A 1 de janeiro de 1892, a adolescente irlandesa Annie Moore ficava registada como a primeira imigrante a entrar nos Estados Unidos através do primeiro posto federal de imigração em Ellis Island. Os passageiros de 1.ª e 2.ª classe que chegavam ao Porto de Nova Iorque não eram obrigados a passar pela inspeção em Ellis Island. Se tinham dinheiro para conseguir comprar as onerosas passagens, é porque não deveriam acarretar grande risco para o erário público. A menos que se apresentassem doentes..A inspeção era obrigatória, no entanto, para os chamados passageiros de "3.ª classe", imigrantes que viajavam amontoados no porão, em condições de tal forma degradantes que colocavam a própria sobrevivência em risco, com elevadas taxas de mortalidade nestas viagens. Além da fome, doenças como o tifo e a cólera espalhavam-se entre a insalubridade dessas difíceis travessias do Atlântico..Calcula-se que cerca de 48 milhões de pessoas deixaram a Europa rumo aos Estados Unidos durante a era da migração em massa, no século XIX e início do século XX. Não se sabe quantas terão morrido a tentar lá chegar, mas o Novo Mundo em ascensão era a terra de oportunidades para quem procurava escapar da pobreza e dos regimes politicamente repressivos que grassavam no Velho Continente. Por Ellis Island, entraram mais de 12 milhões de pessoas ao longo de quase 60 anos..Em 1924, cada vez mais pressionado por grupos que exigiam restrições à chegada de estrangeiros, e com o sentimento anti-imigração a aumentar desde a entrada dos EUA na I Guerra, o presidente Calvin Coolidge assinou a política de imigração mais isolacionista na história norte-americana até então. A nova lei reduziu drasticamente o número de imigrantes autorizados a entrar nos Estados Unidos, barrando por completo os asiáticos e preterindo os europeus de leste e sul em favor dos do norte e ocidente, suportada em teorias raciais eugenistas para manter uma maioria demográfica branca. E Ellis Island deixou de ser um ponto de entrada para se transformar num ponto de detenção e deportação para estrangeiros ilegais..Cem anos depois, as migrações continuam a agitar receios e a fazer erguer muros. Quer seja nos Estados Unidos, onde a nova lei de imigração no Texas dá ao estado o poder de prender e deportar os imigrantes que tentam cruzar a fronteira desde o México, ou na Europa, com polémicas leis de imigração também a multiplicarem-se pelos principais centros de decisão política, de Londres ou Paris até ao coração da União Europeia, em Bruxelas..Depois de anos a tentar-se uma solução concertada, com os migrantes jogados como arma de arremesso política por uma extrema-direita em ascensão pelo Velho Continente, na União Europeia chegou-se na semana passada a um entendimento para um Pacto Migratório e de Asilo que mereceu amplas críticas por parte de organizações não-governamentais de Direitos Humanos..Num medievalismo chocante, o pacto estabelece até um "preço" por cada migrante, que permite aos países simplesmente pagarem 20 mil euros por cada pessoa que queiram manter longe. Dinheiro esse que pode servir para alimentar acordos com países terceiros, exteriores ao espaço da UE, de forma a transferir muitos dos requerentes de asilo para países como Argélia, Tunísia, Egito, Marrocos, Bangladesh, Paquistão ou Turquia, alguns deles com histórico pouco tranquilizador em matéria de Direitos Humanos..Já passaram mais de oito anos desde que o corpo de Aylan Kurdi deitado sobre as areias de uma praia turca, de cara para baixo, abalou consciências para o drama dos migrantes que tentam chegar à Europa nas mais difíceis condições. A imagem do cadáver do menino sírio de 3 anos, registada pela fotógrafa Nilüfer Demir e difundida por todo o mundo, provocou então um forte sentimento de choque coletivo que durou meia-dúzia de dias, semanas talvez, até voltar a ser arrumado no cantinho da indiferença na consciência coletiva. Desde aí, pelo menos mais 20 mil pessoas tiveram o mesmo trágico fim do pequeno Aylan a tentar atravessar o Mediterrâneo. Só neste ano, a negra contabilidade apontava para mais de 2500 migrantes mortos ou desaparecidos até final de setembro, segundo o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados. Desses, quase 300 eram crianças..No entanto, na mesma semana em que ficámos a saber que em Portugal, em 2022, os imigrantes contribuíram com 1861 milhões de euros para a Segurança Social, sete vezes mais do que aquilo de beneficiaram em prestações sociais, os líderes europeus decidiram replicar a ordem de Coolidge há 100 anos, do outro lado do Atlântico: mantenham-se longe. Assustada pela ascensão dos movimentos que se alimentam dos imigrantes ilegais amontoados em condições pouco dignas para agitar as suas bandeiras mais primitivas, da ameaça de terrorismo às teorias da Grande Substituição, a Velha Europa achou que a melhor tática seria aproximar-se deles. Alguém falou de vitória ideológica da extrema-direita?.Editor do Diário de Notícias