O amor malvado segundo Llosa

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Mario Vargas Llosa queria escrever um romance de amor: pegou num desgraçado (Ricardo Somocurcio, intérprete) e numa megera linda (Lily vários nomes, ex-guerrilheira, quase sempre "doméstica", organizadora de eventos durante um ano) e uniu-os para a vida, numa história que começa no bairro de Miraflores, em Lima, atravessa Paris, Londres, Tóquio, outra vez Paris, o bairro de Lavapiés, em Madrid, e acaba (mal) numa casinha nos arredores de Sète, no cimo de uma colina de onde se vê o mar.

As duas personagens centrais de Travessuras da Menina Má, editado agora pela D. Quixote, são estereótipos do património histórico dos amores malfadados: o "menino bom" versus a "menina má" que o perde, uma operação fatal em que a inversa também é sempre verdadeira.

Lily é um monstro, que trata abaixo de cão o seu escravo vitalício, numa caricatura da estranha confluência entre os amores só malvados e o amores sadomasoquistas. O "borra-botas" (é assim que Lily o trata, na tradução) é humilhado a vida toda, com o início da narrativa a começar na adolescência e a terminar nos cinquenta e poucos dos dois protagonistas.

A mais prosaica das humilhações que Lily impõe a Ricardo, que a venera como um cão, é o desaparecer sem deixar rasto várias vezes ao longo da vida. Mais tarde, em Tóquio, na única vez que Ricardo a verá aparentemente apaixonada, Lily pratica um acto superior de humilhação: escondido atrás da cama onde ela e Ricardo se deitaram, está plantado o marido de Lily.

Vá lá: o livro dos amores malvados não é o melhor que Mario Vargas Llosa escreveu e está mesmo a anos-luz de Conversa na Catedral" ou de Lituma nos Andes. É pontuado por piroseiras (é este o nome que Lily dá aos mimos e às declarações de amor de Ricardo) e tem uma cena de sexo antológica, exactamente na subsecção das piroseiras, que fará a delícia dos coleccionadores. Até o final (com a menina má a morrer em redenção) parece saído sabe-se lá donde. Mas está lá todo o horror e doença do amor malvado e as suas miseráveis hipóteses de exaltação.

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