Novo corpo policial grego debaixo de fogo

Polícia destacada para as universidades helénicas longe de captar simpatia entre alunos e funcionários.
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Mais de um ano depois de ter sido concebida como uma resposta inovadora às universidades da Grécia, notoriamente indisciplinadas, uma força policial especial foi destacada há um mês, mas os seus resultados não impressionam. Mil agentes foram destacados em setembro para quatro dos mais de 20 campi universitários da Grécia, escolhidos por terem os mais altos índices de tráfico de droga e pequenos delitos. "Não os temos visto", disse um professor do Politécnico de Atenas.

Armados apenas com bastões, os recém-formados esquadrões de proteção universitária (OPPI) foram destacados com parcimónia e sob a proteção de polícias de choque, na sequência de protestos de grupos de estudantes. "A polícia do campus apareceu uma vez, houve um tumulto e eles recuaram", disse Sabina Kurrizi, estudante de história na Universidade Aristóteles de Salónica. "A polícia de choque está a proteger a OPPI, que supostamente nos está a proteger. É um absurdo", acrescentou. "Ter um esquadrão policial a guardar outro esquadrão policial é surreal", diz Theodoros Tsairidis, o chefe do sindicato da polícia de Salónica. "Deve ser uma novidade mundial", comentou.

As universidades gregas são cronicamente subfinanciadas e conhecidas pelas suas greves, manifestações, além da violência contra estudantes e funcionários. Em 2020, o reitor da Universidade de Economia e Gestão de Atenas foi agredido no seu gabinete por um grupo de jovens encapuzados, que puseram uma placa à volta do seu pescoço onde se lia "Solidariedade para com os manifestantes".

Ao chegar ao poder em 2019, o governo conservador do primeiro-ministro Kyriakos Mitsotakis fez da lei e da ordem uma prioridade máxima. "O nosso governo está determinado a fazer do sentido de segurança [nas universidades] uma realidade", disse o ministro da Proteção do Cidadão Takis Theodorikakos após a polícia ter feito uma rusga ao Politécnico de Atenas. Mais de 30 pessoas foram presas em ligação com três bandos que transformaram parte de um degradado dormitório universitário num esconderijo, disse a polícia.

A despesa inadequada do Estado com a educação é uma preocupação antiga na Grécia. Em 2009, o ano anterior à crise económica grega, o orçamento anual do Ministério da Educação foi superior a 7,2 mil milhões de euros. Este ano, é inferior a cinco mil milhões de euros.

A presença da polícia nas universidades é altamente controversa na Grécia. Durante a ditadura grega, a polícia ajudou o exército a esmagar brutalmente a revolta estudantil de 1973, no Politécnico de Atenas. Os funcionários da Aristóteles disseram há dias, numa conferência de imprensa, que a presença da polícia de choque estava a perturbar a vida quotidiana no campus. "Esta é uma força anárquica que cria um clima de medo. As aulas não podem ser realizadas sob um clima de medo", disse o professor Sotiris Sotiropoulos. "É um risco para a nossa segurança física e mental."

As reações dos estudantes são mistas. "Sim, houve episódios de desordem, mas agora temos veículos da polícia tipo tanque no campus... muitos dos meus colegas têm medo de andar por aí", diz Irini, de 21 anos, uma estudante de biologia da Aristóteles. Mas Artemis, uma estudante de psicologia de 22 anos, realça que o campus é perigoso à noite. "Há tráfico de drogas diariamente, lutas e esfaqueamentos frequentes. Há também concentrações regulares e vandalismo por parte de quem não faz parte da universidade. Não podemos ter uma pessoa qualquer a entrar e a fazer o que lhe apetece."

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