É hoje um truísmo falar-se na aceleração da História. O fenómeno, que começou a evidenciar-se a partir do final da Primeira Guerra Mundial, tornou-se um facto óbvio nas últimas décadas do século passado. A novidade resulta agora do aumento da sua cadência nos sectores tecnológico e económico, por um lado, e do reforço dos seus efeitos em consequência da globalização. Esta última su-blinhou o rápido arcaísmo de estruturas que não conseguem acompanhar o ritmo do progresso e permite comparar sincronicamente as sociedades que se mantiveram na linha da frente ou que recuperaram os atrasos com aquelas que não conseguem manter a passada dos da dianteira. Certos factores de medição permitem avaliar por forma objectiva na economia e na sociedade em geral os retrocessos e os avanços, tornando mais indiscutíveis e dolorosos os inêxitos..Portugal, desde os anos 90 do século XX, tem vindo a andar a passo mais lento do que os restantes membros da União Europeia, perdendo a pequena recuperação que tinha iniciado após a adesão à Comunidade. A má governação e o défice financeiro consequente acentuaram ainda mais a estagnação económica e a paralisia na modernização. .O fenómeno é complexo e as causas são múltiplas e interligadas. Mas a gravidade da crise obriga-nos a ir mais longe e a procurar explicações que não se restrinjam apenas a uma sucessão de governos medíocres, à relativa falta de empenhamento no sistema educativo, ou ao contexto económico internacional desfavorável que diminui a procura externa - o que não significa, aliás, que tais ele- mentos não tenham contribuído para o estado presente do País..Um primeiro sintoma de profundidade do mal-estar que nos aflige resulta de a grande maioria, vítima das medidas financeiras restritivas, se queixar do Estado e invocar os seus direitos adquiridos, mas de poucos ou nenhuns se disporem a pensar o que podem fazer por Portugal e menos ainda a assumir os sacrifícios que essa atitude de dádiva ou altruísmo implica. Mas se observarmos mais fundo ainda, os comportamentos de indignação e revolta perante a deterioração do estatuto económico ou do bem-estar de cada um e que se convertem em greves e manifestações de rua traduzem uma grave dependência do Estado. Denotam uma falta de autonomia e de capacidade de desenvolver as potencialidades próprias do ser humano..Após o "Ancien Régime" português, nunca fomos um país onde os valores políticos e económicos do liberalismo - a capacidade da pessoa ter plena autonomia como ser livre e agir na dinâmica social através da sua própria força criativa - fossem plenamente assumidos. Por isso mesmo importámos mais facilmente o figurino francês do Estado do que o modelo anglo-saxónico. Também em razão disso claudicámos facilmente perante prepotências ditatoriais..O que agora nos é pedido para que a crise seja debelada é uma verdadeira reinvenção do nosso modo de ser social e político, aproveitando qualidades que temos, mas que sempre foram secundarizadas. A contenção do despesismo, a melhoria da qualidade dos serviços públicos, o aumento da produtividade certamente que ajudam, mas o âmago da crise e o segredo da solução residem na revitalização dos valores fundamentais da dignidade da pessoa humana. Só essa síntese criadora será capaz de promover as reformas e as revisões indispensáveis numa sociedade totalmente fragmentada e corporativista e de reconduzir o Estado a uma democracia verdadeiramente servidora de seres livres e autónomos..Não vivemos numa época em que seja provável que venham benesses de novas Índias ou Brasis. Só a ultrapassagem da crise de valores e o acordar dos espíritos para os sacrifícios e medidas indispensáveis permitirão que as dificuldades sejam verdadeira e duradouramente superadas.