Putin diz que ucranianos fracassam e mantém desacordo sobre cereais

A contraofensiva ucraniana é para o líder russo um falhanço, tal como foram as negociações com o homólogo turco sobre a hipótese de Moscovo voltar ao pacto sobre os ​​​​​​​cereais.
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Durante o encontro entre Vladimir Putin e Recep Tayyip Erdogan houve um momento em que o presidente turco ficou sem entender o que o homólogo russo dizia. Uma troca de olhares constrangidos e segundos depois o auricular do tradutor na posse do convidado acabou por ser substituído. Mas se a comunicação foi restabelecida, o objetivo que levou Erdogan a Sochi - restabelecer o acordo de cereais oficialmente conhecido como iniciativa dos cereais do Mar Negro - saldou-se numa perda de tempo. O líder russo aproveitou a ocasião para alardear que o seu país está perto de chegar a um acordo para oferecer cereais a seis países africanos e para dizer que a contraofensiva ucraniana é um "fracasso".

Grato pelo facto de o pagamento de uma conta de gás natural equivalente a 600 milhões de dólares ter sido adiada para o próximo ano, Erdogan mostrou-se compreensivo em relação às exigências russas para que o acordo dos cereais possa voltar a vigorar. Depois de ter considerado que a situação poderia ser resolvida "num curto espaço de tempo" e tendo em conta as novas propostas apresentadas por Ancara e pelas Nações Unidas, deixou uma crítica a Kiev, embora sem entrar em pormenores. "A Ucrânia precisa de suavizar as suas abordagens para que seja possível tomar medidas conjuntas com a Rússia", afirmou.

As autoridades ucranianas têm tentado exportar cereais através da Roménia, pelo Danúbio, e mais recentemente anunciaram um corredor temporário dos portos de Odessa até ao estreito do Bósforo, através do qual partiram quatro navios cerealíferos. As infraestruturas e silos dos portos vizinhos da Roménia têm sido alvo constante dos drones iranianos ao serviço da Rússia e os navios em trânsito no corredor temporário são vistos por Moscovo como possíveis alvos militares.

O líder russo não se desviou um milímetro da sua linha. Para Putin, o acordo alcançado em julho de 2022 pela ONU com mediação da Turquia e suspenso pela Rússia um ano depois só pode ganhar nova vida quando caírem as restrições às exportações de produtos agrícolas russos. Em concreto, Moscovo exige que os bancos russos tenham acesso ao sistema de pagamentos internacional (SWIFT) e que os navios ao serviço da exportação de fertilizantes e cereais consigam obter seguros. Putin aproveitou para anunciar que estão prestes a serem fechados acordos com seis países para o envio gratuito de cereais.

Na ressaca do encontro, Mykhailo Podolyak, conselheiro presidencial de Volodymyr Zelensky, disse ter ficado confirmado que "qualquer "negociação" com Putin é enganosa e inútil". Já o chefe da diplomacia mostrou-se convencido de que se seguirá um "contacto" entre o líder turco e o seu presidente. "Há confiança nas relações entre o presidente Zelensky e o presidente Erdogan", afirmou Dmytro Kuleba.

O ministro ucraniano envolveu-se numa troca de declarações com as autoridades romenas. Depois de o porto fluvial de Izmail ter sido de novo alvo de ataque russo, o seu ministério afirmou que drones russos caíram em território romeno. Após o desmentido de Bucareste, Kuleba disse ter provas fotográficas para comprovar a alegação.

Putin teceu breves comentários sobre a reação ucraniana à "operação militar especial", na conferência de imprensa que se seguiu à reunião de três horas com Erdogan. "Quanto à contraofensiva que está estagnada, não é que esteja estagnada. É um fracasso. Pelo menos hoje é o que parece. Vamos ver o que acontece a seguir. Espero que continue a ser assim."

Para contrapor às forças de Kiev, Moscovo quer mais armamento e a solução pode estar na Coreia do Norte. Segundo o The New York Times, o ditador Kim Jong-un está a planear uma viagem à Rússia, durante a qual se discutirá a cooperação militar entre os dois países, fornecimento de armas e munições incluídas. Já o ministro da Defesa russo Sergei Shoigu confirmou que exercícios militares conjuntos estão a ser equacionados. De acordo com os serviços de informações da Coreia do Sul, citados pela agência Yonhap, Shoigu sugeriu exercícios navais conjuntos da Rússia, Coreia do Norte e China.

cesar.avo@dn.pt

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