Michel Temer sobrevive às ruas mas teme delações e a economia

Contestação visa Renan Calheiros, líder do Senado, ontem afastado. Seguem-se outras sete possíveis demissões de ministros
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"Fora Renan" e "Renan na cadeia" foram a banda sonora das manifestações de domingo em cerca de 40 cidades de 11 estados do Brasil, o que fez Michel Temer, poupado a palavras de ordem diretamente contra si, respirar aliviado. Em certa medida: Renan Calheiros, presidente do Senado entretanto afastado pelo Supremo Tribunal Federal ontem já noite em Portugal, é aliado político e correligionário no PMDB do presidente da República. Aliás, horas antes do afastamento, Calheiros recebeu o texto da reforma na segurança social das mãos do próprio Temer, que depende agora do amigo para fazer aprovar o projeto, nuclear para o executivo, no Senado.

"Os protestos de ontem foram cirurgicamente dirigidos contra o Congresso, personalizado no presidente do Senado Renan Calheiros, preservando a cara de Michel Temer. Só a cara. Cortar-lhe os braços (os direitos e os nem tanto) não é poupá-lo. É manietá-lo", escreveu o colunista de O Estado de S. Paulo José Roberto Toledo.

Além de ter de voltar a lidar com a fragilidade na opinião pública e nos tribunais de um aliado íntimo, depois do que se passou com o ex-presidente da Câmara dos Deputados e hoje preso na Lava-Jato Eduardo Cunha, Temer prepara-se ainda para um terramoto político sem precedentes, com a assinatura do acordo de delação premiada de 70 executivos da Odebrecht com o juiz Sergio Moro, coordenador da Lava-Jato. "Acabou a fase fácil da crise política brasileira. Tudo o que vimos até aqui, Dilma, o impeachment, Cunha e governo Temer foi prólogo", escreveu no Folha de São Paulo o politólogo Celso Rocha de Barros.

Estima-se que a maior delação de sempre no mundo - no número de delatores, de delatados e no total de valores envolvidos - atinja sete ministros de Temer. E que o próprio presidente seja citado quer por Marcelo Odebrecht, presidente da construtora detido desde Junho de 2015, quer por mais dois executivos que terão negociado doações de campanha por baixo da mesa diretamente com o hoje chefe-de-estado. Caso essas delações obriguem a demissões, o governo perderá 13 ministros (mais da metade do total) no seu primeiro ano incompleto de gestão. Sendo que os últimos dois, Marcelo Calero, da Cultura, e Geddel Vieira Lima, da Secretaria do Governo, caíram num caso que chamuscou o próprio presidente.

No campo económico, Henrique Meirelles (PSD), o ministro das finanças que lidera uma equipa chamada na imprensa de dream team, embora não esteja no alvo da Odebrecht ou da Lava-Jato, começa a sofrer desgaste. O PSDB, o maior aliado do PMDB no governo, recusou o convite de Temer para ocupar a pasta, de cariz político, deixada vaga pelo peemedebista Geddel, e visa um cargo na equipa económica.

O partido liderado por Aécio Neves, por um lado, traduz o descontentamento dos donos do PIB com a prestação do dream team, uma vez que a economia continua a encolher, e, por outro, tenta isolar o próprio Meirelles, considerado potencial candidato pelo PSD às presidenciais de 2018 caso a situação orçamental no país melhore. "É um devaneio irresponsável", disse fonte do Planalto citada pela imprensa, sobre a manobra do PSDB. "Meirelles tem o meu total apoio", afirmou, em nota oficial, o presidente Temer. O próprio titular das finanças considerou "normal esta ansiedade para resolver os problemas". "Já estive no governo antes [presidente do Banco Central da Era Lula], a discussão é natural, mas não esqueçamos que a economia do país estava numa unidade de cuidados intensivos quando começamos a atacar os problemas, em Maio".

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