Português vai liderar sistema educativo de Los Angeles

Alberto Carvalho foi para os Estados Unidos ainda adolescente, sozinho e sem estudos. Trabalhou, formou-se e é desde 2008 responsável pelas escolas públicas de Miami-Dade. Agora foi escolhido para liderar o sistema educativo de Los Angeles.
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A 28 de fevereiro de 2020, o superintendente das escolas do terceiro maior agrupamento americano era chamado a dirigir o sistema educativo de Nova Iorque, o maior do país. Recusaria o cargo para continuar o trabalho em Miami-Dade. Agora, chegou a hora de mudar. Aos 57 anos, o português Alberto Carvalho, que há quatro décadas deixou o seu Bairro Alto-natal para tentar a sorte em Manhattan, foi escolhido nesta semana para superintendente do sistema educativo público de Los Angeles.

O Los Angeles Times, que noticia a nomeação por unanimidade, chama-lhe "um dos mais admirados e experientes líderes educativos dos Estados Unidos", considerando que a escolha aporta "estabilidade e capacidade de melhoramentos notáveis ao segundo maior distrito escolar da Florida". Alberto Carvalho, que o DN entrevistou e cuja história contou em 2019 na rubrica Pela América do Tio Silva (leia aqui), assume assim a liderança da educação de 450 mil alunos, depois de ter dirigido um dos cargos mais desafiantes na educação pública americana, dado o perfil maioritariamente originário de famílias desestruturadas e pobres das crianças e jovens do agrupamento que dirigiu com enorme sucesso.

"Há ainda dificuldades históricas, dificuldades e desigualdades entre os estudantes pobres e os restantes e nos últimos tempos assistimos a perdas sem precedentes nos níveis de aprendizagem em resultado da pandemia, que impactou com mais severidade os mais frágeis entre nós: estudantes afro-americanos, pobres, de língua inglesa não-materna, com deficiênca...", afirmou, citado pelo LA Times, justificando com a vontade de melhorar essa realidade a decisão de aceitar o convite. "Acho que é um fit perfeito", declarou àquela publicação, uma opinião partilhada pelo presidente do sistema escolar, Kelly Gonez.

Conforme o DN contou, Alberto Carvalho nasceu em Lisboa, um entre seis filhos de uma costureira e de um zelador que não foram além do terceiro ano mas a quem reconhece ainda imensa sabedoria. Tinha 17 anos quando desembarcou sozinho nos Estados Unidos, em Manhattan, e quatro horas depois de chegar estava numa cozinha a lavar pratos e panelas para ter dinheiro para comer. Foi o primeiro dos irmãos a terminar o liceu e foi graças à sua ajuda que o mais novo, com menos dez anos, pôde seguir-lhe os passos - hoje é dentista na capital portuguesa.

Dormiu na rua, debaixo da ponte, durante mês e meio, quando o seu visto expirou e deixou de poder trabalhar, mesmo nas obras. Passou fome e frio até um professor lhe mudar a vida, ajudá-lo a legalizar-se, a estudar. É por isso que defende que "todos os miúdos são inteligentes, e se alguns falham é pela estupidez dos adultos". Com a ajuda que recebeu, pôde frequentar a Broward College e aBarry University e em 1990 formava-se em Biologia. Professor de Físico-Química no liceu Jackson Senior, tornou-se vice-diretor e foi ascendendo até superintendente das escolas de Miami-Dade.

"Não temos dúvidas de que continuará neste cargo a liderar por empatia, trazendo a sua história enquanto imigrante e as dificuldades que superou como vareferências e trabalhará ao lado de pais, alunos, professores e comunidade para cumprir uma visão de sucesso em que todos têm lugar", disse, citado pelo LA Times o administrador Nick Melvoin.

"Eu sirvo crianças, adultos, toda esta comunidade, por isso todos os dias me reúno com pessoas de diferentes níveis da estrutura que têm cabeças incríveis e podem realmente ajudar-me, acho importante receber conselhos de todos", explicava ao DN na rubrica citada. "Já vi muitos adultos quebrarem o espírito, os sonhos e as paixões de crianças e o meu trabalho tem sido sempre o de desconstruir os sistemas, torná-los mais humanos, flexíveis e inteligentes."

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