos com o Ismael, mas também mais tarde com o Fábio, um jovem na casa dos 20 anos que carrega com ele computador portátil e colunas de som que lhe proporcionam acompanhamento sonoro para o malabarismo circense que vai ensaiando de forma errática num aparente surto psicótico. Vai dormir "por aí", diz, afastando conversas, junto ao Largo do Barão S. Martinho, perto do histórico café A Brasileira, no centro da cidade.

De resto, "apesar de insuficiente, limitada", a rede de intervenção social existente tem conseguido "atuar nas etapas prévias e ativar mecanismos de apoio para evitar que muitas pessoas cheguem a este fim de linha e caiam em situação de sem-teto", sublinha Lia.
Segundo os dados disponibilizados ao DN pela autarquia de Braga, e referentes ao último relatório anual da Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA), o número de casos no concelho situava-se, no final de 2022, em 21 pessoas sem-teto e 140 sem-casa, as duas diferentes categorias de sem-abrigo identificadas pela ENIPSSA. Um aumento face ao ano anterior, em que se registaram 15 sem-teto e 100 sem-casa.

De acordo com o gabinete da vereadora Carla Sepúlveda, responsável pelo pelouro da coesão social, a variação "reflete o acentuar das situações de emergência social devido à falta de acesso a soluções de habitação e ao aumento do custo das casas e rendas". Contudo, realça, este aumento de sem-abrigo "não representa um número tão elevado como o esperado, devido aos esforços de todos os parceiros NPISA em atender às situações de emergência social".

Os NPISA são Núcleos de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo e coordenados pelas autarquias. No caso de Braga, integra outras 15 entidades da rede social local. Como a Cruz Vermelha, uma das instituições mais ativas. Nuno Rodrigues, o responsável da equipa de Intervenção Social Direta da instituição e com vários anos de experiência no terreno, fala de uma realidade atual muito marcada pelas novas dinâmicas das migrações.

"Se até há quatro ou cinco anos, a maior parte dos problemas tinham a ver com as adições, agora o maior fator de exclusão é a dificuldade no acesso à habitação, sobretudo para populações migrantes. Há cada vez mais pessoas desalojadas a procurarem os serviços de atendimento e acompanhamento social e há uma grande dificuldade em dar solução a estes casos", conta. Imigrantes do norte de África e da América Latina ("sobretudo brasileiros, uma comunidade muito presente em Braga, mas também argentinos e colombianos", diz) são os mais comuns.

Durante a ronda noturna pelas ruas de Braga não encontramos nenhum sem-teto imigrante. Nuno Rodrigues explica que são fenómenos diferentes. "A população imigrante que necessita de intervenção das equipas de acompanhamento social é, por norma, mais facilmente reintegrada porque o motivo da sua situação é quase sempre económico, por precariedade, perda de emprego ou porque a renda ficou mais cara e não conseguem pagar. Nesses casos, a resposta passa por ajudar essas pessoas a encontrar um novo emprego ou uma solução de habitação que se enquadre nos seus rendimentos, ou integrá-las temporariamente no Centro de Acolhimento de Emergência Social, que é a primeira resposta para pessoas que ficam em situação de sem-abrigo."

Além disso, dentro das próprias comunidades migrantes acaba por funcionar uma rede informal de apoios que, em muitos casos, evita que os seus elementos caiam em situação de sem-teto, originando soluções precárias como as que foram sinalizadas em Braga no último ano, de quartos sobrelotados ou pessoas a dormir em lojas e garagens.

Quando há competências profissionais e vontade de reintegrar o mercado de trabalho, a intervenção acaba por ser mais fácil e rápida, como acontece com a maioria dos imigrantes, que alimentam o mercado de trabalho precário ou sazonal, do turismo aos serviços, da restauração às plataformas digitais. Quando há menos possibilidades de reintegração profissional, ou "casos de adições ou de saúde mental complicados", a vulnerabilidade é maior e de mais longa duração.

