Dias mais curtos, tempo mais fresco, a folhagem da maior parte das árvores a cair, as vinhas com aquele colorido fantástico que prenuncia o repouso invernal, é assim o Outono. Mas na gastronomia é o contrário, é tempo de sabores e aromas variados, de paladares mais intensos, de comidas mais fortes. Retomam-se as grandes bacalhoadas, de azeite farto e batata apaladada e começam as matanças de porco, para se poder preparar os enchidos e fumeiros que vão ser apreciados Inverno fora..Dali saem dois pratos populares de eleição: os rojões, com a carne do lombo e da costelinha, a tripa enfarinhada (no Norte), o redenho e o fígado, mais o sangue. E os cozidos à portuguesa, com variantes um pouco por todo o país: carnes frescas de vitela e de porco, chouriços de carne, de sangue, de cebola, de abóbora e outros, focinho e toucinho fumados e os legumes com fartura: batatas, couves, cenouras, nabos e, em alguns locais, o grão ou o feijão..No Outono é também tempo de cogumelos, um pouco por todo o país, mas muito populares em Trás-os-Montes, nas Beiras e no Alentejo. Com as primeiras chuvas, a partir de Outubro, é vê-los a despontar em pinhais, carvalhais, estevais, terrenos arenosos, junto de sobreiros, azinheiras e nos lameiros. Apanhados por quem sabe, em segurança, preparados com simplicidade ou a fazer companhia a pratos diversos, dão-nos imenso prazer..E uma das combinações excelentes para os cogumelos é a caça, que começa no final do Verão – patos, pombos e rolas – e continua pelo Outono e Inverno com as perdizes, galinholas, coelhos, lebres, tordos e algumas outras espécies. Em estufados apurados, temperadas com tempo, das várias peças de caça se fazem pratos soberbos..No Outono aparecem legumes tenros e carnudos, que apanham frio, como as couves-pencas, as nabiças e os nabos, que se comem cozidos ou salteados, e começam a ser utilizadas as leguminosas que foram apanhadas e secas ao sol, no Verão: feijão, feijocas, lentilhas e grão..Na fruta é tempo de laranjas e tangerinas, que as temos tão boas e que não raro ficam por apanhar, ao abandono, em favor daqueles citrinos de estufa, sem sabor ou a saber mal, que a União Europeia nos impinge. No Outono há os marmelos, em doce ou assados no forno, e de que se faz tradicionalmente a marmelada e a geleia para o resto do ano..E há a romã, abundante no Algarve e no Alentejo, tão esquecida e tão apetecível. No Outono aparece o fruto mais popular da época um pouco por todo o país, a castanha, de que somos reconhecidamente grande produtor. Cozida a vapor com erva doce ou assada no forno com sal grosso, na companhia de uma popular jeropiga ou de um mais elegante vinho do Porto ou Moscatel, come-se quente, fria, de qualquer maneira. E usa-se também na confecção de pratos variados, num delicioso puré de castanhas ou numa requintada sopa..E é no Outono que começam a aparecer os primeiros queijos de pasta mole, que vão fechar na perfeição qualquer refeição, mais simples ou mais requintada..Aparecem novos vinhos, que estiveram a estagiar, sobretudo os tintos, que precisam de um pouco mais de garrafa, e faz-se um primeiro balanço das vindimas que acabaram já no mês de Outubro. Alguns produtores vão mesmo lançar os seus brancos ainda este ano, muito jovens, cheios de vida..Mas é tempo também de apreciar as aguardentes, que as temos belíssimas, um pouco por todo o país vinícola, desde os vinhos verdes ao Algarve, sejam aguardentes vínicas envelhecidas em cascos de madeira, com tempo, sejam as bagaceiras, que já vão aparecendo no mercado com roupagens apelativas. E os licorosos, com cada vez mais adeptos nas camadas jovens, que têm vindo a descobrir a frescura e a elegância dos vinhos do Porto, do Moscatel e mesmo do Madeira, como