Museu de Arte Antiga exibe cadernos de Vieira Portuense

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Cópias das figuras que Miguel Ângelo pintou na Capela Sistina. Imagens até então só conhecidas por quem tinha o privilégio de entrar no Mosteiro de S.Paulo, em Parma. Cenas da vida quotidiana captadas em traço rápido, como o burro a atirar o dono ao chão na estrada de Nápoles. Sempre a lápis, Vieira Portuense preencheu assim páginas e páginas dos seus cadernos de desenho entre 1789 e 1800. Agora, e coincidindo com a comemoração dos 200 anos da morte do pintor, o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) apresenta em Lisboa, até dia 31 de Dezembro, o resultado de quase três anos de investigação.

"Tudo começou por curiosidade. Estava a tratar dos álbuns por questões de inventário, e acabou por ser possível datar com precisão os percursos das viagens do pintor e o seu próprio percurso artistico", conta ao DN Paula Aparício, comisária de Vieira Portuense Cadernos de Desenho. "Tradicionalmente, estão-lhe atribuídos 22 álbuns, mas depois do estudo concluiu-se que, afinal, são 17, e há um que tem desenhos dele e de outra pessoa, mas desconheço quem e em que data os fez", acrescentou.

Comprados por Giuseppe Vialle - que identificou muitos como pertencendo "ao célebre pintor Francisco Vieira" -, adquiridos em 1859 pela Academia Real de Belas-Artes e incorporados no acervo do MNAA em 1906, os cadernos não só documentam o que viu o artista em países como a Itália, a Áustria e a Alemanha, como dão conta das obras que entregou depois à estampa em Inglaterra.

"É Vieira Portuense que vai dar a conhecer ao mundo Correggio, reproduzindo-o em gravuras", explica Paula Aparício, destacando a mestria com que o português, num só dia, copiou o tecto de uma câmara do mosteiro de clausura de Parma, decorado pelo pintor quinhentista italiano.

Em Roma, para onde foi estudar em 1790 com Domenico Corvi, Vieira Portuense (1765-1805) deteve-se sobre pinturas religiosas. Em Inglaterra, país protestante, dedicou-se aos retratos e temas clássicos como a mitologia ou metamorfoses (chegou, aliás, a expor Leda e o Cisne na Royal Academy). A gravura seria, então, encarada como forma de subsistência num mercado competitivo, já que, ao contrário de muitos dos seus contemporâneos que o faziam com bolsas, o pintor viajou a suas expensas. Nesse sentido, foi um artista "moderno" antes do tempo.

Com grande rigor nos detalhes ou realizados em traços largos, consoante o objectivo, os desenhos destes álbuns - que em 2000 estiveram patentes no Porto, no Museu Soares dos Reis - são exibidos cronologicamente, juntamente com a projecção de algumas das pinturas que os inspiraram.

Uma viagem que termina com o fólio de uma vista de Cascais, captada a partir do navio que trouxe Vieira Portuense de regresso a Lisboa. E que, como conclui a comissária da exposição, "permite ainda saber onde estavam originalmente algumas das pinturas [em Itália], já que depois da Revolução Francesa muitas não regressaram ao seus sítios de origem".

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