É aqui que entra o Centro de Alojamento Temporário (CAT) Dr. Francisco Alvim, gerido também pela Cruz Vermelha, onde nos recebe o psicólogo Gil Machado. Aqui estão alojados 45 sem-abrigo que correspondem a esse perfil de "pessoas de baixos ou nenhuns rendimentos, com adições e/ou problemas de saúde mental". Na sua esmagadora maioria homens. "Só há um quarto, com cinco camas, para mulheres". O CAT está permanentemente lotado. "Não me lembro de uma altura em que não tenha havido lista de espera", diz Gil. Só esta semana, refere, "foram sinalizados mais quatro novos casos".

No momento de admissão, cada utente assina um contrato em que se compromete com as regras de funcionamento. Além do horário de recolhimento - 22 horas no inverno e 23h no verão -, requer-se o compromisso de não consumir no interior e mais "um par de coisas básicas", resume o psicólogo. "As regras têm de ser muito flexíveis, porque se trata de uma população muito desestruturada, já sem rotinas identificadas".

É também "acordado um plano de autonomização individual", que vai sendo ajustado, com o objetivo de "promover a reintegração social e profissional". Afinal, este é um centro de alojamento temporário, mas "há pessoas que permanecem aqui há 10 anos", reconhece Gil. Essa é, admite, a "principal dificuldade" com que se defrontam na gestão de um espaço como este. "Faltam respostas de seguimento a estas estruturas, soluções de longa duração para este tipo de população." Até porque, recorda, os próprios lares "não aceitam pessoas com problemas de alcoolismo ou drogas", o que exclui alguns idosos.

Os "constrangimentos são vários", concorda Catarina Santos, diretora técnica do CAT. Desde a dificuldade de reintegração profissional, "pelo estigma associado a estas pessoas e que muitas empresas ainda não estão recetivas a combater", até ao incontornável "drama atual da habitação". "Há uns anos, tentava-se obter o Rendimento Social de Inserção para algumas destas pessoas e arranjar-lhes um quarto. Hoje, isso é impossível, um simples quarto custa mais do que o RSI". O drama é tal que, exemplifica, "este ano conseguimos a integração profissional de dez casos e alguns deles ainda estão a viver cá porque não conseguem uma solução de habitação".

Nuno Rodrigues reforça a importância do acesso à habitação na recuperação de pessoas sem-abrigo. "90% das pessoas integradas em solução de Housing First ou apartamentos partilhados tiveram sucesso e mantiveram a habitação", diz. Mas falta oferta para este tipo de alojamento, numa cidade também ela pressionada pelos preços da habitação. No momento, "temos capacidade para 20 pessoas nessa solução". Com dificuldade em arranjar soluções de continuidade, muitos utentes vão permanecendo no CAT mais tempo do que o recomendado.

Na sala de convívio e refeitório, a meio da tarde, está apenas Daniel, à frente de um portátil, a consultar a sua página de Facebook. Com 42 anos, entrou no CAT há meio ano, resgatado após um percurso que já bateu no fundo. Esteve a viver na rua, após ter saído do Centro de Acolhimento de Emergência Social, onde o período máximo de permanência é de três meses.
Emigrante em Paris por vários anos, o Daniel voltou para casa, nas Taipas, depois de se separar da ex-companheira, com quem tem um filho, hoje com 16 anos. Conta que perdeu tudo devido a uma doença psiquiátrica que levou muito tempo a diagnosticar. "Tenho agorafobia. Não conseguia sair de casa ou entrar no comboio para ir trabalhar, tinha ataques de ansiedade." A família, diz, "não percebeu" a sua doença. E os pais, para cuja casa tinha voltado, tê-lo-ão posto fora. "Lembro-me perfeitamente da primeira noite que tive de dormir na rua. Não foi fácil. Vou-lhe dizer uma coisa: não se faz amigos na rua."

