Trata-se de um registo de autenticidade, uma espécie de "marca de água" totalmente invisível mas (à partida) impossível de copiar, que assegura que um determinado objeto digital é genuíno -- ou seja, único ou parte de uma série numerada, limitada. Os NFT -- sigla de Non Fungible Tokens -- saltaram para a fama quando objetos virtuais marcados desta forma começaram a ser vendidos como se fossem obras de arte e pelo equivalente a milhões de dólares, e não se espera que desapareçam tão cedo..Com o seu aparecimento no mundo virtual, passou a ser possível comprar e vender no mundo digital "peças únicas". Um texto, uma imagem, um qualquer ficheiro de áudio ou vídeo marcado com NFT torna-se singular e quem o possua pode dizer ser dono de algo exclusivo..É claro que esse mesmo conteúdo -- como acontece com qualquer coisa digital -- pode ser copiado inúmeras vezes, mas já não trará consigo o respetivo NFT. Ou seja, será (quase) o equivalente à diferença de ter em casa um Picasso original ou uma serigrafia comprada num museu. Qualquer pessoa comum não distinguirá a diferença, mas o dono do original pode vangloriar-se de que o seu quadro é que é o verdadeiro..A tecnologia por trás dos NFT é a mesma que permite a existência das criptomoedas -- concretamente da Ethereum, a rede de Blockchain de que fazem parte. O registo de cada NFT é feito nesta rede de computadores em que todas as máquinas possuem uma cópia integral da listagem de NFT emitidos, vendidos ou trocados; e nenhum PC sozinho tem controlo total sobre a mesma. É, grosso modo, este sistema totalmente descentralizado de partilha do "livro-mestre" da contabilizade das emissões e trocas -- permanentemente atualizado em frações de segundo -- que torna segura a Blockchain. Nenhuma fraude numa só máquina pode adulterar o sistema..Já quanto aos objetos a que se podem associar NFT e vender como obras "originais", por natureza, não existe qualquer controlo. E é aí que está a criar-se o problema..Um dos casos mais recentes surgiu no mês passado, quando a Hermés processou em Nova Iorque o artista Mason Rothschild por este ter vendido 100 "malas virtuais", em edição limitada, marcadas com NFT, que são reproduções da famosa mala Birkin da marca de luxo francesa..No Twitter, o autor alega que as suas MetaBerkin, imagens puramente digitais que podem ser "usadas" nos mundos virtuais do metaverso, são uma criação artística e, como tal, protegidas pelo seu direito intelectual enquanto artista plástico. Algo que se sobrepõe ao direito comercial e de design industrial que a marca possui..Citado pela AFP, Mason Rothschild compara a sua situação à de Andy Warhol, no movimento pop art, ao utilizar livremente a imagem das latas de sopa Campbell no seu quadro de 1962. "O facto de eu vender arte por NFT não altera o facto de se tratar de arte", alega..Mas o mundo digital tem implicações que não se colocavam no tempo de Warhol. Como escreveu na Bloomberg o advogado norte-americano Edward Lee, que dirige um programa sobre propriedade intelectual na Chicago-Kent Law School, a marca Campbell não planeava entrar no mundo da arte, enquanto a Hermès poderá estar interessada em vender artigos digitais, através das suas próprias NFT, e a ação de Rothschild está a assim a provocar potenciais danos futuros..Por outro lado, segundo lembrou à AFP a advogada Annabelle Gauberti, do escritório Crefovi, em Paris, a criação artística, nos EUA, é protegida pela Primeira Emenda à Constituição, referente à garantia da liberdade de expressão e como tal sobrepõe-se a muitos outros..Resta saber se a justiça vai considerar as imagens digitais das malas marcadas com NFT "arte". E o facto de Mason Rothschild ter ganho já dezenas de milhares de dólares com malas de mão destinadas ao metaverso pode não ajudar muito este argumento, levanto a crer que há aqui uma importante vertente comercial..Por enquanto ainda não se conhece forma bem-sucedida de trazer os NFT para o mundo real, mas houve já quem tentasse, utilizando a Nike. Pequeno problema: a marca norte-americana não tinha sido sequer informada..A ideia foi da plataforma de vendas online americana StockX, especializada em roupa e artigos de tecnologia, que começou a criar e comercializar NFT baseados em produtos famosos da Nike. Quem compra o "NFT Nike" -- uma imagem virtual de uns ténis específicos -- adquire-os para o metaverso com o certificado de produto único e, dias depois, recebe também o produto real equivalente em casa..Ora segundo a ação judicial que a Nike interpôs em Nova Iorque no início deste mês, a StockX está "a vender esses NFT a preços muito inflacionados a consumidores desinformados que acreditam, ou é provável que acreditem, que esses 'ativos digitais investíveis' (como são chamados pela StockX) estão, de facto, autorizados pela Nike, quando na realidade não estão".E os valores atingidos podem ser muito altos. Por exemplo, uma imagem dos ténis "KAWS Sacai Nike Blazer Low Blue (Vault NFT)" esteve disponível na StockX por 549 dólares -- e segundo o grupo, a StockX já vendeu mais de 550 NFT da marca..Mesmo que a justiça venha a dar razão à Hermés e à Nike (e é provável que outros casos semelhantes venham a surgir), coloca-se a questão de como cumprir a sentença do tribunal. Nas palavras da advogada Annabelle Gauberti: "Como seremos capazes de chegar às pessoas que já compraram os NFT e impedi-los de revendê-los em leilões secundários? A aplicação da lei no mundo online é o oeste selvagem"..A solução poderá passar por as marcas agirem rapidamente no próprio mercado. Seja lançando os seus próprios produtos virtuais NFT, seja fazendo acordos extrajudiciais com quem já os criou..Os preços exorbitantes que estes bens intangíveis por vezes atingem -- pagos frequentemente em criptomoeda --, e a enorme imprevisibilidade deste tipo de leilões, faz com que o mercado dos NFT acabe por ter um efeito indireto, mas real, no próprio valor das moedas virtuais..Ao DN, um corretor de criptomoeda, que pediu anonimato, não hesitou ao revelar o desdém por esta nova moda. "Os NFT são uma merda! A maioria das pessoas que compra aquilo não faz ideia do que está a fazer. Sente que ganhou dinheiro de um momento para o outro em Bitcoin ou coisa assim e quer gastá-lo.".Para este rapaz de 28 anos que ganha a vida a comprar e vender as novas moedas eletrónicas, a desvalorização a que se tem assistido recentemente nestes mercados "deve-se precisamente à entrada destes players". "Mas é o que é", reconhece. "O mercado é isto mesmo, há de filtrar os que são capazes de ganhar.".Certo é que os NFT tendem a tornar-se cada vez mais mainstream, com mais artistas a utilizarem-nos para marcarem como "únicas" as suas criações digitais..A Samsung, por seu lado, criou uma loja própria para este tipo de artigos, na qual os donos dos mais recentes televisores da marca poderão escolher e comprar arte original para pôr em exposição no seu ecrã..E, com a expansão dos mundos virtuais do metaverso (do Facebook e não só), de certeza que surgirão cada vez mais criadores a conceberem e venderem objetos únicos para os utilizadores poderem personalizar os seus avatares. É que todos nós literalmente pagamos (e muito) pela nossa individualidade. É só darem-nos a oportunidade -- e haver carteira para isso.