excelente alternativa aos destilados de que o mercado está invadido, muitas vezes (vezes demais) de muito fraca qualidade..E desenvolvem-se novas bebidas e combinações, partindo de matéria prima de qualidade: o vinho do Porto Pink (rosé) é um bom exemplo. Os brancos continuam a sua subida de qualidade e de popularidade, e os rosés entraram definitivamente nos hábitos dos portugueses, frescos e leves, ao fim da tarde ou início de refeição, mas sobretudo depois de descobertas as óptimas ligações gastronómicas que podem proporcionar. Os espumantes são já uma realidade no hábito dos portugueses, e fazem-se espumantes muito razoáveis por todo o país, alguns mesmo de grande qualidade, mesmo na região dos vinhos verdes e dos alvarinhos que, devido à sua boa acidez, produzem vinhos vivos, cheios de frescura. E que sabem bem também no Outono, acompanhando praticamente todo o tipo de gastronomia. Os brancos com enchidos ou queijos apaladados, os rosés com peixe grelhado ou carnes brancas, são algumas das descobertas que se vão fazendo e que fazem da gastronomia e do vinho uma arte de bem fazer e apreciar..DOIS CHEFS, DUAS RECEITAS.Dois prestigiados chefs de cozinha, José Júlio Vintém, do Alentejo, e Pedro Amaral Nunes, do Minho, conversaram com a NS’ e deixam receitas próprias da época..JOSÉ JÚLIO VINTÉM *.O que aprecia mais no Outono?.Os cogumelos e a caça, com que se pode fazer tantas coisas boas. Embora não seja caçador, habituei-me desde cedo a apreciar a riqueza da carne das diversas peças de caça, seja caça grossa, de pêlo ou de penas..E quais os temperos de Outono que mais utiliza num Alentejo riquíssimo em aromas?Gosto muito de usar alecrim na caça grossa, javali e veado, e carqueja na caça de penas, sobretudo nas perdizes, numa ligação óptima e requintada, embora tradicional..Que sopas prefere preparar no Outono?Entre muitas sopas e caldos tradicionais, gosto de guardar o tomate do fim de Verão e preparar a tradicional sopa de tomate, que sabe bem pelo tempo mais fresco, com dias mais curtos: preparo lentamente, com tempo, o caldo da sopa, que beneficia com a acidez do tomate de qualidade, adicionando o imprescindível ovo escalfado. À parte fritam-se as carnes de porco – toucinho, entrecosto, chouriço e linguiça – que se vão comendo juntamente com a sopa. É um prato reconfortante e saboroso..Que outros legumes usa no Outono?Além do tomate e de outros legumes mais vulgares que vão aparecendo, gosto de usar alcachofras, abóbora e mugango, que é muito próximo da abóbora. São legumes mais quentes, que dão óptimas combinações. E há um fruto que uso para preparar um acompanhamento que liga muito bem com alguma caça, dando um contraste fantástico, que é o marmelo: é preparado no forno, com canela e açúcar e liga muito bem com certos pratos de caça..E sobremesas, tem alguma especial para o Outono?Utilizo alguma fruta da estação, como as romãs, um fruto excelente e que tem sido tão esquecido. E mais uma vez o marmelo, que costumo assar no forno e servir com um molho de dióspiro, numa ligação muito apreciada. Também gosto de fazer compotas, como a de figo chumbo, a de marmelo, a de amora e a geleia de uva, que depois combinam bem com vários doces alentejanos..E que receita nos vai propor?É uma receita muito simples, coelho em molho de vilão, que no Outono utilizo no Tomba Lobos como uma das minhas entradas..