Daniel garante que o seu principal objetivo é "poder voltar a ver" o filho, que continua a viver com a mãe em França. Mas admite que não sabe se ou quando isso irá acontecer: "Ainda não consigo sair sozinho daqui." Para já, vai-se mantendo a par pelo Facebook e por fotos que a ex-companheira vai enviando. "Ela é uma boa mãe", diz.

A agorafobia de Daniel, sabemos depois, é uma narrativa não oficialmente diagnosticada. Ao contrário de uma adição alcoólica.

A definição de caso de sucesso é aqui muito volátil, diz Nuno Rodrigues. "O que é um caso de sucesso? Uma integração plena na sociedade? São muito raros. Às vezes, para nós, sucesso é conseguir que eles tomem um banho diário, ou que falem connosco".

Para a maioria dos sem-abrigo aqui alojados, os únicos laços estão dentro do CAT, com os técnicos e funcionários que nele trabalham. Como Dimitri, um antigo futebolista sérvio que veio para Portugal no início dos anos 1990 para jogar na U. Leiria e acabou por se radicar em Braga, no final da carreira. Há 10 anos que trabalha aqui como vigilante. "No início foi difícil, nunca tinha conhecido de perto pessoas com estes problemas. Tive de aprender a lidar com eles e adaptar-me. Mas hoje posso dizer que estou dentro do jogo", diz, recuperando o universo futebolístico. Ou Emília, uma das funcionárias mais antigas no centro, onde está praticamente desde a abertura, em 1999. Hoje a distribuir o jantar, garante que ainda se lembra de todos os rostos que por ali passaram nos últimos 24 anos.

Este é um trabalho emocionalmente exigente. Há laços que podem demorar meses, anos a criar e voltam a desfazer-se num repente, numa recaída, às vezes fatal. Foi o que aconteceu na semana anterior, quando "morreu um utente nas instalações". E, claro, há sempre aqueles que deixam uma marca mais profunda. Como "o Toni", recorda Emília. "Tratava-nos por madrinhas e era muito amoroso connosco. Esteve cá uns cinco anos. Acabou por morrer também". E como ele, "muitos outros".

Catarina Santos diz que é habitual, mesmo entre aqueles que acabam por sair do CAT e transitar para a vida em sociedade, permanecer uma ligação forte ao centro ao longo da vida. Afinal de contas, "chegam aqui, na esmagadora maioria, sem outras referências, muito sozinhos". A diretora técnica do centro refere ainda que as pessoas "chegam cada vez mais desestruturadas". E cada vez mais, também, "chegam jovens já muito desestruturados".

Na rua, durante a ronda noturna, Lia também viaja constantemente entre o entusiasmo e a frustração. À chegada às arcadas da Rua do Castelo, na parte final do percurso, já de madrugada, a equipa é surpreendida por mais sem-abrigo do que esperava. Lia reconhece o rosto de Carlos, um sexagenário que não consegue disfarçar os tremores, apenas com um fino cobertor numa noite de temperaturas bem baixas (quatro graus). Tinha estado no CAT durante a tarde e Lia já lhe conhece o contexto familiar: é de Barcelos, tem lá a mãe, mas houve uma quebra de relacionamento por qualquer motivo ainda não identificado. Depois de alguns minutos de conversa, a técnica consegue convencer Carlos a voltar no dia seguinte ao centro para tentarem estabelecer contacto com a mãe.

Ao dobrar da esquina, mais um rosto familiar, este de há mais tempo: Nuno, um ex-utente do CAT que está de volta às ruas. Toxicodependente e com problemas neurológicos, Nuno está revoltado com a forma como lhe terão tratado a roupa da última vez que esteve no centro e a conversa é tensa: "Eu vou sair da rua, mas é sozinho, não preciso da ajuda de ninguém." É altura de saber recuar e gerir a frustração. Esta é uma maratona sem meta à vista e a corrida continua no dia seguinte.

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