Na década de 1960, Dirk Erick Pitt serviu como piloto no decurso da guerra do Vietname. Filho do senador da Califórnia, George Pitt, o combatente viria, já em solo americano, a trabalhar como engenheiro naval na National Underwater and Marine Agency (NUMA). A organização sem fins lucrativos, responsável pela descoberta de locais de naufrágio, operava sob o comando do almirante James Sandecker. Na realidade, Pitt e todo o rol de figuras que rodeiam a sua existência nunca saíram do seu mundo de papel, embrenhadas nas páginas das ficções do escritor norte-americano, falecido em 2020, Clive Cussler. Dirk Pitt protagonizou nas ficções de Cussler entre 1983, ano de edição do livro Pacífico (Pacific Vortex) e 2021, The Devil´s Sea (escrito por Dirk Cussler, filho de Clive Cussler). Dos enredos ficcionados em alto-mar para a realidade, materializar-se-ia a agência privada criada por Clive Cussler. O ano de 1979 assistiu à fundação da NUMA, impulsionada pela paixão antiga de Cussler, a arqueologia marinha, da qual foi um empenhado amador. O escritor norte-americano, autor de mais de 80 obras entre ficção e não ficção, mais de 20 vezes best-seller do The New York Times, liderou em 1978 uma expedição subaquática com vista a devolver à superfície o espólio de um mítico veleiro de guerra do século XVIII, o USS Bonhomme Richard, afundado a 25 de setembro de 1779. Embora a expedição não tenha sido bem-sucedida, lançou as bases para a criação da NUMA e, com esta, a identificação de mais de 60 locais de naufrágio. Em 2001, Clive Cussler e a sua equipa anunciavam ao mundo a descoberta dos despojos de uma das embarcações que nos 130 anos anteriores se tornara sinónimo de navio fantasma. A 4 de dezembro de 1872, as águas ao largo do arquipélago dos Açores serviram de palco a uma descoberta desconcertante. Toda a tripulação do bergantim mercante Mary Celeste desaparecera sem deixar rasto. A história subsequente envolveria inúmeras especulações, logros, fraudes, falsas notícias e especulações. Finalmente, em 1885, o Mary Celeste afundou-se ao largo do Haiti sem que no século seguinte dele houvesse rasto, até 2001..Lançado ao mar em 1861 com o nome Amazon, sob registo britânico, o bergantim de dois mastros seria rebatizado como Mary Celeste em 1869, ano em que passou para mãos norte-americanas. Em novembro de 1872, a embarcação deixou o porto de Nova Iorque rumo à italiana Génova com uma carga de 1701 barris de álcool. Benjamin Briggs capitaneava uma tripulação de sete marinheiros a que se juntava a sua mulher Sarah Briggs e a filha de dois anos, Sophia Matilda. No início de dezembro, a tripulação do bergantim canadiano Dei Gratia, capitaneado por David Reed Morehouse, encontraria o Mary Celeste sem rumo, 400 milhas marítimas a leste dos Açores. A nave apresentava parte das velas içadas, boas condições de navegabilidade e a falta de um navio salva-vidas. O último registo no diário de bordo datava de dez dias antes. Nada a bordo indicava tumulto. Nenhuma das dez pessoas que viajava no Mary Celeste voltaria a ser vista. A descoberta desconcertante nas águas atlânticas arrastaria o veleiro para uma tempestade em terra que se prolongaria décadas..Arrastado para Gibraltar pelo Dei Gratia, o navio fantasma deu mote a uma comissão com vista a apurar as causas para o desaparecimento da tripulação. Frederick Solly Flood, ao serviço do almirantado britânico, encabeçou o inquérito que, findos três meses, apurou como inconclusivas as hipóteses apontadas para a tragédia a bordo do Mary Celeste. Hipóteses que incluíam motim, atos de pirataria e a suspeita de crime corporizada na figura de David Reed Morehouse e tripulação, ávidos por receberem a recompensa associada ao seguro do navio. Fechada a porta da razão plausível para a desgraça do Mary Celeste, abriram-se os portões da especulação, com o rol de causas a espraiar-se entre maremotos e trombas de água, até aos efeitos dos vapores do álcool sobre a tripulação, aos ataques de lulas gigantes, abduções alienígenas, à presença de icebergues e terramotos subaquáticos. Cedo, surgiram também pretensos sobreviventes da tragédia com os seus relatos veiculados na imprensa norte-americana e britânica. Ainda em junho de 1883, o Los Angeles Times reconstituía a história do Mary Celeste, narrativa pejada de detalhes inventados: "todas as velas foram içadas, o leme estava amarrado com força, nenhuma corda estava fora do seu lugar (...) O lume ainda ardia na cozinha. O jantar estava intocado e quase frio". No ano seguinte, um jovem escritor britânico, então com 25 anos, levava às páginas da The Cornhill Magazine, o conto Declaração de J. Hababuk Jephson (J. Habakuk Jephson"s Statement). Arthur Conan Doyle que se notabilizaria com a sua personagem Sherlock Holmes, entregou o comando do Marie Celeste, como erradamente batizou a embarcação, ao capitão J. W. Tibbs, numa viagem fatal entre Boston e Lisboa. Um motim a bordo reencaminharia o navio para a costa da África Ocidental..Em 1913, a inglesa The Strand Magazine publicou o relato de um autointitulado sobrevivente do Mary Celeste. Abel Fosdyk afirmava que toda a tripulação subira para uma plataforma exterior ao veleiro para assistir a uma prova de natação. Todos haviam sucumbido ao ataque de tubarões após a queda da plataforma. Também no campo do delírio narrativo se situa a história do escritor irlandês Lawrence J. Keating que, em 1920, afirmou o contacto com outro suposto sobrevivente à tragédia. John Pemberton afirmava que toda a tripulação se transformara numa turba de assassinos loucos. A 26 de julho de 1926, o jornal New York Herald Tribune, publicava a história, afirmando-a como verdadeira. Dois anos antes, o britânico Daily Express noticiava a história do capitão R.Lucy, cujo informante era o antigo contramestre do Mary Celeste. De acordo com o relator, Benjamin Briggs avistara ao largo dos Açores um navio a vapor abandonado, com uma preciosa carga de ouro e prata. Todos a bordo abandonaram o Mary Celeste num barco salva-vidas rumo a Espanha. A lista de narrativas surreais acolheu o contributo do paranormal. O British Journal of Astrology descreveria a história nefasta do Mary Celeste como uma "experiência mística", associando-a à Grande Pirâmide de Gizé e ao continente perdido da Atlântida..Em 2005, quatro anos após o anúncio da descoberta do Mary Celeste ao largo do Haiti, Scott St. George, especialista em dendrocronologia da Universidade do Minnesota, refutava o achado. Sustentado no método de datação da idade de uma árvore com base nos padrões dos anéis concêntricos do seu tronco, Scott St. George assegurou que a madeira que servira à construção da embarcação encontrada provinha de árvores abatidas no estado da Geórgia (a madeira do Mary Celeste provinha de uma floresta na Nova Escócia), pelo menos uma década após o naufrágio do veleiro. Os restos da embarcação que inspiraram filmes como o britânico The Mystery of the Mary Celeste (1935) e o americano The Ship That Died (1938) permanecem algures no Banc de Rochelois, na costa oeste do Haiti..dnot@dn.pt