"Os meus pais batem-me porque gostam muito de mim"

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Esta frase foi dita por uma criança de 10 anos, ciente de que os pais lhe batem porque gostam muito dela. E é por gostarem assim tanto que, quando ela se porta mal, lhe dão estaladas e palmadas, no rabo, na cara e onde calha, deixando-a marcada e, por vezes, a sangrar. Mas, acredita ela, tudo isto é uma prova de amor.

Se apenas esta criança pensasse assim, já seria grave. Mas não é a única. Muitas e muitas crianças pensam da mesma forma, crescendo com a ideia errada de que merecem ser batidas e que as agressões são manifestações de amor, carinho e preocupação.

Mas de onde surgem estas atribuições tão erradas? Como se forma na cabeça de uma criança a ideia de que é batida porque merece e por quem gosta muito dela?

Estas ideias surgem porque quem agride justifica de forma distorcida os seus próprios comportamentos agressivos. "Porque te portaste mal", "porque mereces", "porque me provocaste" e "porque tenho de te educar". Atribuições que contribuem para a culpabilização da criança, legitimando e normalizando a utilização de práticas punitivas por parte do adulto.

Ora, ao crescer neste contexto, muitas crianças acabam por interiorizar a ideia de que se portam mal ou, pior, de que são más e que, por isso, merecem apanhar. E ao acreditarem que a culpa é sua, dificilmente pedem ajuda e sinalizam a situação junto de terceiros. Pelo contrário, tendem a manter o segredo e o silêncio.

Estas crianças crescem e muitas delas iniciam depois, já na fase da adolescência, relações de namoro igualmente violentas, acreditando que o controlo, as proibições, as ameaças e as agressões, sejam elas psicológicas, físicas ou sexuais, são apenas manifestações de amor.

Estes adolescentes crescem e tornam-se adultos, frequentemente envolvidos em relações de intimidade pautadas por violência que, em alguns casos, terminam em morte. Matou por amor, diriam alguns.

Pois que fique claro que agredir, seja de que forma for, não é jamais uma prova de amor e que toda e qualquer agressão tem de ser reconhecida como tal para que possa depois ser sinalizada. As vítimas de violência, sejam elas crianças, adolescentes ou adultos, não são responsáveis por essa violência. E por mais que os/as agressores/as tentem justificar o seu comportamento, não há justificação possível.

Em muitas situações, a violência perpetua-se ao longo do tempo, com sucessivas revitimizações. Urge quebrar estes ciclos, começando pelo início - ajudando as crianças a distinguir os bons tratos e os maus tratos, a reconhecerem os diversos tipos de agressão como uma violação dos seus direitos e a saberem pedir ajuda, para que sejam devidamente protegidas.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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