Protesto contra Boa Hora passar de tribunal a hotel

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Justiça. Quase 200 pessoas juntaram-se ontem num protesto contra a conversão do Tribunal da Boa Hora, no Chiado, em hotel de 'charme'. Mário Soares alertou para a não desertificação do centro de Lisboa

"Tem que se explicar que não se pode fazer aqui um hotel. A mim pessoalmente choca-me". As palavras de Mário Soares, ex-presidente da República, sintetizam o sentimento geral das quase 200 pessoas que ontem encheram a maior sala de audiências do Tribunal da Boa Hora, no Chiado, em Lisboa.

A razão? Um protesto contra a conversão do tribunal criminal num hotel de charme, previsto num plano anunciado em Maio de 2008. E que, nos últimos dois meses, reuniu mais de mil assinaturas. "Não nos conformamos com a decisão governamental de afectar este tribunal a um hotel de charme", defendeu Renato Barroso, juiz do caso Vale e Azevedo e do Caso Moderna que inaugurou a sessão.

Os argumentos são objectivos: a opção de reconverter este espaço judicial numa unidade hoteleira é um atentado à memória colectiva. "Mas não só de juízes, procuradores e advogados, mas de todos nós", explicou o magistrado, membro da Associação de Juízes pela Cidadania, que organizou o evento.

As baterias foram apontadas ao Governo e à Câmara Municipal de Lisboa (CML). "Estas são as mesmas pessoas que acham que a segurança se alcança tirando dos tribunais as caixas multibanco", explicou Renato Barroso, numa clara alusão à mais recente medida do Governo.

Já Mário Soares apontou o dedo à autarquia: "A mim pessoalmente choca-me que a câmara municipal queira levar este projecto por diante".

Da parte dos 'visados' a reacção diverge. O presidente da autarquia, António Costa, mantém a intenção, alegando que o edifício e o local não oferecem condições para a administração da Justiça.

O titular da pasta da Justiça, Alberto Costa, é mais brando: "A utilização futura do edifício do Tribunal da Boa Hora não é da minha responsabilidade", diz, considerando, no entanto, "prematuro especular" sobre o destino daquelas instalações.

O tribunal passará a funcionar num novo complexo do Parque das Nações, em Lisboa. A alienação deste edifício faz parte de um conjunto de imóveis - que o Governo vendeu para concentrar na zona oriental de Lisboa 25 serviços do Ministério da Justiça. Venda essa da responsabilidade do Ministério das Finanças.|

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