Foi a luz que o levou a escolher o restaurante Ibo, no Cais do Sodré. Um poiso requintado e com boa comida de inspiração moçambicana ali mesmo à beira-rio. Adolfo Mesquita Nunes confessa que gosta muito de luz e que tende "a escolher restaurantes que tenham janelas amplas e em que a luz entre pelo restaurante dentro, ou que tenham possibilidade de estar fora mesmo em dias que não sejam de verão". Foi esse o caso. Numa hora de almoço que começou meio cinzenta, com uma brisa fria, mas em que a luz de Lisboa e do Tejo acabaria por aparecer, arriscámos a esplanada..O ex-secretário de Estado do Turismo chegou com um ligeiro atraso, veio a caminhar desde as Amoreiras e teve o cuidado de enviar mensagem dando conta da demora. "Calculei mal o tempo que me levaria a pé. Dez minutos!". Foi nessa troca de SMS que decidimos arriscar a esplanada do Ibo, uma aposta ganha apesar de o espaço acabar por ficar cheio a meio do almoço e de a conversa ter sido interrompida pelas partidas e chegadas dos catamarãs e pelo som de obras ali perto..Adolfo Mesquita Nunes conta que não alinha na moda dos almoços fugazes, da sandes ou salada trincadas à pressa, e garante que valoriza "as refeições todas, sobretudo o jantar, que associo mais a convivência e a distensão". Feito o pedido - duas sopas de camarão para começar -, pergunto se a escolha do Cais do Sodré tinha sido apenas por causa da luz, ou se era um pretexto para atacar uma das obras de Fernando Medina. Adolfo responde que não, que "nunca esteve em causa a necessidade de Lisboa se ir requalificando, circunstância para a qual o turismo, acho, tem contribuído de forma decisiva. Aquilo que se coloca mais em causa é a circunstância de todas as requalificações terem sido feitas na mesma altura e ao mesmo tempo, criando o caos na vida dos lisboetas durante um certo período de tempo. Por outro lado, ainda há que fazer uma avaliação sobre se para os residentes da zona a vida ficou mais facilitada ou não"..Daí ao turismo foi um pulo. O ex-secretário de Estado sorri quando lhe pergunto se pertence ao clube daqueles que consideram o crescimento exponencial do turismo o grande mal das nossas cidades. Sorri e afirma que "o turismo gera muitos desafios, e é uma discussão que devemos ter permanentemente. Ou seja, como é que a cidade ou o país se devem adaptar aos novos fluxos, e que equilíbrios é que temos de ir gerando em reação a esses fluxos". Quanto à pergunta propriamente dita, Adolfo Mesquita Nunes lamenta, mas diz que não alinha nessa discussão. "Não consigo entrar na conversa das pessoas que acham que essa gestão pode ser feita a régua e esquadro, que é possível dizer "queremos turistas q.b.". O que é isso de turistas q.b.? Como é que se impede as pessoas de chegar? Eu prefiro soluções que sejam efetivas e reais, que não ganhem tantos aplausos, mas que sejam reais, do que estar com visões miríficas do género "o que era bom era termos Lisboa requalificada mas com menos turistas".".Acabada a sopa de camarão, chega uma salada de caranguejo para o convidado do DN, e um caril de camarão para mim. Antes de começar a salada, Adolfo solta uma frase definitiva sobre essa polémica à volta do excesso de turismo. "Se compararmos a Lisboa com e sem turismo, vemos que a cidade está muito melhor." E aos que se têm queixado de uma Lisboa sem vida para lá do turismo, o dirigente centrista, provocador, lembra que "a desertificação começou muito antes de o turismo ter disparado. A saída da população de Lisboa começou há muitos anos. E, não me entendam mal, mas quando foi para a Amadora, para a margem sul ou para outras zonas-dormitório, essas pessoas estavam caladas. Agora que afeta a classe média-alta, que redescobriu o prazer de viver no centro, é que isso é um problema?! Não. Acho que, de facto, o problema da desertificação de Lisboa é muito anterior ao turismo e, portanto, as suas causas hão de ser também anteriores ao turismo, o que não quer dizer que o turismo não contribua para elas"..O debate tem estado centrado em questões laterais, diz Adolfo Mesquita Nunes, sugerindo outras questões. "Devemos ter os mesmos circuitos de higiene urbana que tínhamos antes de termos estes fluxos de turistas? Devemos ter a mesma circulação de trânsito e as mesmas regras de trânsito? Os autocarros de turismo podem continuar a ir todos para os mesmos sítios? Temos mecanismos de mobilidade para transportar os turistas de forma sustentável e menos invasiva? Estamos a trabalhar na forma de melhor espalhar os turistas pelas diversas atrações da cidade? É possível atuar no próprio dia, no próprio momento, canalizando turistas de um lado para o outro tendo em conta as enchentes? As novas