Na fotografia pousada na mesa, Cunhal segura com um sorriso discreto o caderno preto em que fazia as suas anotações. Ao lado está o livro de honra a que, poucas horas mais tarde, faltarão páginas para tanta despedida. Sobre ele, cravos vermelhos - três entre as centenas que já inundam a sala. Atrás, uma coroa de flores enviada pela freguesia do Sado, Setúbal. Dois passos ao lado, uma enorme coroa de flores azuis, brancas e vermelhas "A Álvaro Cunhal, de Fidel Castro"..Porque o sorriso se apagou na madrugada da última segunda-feira, as atenções estão viradas para o centro da sala, onde repousa a urna fechada do líder histórico dos comunistas, coberto por uma bandeira do PCP. O momento é de homenagem dos mais próximos. De um lado estão históricos e actuais dirigentes comunistas - Jerónimo de Sousa, Carlos Carvalhas, Bernardino Soares, Vítor Dias . Do outro, a família a irmã , Eugénia Cunhal, e a viúva, Fernanda Barroso. Minutos mais tarde, a porta do Centro Vitória, na Avenida da Liberdade, abre-se aos populares - 500 a 600, contavam então as forças policiais. .Homenagem. Um número que foi aumentando substancialmente ao longo da tarde e que, ao princípio da noite, ultrapassava seguramente o milhar. Entre eles esteve o chefe de Estado. À saída do Centro Vitória, Jorge Sampaio lembrou "uma grande figura que ficará sempre na história portuguesa como um dos grandes obreiros do triunfo da liberdade sobre a ditadura" - "Não podemos esquecer isso em circunstância nenhuma". Cunhal numa palavra? Impossível, diz o Presidente da República "É uma personalidade muito cheia, muito global, muito plena. São muitas décadas de história e de combate". E, considerando que, para o PCP "é um grande comandante que desaparece", foi um Jorge Sampaio comovido a afirmar que, com a morte de Álvaro Cunhal, "é outro capítulo que se encerra e outra geração que também aqui se completa". .Já ao final da noite, foi a vez do primeiro-ministro prestar homenagem ao homem "intelectualmente brilhante" e ao "político de grandes capacidades" que o tornaram numa "das figuras mais relevantes" do século XX português. Referindo que Álvaro Cunhal foi também uma "figura controversa", José Sócrates fez questão de sublinhar "o contributo decisivo" do líder histórico do PCP para a democracia portuguesa. "É assim que o devemos recordar", frisou o chefe do Executivo..Além de Sampaio e Sócrates, também Jaime Gama, presidente da Assembleia da República, foi ontem prestar homenagem a Álvaro Cunhal. Entre as personalidades que passaram pelo Centro Vitória esteve também Maria Barroso, nomes de Abril como Vítor Crespo, figuras do mundo da cultura (Simão Rubim e José Pedro Vasconcelos). Para a noite estava prevista a visita de Francisco Louçã e Luís Fazenda, do Bloco de Esquerda..Adeus. Já entre os populares que ontem não quiseram deixar de se despedir de Álvaro Cunhal, a palavra de ordem podia resumir-se numa frase "Morreu um dos nossos". Nos ideais - pela Avenida da Liberdade passaram sobretudo militantes ou simpatizantes do PCP -, mas sobretudo na identificação de quem se sente do mesmo lado da "barricada" do líder histórico dos comunistas. "Ele quis sempre estar com os pobres e os mais desfavorecidos, lutou toda a vida por eles. Então não havia de vir aqui?", referiu ao DN uma das populares..Quatro da tarde, Manuela Santos está no fim de uma fila que conta já uns cem metros, com o filho de dois anos. "Gostaria que o meu filho o tivesse [a Cunhal] como referência, que recordasse que há homens de grande valor e não apenas o vazio que hoje temos", afirmou ao DN, apontando o ex-secretário-geral do PCP como exemplo a seguir na "luta pelas convicções"..Em frente à porta do Centro Vitória, fora da fila que dava acesso ao interior, Bertilde Gouveia diz que, "durante a tarde" está "só a ver". "Temos outra missão", acrescenta, ao lado, Luísa Moleiro, revelando os propósitos das duas senhoras - "Ele não vai ficar lá sozinho. Há-de ter sempre gente a velar". Nem os 76 anos de Bertilde Gouveia lhe impedem a intenção - "Estou com dor nas pernas, mas hei-de estar aqui firme.".A preocupação, no entanto, não se justificava - a urna de Álvaro Cunhal tem, em permanência, uma guarda de honra assegurada pelos militantes das várias estruturas regionais do PCP. E flores, milhares de flores que ontem já se estendiam pelos corredores, até ao segundo andar do Centro Vitória. E muitas páginas de despedidas ao princípio da noite, o livro de honra que a meio da tarde repousava sobre a mesa já foi trazido para o exterior, para "descongestionar" as filas na saída do centro do PCP. E já foi substituído por outro. E por outro...