"Programa de Temer é uma ponte para o caos"

Entrevista a Roberto Requião, senador eleito pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro, partido do presidente interino Michel Temer. O senador pelo Paraná foi um dos que votou contra o <em>impeachment</em> de Dilma Rousseff.
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É do PMDB, do presidente Michel Temer, mas votou contra o impeachment de Dilma. Porquê?

Porque o impeachment previsto na Constituição brasileira pressupõe um crime de responsabilidade do presidente e esse crime não ocorreu. As manobras de contabilidade feitas por Dilma são até então aceites pelo tribunal de contas, não tem tipificação legal de crime. Foram feitas pelos antecessores e por 16 governadores do Brasil. O que tivemos foi um voto de desconfiança do Parlamento em relação a Dilma e no regime presidencialista esse voto de desconfiança não existe. Então, é uma coisa irregular e eu não podia votar pela existência de um crime inexistente.

Não é por ter dúvidas da capacidade de Temer de governar o país?

Também. A proposta da direção do meu partido não é a desenvolvimentista histórica do PMDB. É uma proposta neoliberal, de certa forma intriguista, que deveria ser submetida ao povo e não implementada da forma como está a ser. A minha discordância passa por aí.

Por não ter sido sujeito ao voto?

Não foi sujeito ao voto e é exatamente contrária à que elegeu a presidente Dilma e o vice Temer.

A proposta de Temer é chamada Ponte para o Futuro...

É um horror, é uma ponte para o caos. É uma proposta semelhante à que desgraçou a Europa. Portugal sabe o que acontece com esse neoliberalista, Itália também, Grécia sabe mais do que todos os outros. Nós estamos num impasse. O programa é muito ruim, é neoliberal, e jamais ganharia eleições no Brasil com o voto popular. E a solução, a meu ver, dentro da inviabilidade da Dilma, seria a convocação de novas eleições, em que o povo escolheria o caminho que quer tomar.

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Dilma está só suspensa por seis meses. Acha que é possível voltar?

Tudo é possível, mas há uma rejeição parlamentar muito grande.

A falha de Dilma foi não ter sabido negociar com os aliados?

Foi não conseguir comunicar com o Congresso nem cumprir com o projeto de governo. Então, ela perdeu a sua base e não soube conquistar a base adversária.

O PMDB sempre apoiou as candidaturas de outros partidos. Acha que é hora de avançar para uma candidatura própria?

Antes de tudo ele tem de assumir a sua própria imagem porque o grupo que apoia Temer não tem nada que ver com a história do PMDB e a sua visão programática, construída ao longo dos anos. É a negação do desenvolvimentismo do PMDB. Temos de voltar à discussão interna, elaborar um programa e disputar eleições. Não impor um programa avesso à história do partido e à necessidade do país.

Acha que o facto de o presidente Temer ter chegado ao poder desta forma pode prejudicar o PMDB?

Acho que, pela corrupção que atingiu todos os partidos, todos estamos afetados com a falta de credibilidade. Não só o PMDB. É um problema geral da política brasileira.

É preciso mudar o sistema?

Estamos numa entaladela que só se resolve com uma mudança da política económica. Como dizia o assessor do presidente Bill Clinton, James Carville, "É a economia, estúpido". A economia é que está comandando nesse processo todo.

Se não fosse a crise...

Se não fosse a crise, Dilma não cairia. A corrupção foi um veículo para derrubar o governo, embora a corrupção não seja só do governo. Ela está generalizada na política brasileira. Para mim, todos os que cometeram deslizes têm de pagar. Sou absolutamente a favor da Lava-Jato, que não pode parar agora.

Corre esse risco?

Infelizmente.

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