As mãos borradas com tinta da china. Milenko, 21 anos, está sentado num banco de jardim, de costas para o Parlamento Federal onde, em cima do palco, a urna de Slobodan Milosevic, disputa a memória da Sérvia com uma outra imagem do mesmo lugar, a revolução de 5 de Outubro de 2000. "Porra, não está muita gente!", diz um simpatizante de Milosevic. Talvez 20 mil pessoas, um pouco mais. No 5 de Outubro eram centenas de milhares..Milenko diz que veio apenas registar, no seu bloco, o momento. Estudante de artes, vai desenhando "o movimento" das pessoas que, de quando em quando gritam "Tadic ustacha", "Vuk turco", "Vamos para o Kosovo". "É interessante desenhar a forma que as caras das pessoas ganham nestas situações, quando estão a gritar", diz. "Foi só por isso que vim, não me identifico com estas pessoas, vim registar." .O banco de jardim torna-se um bloco de notas. "Aos 16 anos era pioneiro", apresenta-se Najdan Jelenkovic, curvado, queixando-se das costas. Logo se senta este homem nascido ainda antes da II Guerra. Ouve-se "que caia o Governo!", o mote mais repetido pela multidão. E a saudade nos olhos de Najdan: "Cheguei ao Partido Comunista em 1959". Fala de Tito, depois de Milosevic. "Há gente neste país capaz de o julgar. Não acredito que tenha roubado, mas se o fez devia ter sido julgado aqui". . No palco, começam os discursos, no nosso banco entra em cena outro velho militante comunista, que passou ao Partido Socialista de Milosevic. "Mladi, Mladi?" ("Jovens, jovens") diz ele olhando com brilho para Milenko e mais um ou dois jovens. E recita-nos excertos de um poema: "Sorte tem aquele que vive eternamente, porque tinha razão para nascer" (na tradução que improviso do célebre poema A Coroa da Serra, do escritor montenegrino Petar Petrovic Njegos). Este homem que prefere não se identificar diz várias quadras. Milenko desenha a boina preta e o lenço que ele leva aos olhos para disfarçar uma lágrima. "A força da América vai acabar um dia..." e volta ao poema: "O tempo constrói torres na costa do mar?".. Ali perto, um livro diferente, a biografia de Milosevic, custa 400 dinars (cinco euros). Já em Pozarevac, "Mladi, Mladi", apanha a deixa Miodrag Pavlovic, que segura um livro intitulado Ratko Mladic ?. "Veja como há aqui muitos jovens", diz-me. "São os meus filhos e os amigos. Viemos da Voivodina. Representamos a gente comum que não tem trabalho". E continua: "Os sérvios foram enganados com o 5 de Outubro. O povo está pobre e doente, sem direitos." A urna está quase a chegar à terra onde nasceu o ex-presidente. A caminho vêm também autocarros com matrículas de Banja Luka e de outras cidades da República Srpska, na Bósnia-Herzegovina..Miodrag já ouve a marcha fúnebre. Vejo dentro de um café uma imagem surrealista (ou não): dois namorados (ele talvez com umas rakijas - aguardentes - a mais) beijam-se loucamente. Não se importam que o presidente, como lhe chamam aqui, esteja a passar. Do lado de fora, o povo de Pozarevac: "Slobo, Slobo", "Sérvia, Sérvia". No palco improvisado da praça Oslobodjenia (libertação) começam os discursos. Ainda se ouve um "Rússia, Rússia", quando um general diz que Haia "foi um processo medieval". .O presidente da Associação "Sloboda" diz que a Sérvia "assiste ao nascimento de uma lenda". "Sloboda" significa liberdade. "Slobodan", livre. "O nome é um signo. No caso é o inverso: o nome de um anti-herói é um anti-signo", escrevia Vidosav Stevanovic, em Milosevic, une epitaphe, publicado em França, em 2000. No epitáfio deste dia, não pode estar escrito que Milosevic fica sepultado na "Aleja Velikana" (A Avenida dos grandes), em Belgrado, como queria o partido. Ele não fica perto de Zoran Djindjic ou do escritor Ivo Andric. Os seus milhares de simpatizantes podem agora "vê-lo" para lá daquele portão coberto de rosas, no fim de uma pequena rua de Pozarevac, no pátio da casa de família. Para eles aquele é um pátio de um herói, para muitos outros nos Balcãs é um pátio maldito. * Correspondente da TSF