*proprietário do restaurante Tomba Lobos, em Pedra Basta – Portalegre.Coelho em molho de vilão.Ingredientes.Um coelho com cerca de 1,5 kg.cebola 600 g.alhoscoentrossalazeite 0,150 l.vinagre de vinho tinto 0,150 l.Abre-se o coelho pela barriga e tempera-se com sal. Assa-se o coelho na grelha durante cerca de 20 a 25 minutos até ficar tostado e depois deixa-se arrefecer. Desfia-se a carne e mistura-se com a cebola picada, os coentros, o azeite e o vinagre. Rectifica-se o sal e serve-se em prato pequeno de entrada..PEDRO AMARAL NUNES*.O que acha do Outono, gastronomicamente falando? É a época mais fantástica do ano. Começam a aparecer os espargos bravos e os cogumelos estão por todo o lado. E começa a caça, a excelência da caça. No Outono prepara-se o foie gras e usam-se os fumados, dois dos produtos que mais aprecio. No Outono, ainda sem os rigores do Inverno, há mais disposição para uma cozinha mais forte, uma cozinha com tempo. E já apetecem uns bons caldos, de panela..Qual é a sua caça preferida?São as perdizes, mas das selvagens, autênticas..E que legumes usa mais no Outono?Os legumes fortes, que já apanharam algum frio. As couves, as pencas, as nabiças e os grelos. E os nabos, excelentes. Mas também as leguminosas secas, o grão e todo o tipo de feijão, que o temos tão bom. Estou a utilizar cada vez mais as lentilhas, um pouco esquecidas, mas que acho fantásticas. Por exemplo, com um lombo de robalo. E as ervilhas, que já se vêem desde o Verão, quando são de boa qualidade, são um produto fantástico. As chalotas, cortadas fininhas, são óptimas..Está a fazer algum prato especial com feijão?Estou a fazer um ensopado de feijão-fradinho que me enche a alma! Com carnes de porco e vitela, alguns enchidos muito equilibrados e, claro, óptimo pão. Acaba de cozinhar no forno..E o pão, que importância tem?O pão é óptimo, sobretudo do Alentejo e de Trás-os-Montes. O problema é que noventa por cento do pão que comemos é mau, o que é uma pena. E o pão liga com o azeite, que é outro produto cada vez mais de excelência..Aromas de Outono, usa alguma coisa especial? Mais do que aromas, vou buscar as conservas que se fizeram na Primavera e no Verão, com azeitonas, pimentos, pepinos e tomate. Dão combinações fantásticas e são uma tradição. E uso cada vez mais o tomate «coração de boi», daquele que é feio, uns pequenos, outros médios e outros enormes, tortos. Mas duma qualidade incrível e que se encontram, durante o Verão, nos mercados ou directamente nos lavradores. Amanham-se e congelam-se para usar no Outono e Inverno, para molhos fantásticos e de que também faço pequenas conservas..E que temperos o seduzem?A pimenta, sempre, e uso cada vez mais uns laivos ligeiros de cominhos. E o vinho do Porto, que cada vez mais acho que é também um tempero por excelência..Que receita nos vai propor?É um atum frito em conserva ligeira, uma receita nova... Eu adoro atum..* proprietário dos restaurantes São Gião, em Moreira de Cónegos, e Quarenta e 4, em Matosinhos.Atum frito em conserva ligeira.PARA 4 PESSOAS.Prepara-se 1 kg de atum vermelho em cubos de sensivelmente 4x4 cmuma cabeça de alho partida ao meio4 dl de azeite2 dl de vinagre1 copo de vinho branco Coreto3 folhas de louro2 malaguetas10 grãos de pimenta branca1 saco de salada gourmetsal e pimenta.Polvilhar os cubos de atum com a pimenta, envolvê-los em película aderente e deixar dois dias no frigorífico. Passadas 48 horas, secá-los bem, temperar com sal e fritar em azeite, em lume médio. Uma vez frito, colocar o atum num frasco hermético devidamente esterilizado. No mesmo azeite do atum fritar, em fogo muito lento, a cabeça de alho, o louro, as malaguetas e os grãos de pimenta. Quando os alhos estiverem tenros, juntar o vinagre e o vinho e deixar ferver durante uns dez minutos, sempre em lume baixo. Deitar todo o conteúdo da fritura sobre o atum (caso não cubra, acrescentar um pouco mais de azeite), fechar o frasco e guardar três a quatro dias em local fresco, para que todos os temperos se misturem completamente. Depois servir com salada gourmet, regando tudo com o molho existente no frasco.