1 - Quase 20 anos depois da estreia, o "Preço Certo" e Fernando Mendes são, de novo e frequentemente, líderes de audiências na televisão portuguesa. Porque é que isto importa? Por causa do CDS. (E a seguir vamos ao Livre).Recomeçando: no dia 7 de dezembro o PSD teve na mão a possibilidade de transformar as eleições de 30 de janeiro num plebiscito entre António Costa e Rui Rio. Quem ganhar terá o dever moral de fazer o seu partido apoiar a governabilidade do outro - assim quer Marcelo e a grande maioria dos portugueses (por isso votam no PS e no PSD)..Ora, o que fizeram os sábios conselheiros da famosa São Caetano à Lapa? Atiraram o pequeno Francisco e o seu CDS pela janela, como num "saloon" do faroeste. O partido "compagnon de route" de tantas vitórias - de Sá Carneiro a Passos, do Porto de Rio a Lisboa de Moedas - demolha-se jazido nos bebedouros à frente da janela estilhaçada. E sem cavalo para montar. Apesar de, belisquem-se: a vitória em Lisboa de PSD+CDS+Quejandos ter acontecido há menos de dois meses, por escassíssima margem. Sem o CDS (e os outros pequeninos de direita), o PSD teria perdido e Rio seria neste momento uma fotografia na parede da sede laranja..Numa eleição onde se vai jogar quem fica em primeiro lugar, uma estratégia assim é o climax da omnipresença do "macho alfa", uma mistura explosiva entre adrenalina, testosterona e aterosclerose. Que Rui Rio tenha gostado de, pela primeira vez, ser realmente o chefe do clã, é humano. Mas foi fatal. Estava tudo a correr tão bem... até o mais pragmático dos homens se deixar enlear pelo "Êxtase grupal no Conselho Nacional" (para a posteridade, Toy, please)..E onde entra nisto o "Preço Certo"? Pois, exatamente. Os portugueses têm hábitos. E quanto mais velhos, mais leais. Há quase 20 anos que estão ali, junto do Fernando Mendes... São eleitorado típico "Rui Rio", mas também ex-seguidores de Freitas do Amaral, Adriano Moreira ou Paulo Portas - estudem o perfil do Preço Certo. Ora, perante esta desfeita de Rio aos conservadores do CDS... eles votam... em quem? No PSD, que tirou o tapete ao seu partido no momento mais frágil da sua história. Ou tentam ir de táxi até à próxima eleição?.Menos votos são... menos votos. Até um economista sabe isso..2 - Já o caso da exclusão do Livre dos debates pré-eleitorais é sintomático do poder das audiências (cá está de novo o Preço Certo e a razão da sua longevidade: números). Na televisão ninguém quer correr riscos, mesmo que isso ponha em causa uma certa igualdade democrática..O Livre nasceu como uma boa ideia de Rui Tavares. É dele, aliás, a paternidade conceptual da geringonça que nos deu seis anos de Governos de esquerda..Quando o Livre arrancou, em 2013, estava o PS com António José Seguro e não se vislumbrava à esquerda nenhuma capacidade negocial. Hoje, para que serviria o Livre? Para moderar o PS, sobretudo em matéria ambiental, além de mais capacidade para Costa se relacionar de outra forma com a Cultura..Obviamente, pela mesma lógica de que todos os votos contam, nem o PS, nem ninguém à esquerda, entrará nesta conversa sobre igualdade de oportunidades televisivas a um partido com representação parlamentar. O Presidente Marcelo, grande conciliador e influenciador, também deve achar o assunto menor..Ainda assim, a história pode não acabar aqui. Numa corrida eleitoral de voto super-útil entre PS e PSD, o Livre pode não ser inútil em Lisboa porque a eleição de Rui Tavares não é impossível. No dia 30 de Janeiro, por um deputado se perde ou se ganha uma maioria. Também o PS devia perceber isso.. Jornalista