tecnologias hoje permitem fazê-lo. Este é um debate que se pode fazer e com o qual a cidade teria muito a ganhar. E não cairíamos naquela ideia de que a cidade está condenada e que está muito pior agora.".Enquanto os catamarãs iam e vinham, com as gaivotas a pairar e a aproveitar o vento ali ao lado, à babuja do Tejo, começámos a falar de eleições autárquicas. O vice-presidente do CDS nota uma diferença em relação a eleições passadas. "É interessante que as autárquicas sejam, constantemente, as eleições mais problemáticas para o CDS, e que desta vez o CDS esteja a encará-las com uma determinação, com uma audácia, com uma ousadia e com uma ambição muito diferentes." Na opinião de Adolfo Mesquita Nunes, o sinal dado por Assunção Cristas - avançar com uma candidatura à Câmara de Lisboa - foi decisivo. "Quando a nossa presidente é candidata à maior câmara do país isso significa que estamos claramente empenhados. É um sinal evidente para o partido, mas é muito mais. A Assunção, de facto, quer ser presidente da Câmara de Lisboa. São funções para as quais ela está particularmente talhada.".Quanto à novela da possível coligação PSD/CDS em Lisboa, Adolfo Mesquita Nunes pouco diz. Assume que tudo o que disser pode ser mal entendido e limita-se a uma declaração politicamente correta. "Os dois partidos têm direito a ter estratégias próprias, calendários próprios, e nem sempre isso se compatibiliza. Acho que temos de olhar para isso com naturalidade, e acho que a Assunção tem procurado que o CDS não surja nestas eleições em Lisboa criando provocação ou perturbação no PSD. Respeitamos as opções do PSD, e qualquer outra declaração seria entendida como uma provocação, nomeadamente a resposta a essa pergunta.".Adolfo também vai alinhar no esforço do CDS nas autárquicas. É candidato na terra dele, a Covilhã. "Que um vice-presidente do partido, com a sua vida estabelecida em Lisboa, dê a cara por uma cidade do interior que nem sequer é capital de distrito, isso significa que o CDS valoriza o interior e que não considera uma despromoção, pelo contrário, ser candidato no interior." O candidato autárquico vê dois desafios neste passo - tentar "melhorar a cidade onde viveu" e "fazer aquilo que qualquer político deve fazer pelo menos uma vez na vida, que é ir a votos. Neste caso num sítio particularmente difícil para o CDS, mas isso só aumenta o interesse e o entusiasmo". O advogado, em Lisboa há demasiado tempo para passar por beirão, assegura que conhece bem os problemas do interior, e que "como secretário de Estado do Turismo procurei que cada vez mais país pudesse ser conhecido, e não apenas os grandes centros. Acho que não tenho de me adaptar. Conheço esses problemas. Vivi lá, estudei lá, grande parte da minha família vive lá, e encaro com muita naturalidade ir para a Covilhã"..Adolfo Mesquita Nunes teve dois períodos distintos de vida política ativa. Entre 2002 e 2005 foi assessor de Pedro Feist na Câmara de Lisboa, adjunto de Teresa Caeiro na secretaria de Estado da Segurança Social e chefe de gabinete de Luís Nobre Guedes no Ministério do Ambiente. Depois, foi eleito deputado pelo círculo de Lisboa em 2011, e secretário de Estado do Turismo entre 2013 e 2015. Pelo meio foi advogado, e é essa a atividade a que escolheu chamar profissão. Aliás, nas eleições de 2015 não aceitou entrar nas listas e afastou-se do Parlamento. "Sempre me defini como advogado. Essa é a minha profissão. Senti sempre que não queria fazer da política a minha profissão." O antigo deputado avisa, ainda assim, que "isto não é um juízo de valor, não é uma crítica a quem lá está, não tenho nada contra", e explica que sentiu que "não queria estar oito anos desligado da minha atividade profissional, de perder a mão dessa atividade, de deixar de ter a minha independência, que foi sempre feita à margem da política". Tem saudades da bancada do Parlamento?, pergunto. Diz que não terá chegado para sentir saudade, mas afirma que "só provei o lado bom da política, mas sei que o lado mau existe". O mais difícil é assistir ao jogo de fora. "Às vezes há vontade de, como qualquer treinador de bancada, dizer "se fosse eu estava a dizer ou a fazer uma coisa diferente""..Já com a salada e o caril fora de cena, falamos da qualidade dos políticos. Da atratividade da política. "A política é hoje, cada vez menos, uma função atrativa para as pessoas, por responsabilidades várias, incluindo dos políticos. É hoje cada vez mais difícil atrair pessoas para a política, e não estou a falar de vencimentos sequer. E é claro que isso depois reflete-se na qualidade do debate", diz Adolfo Mesquita Nunes. O antigo deputado considera que a questão dos vencimentos dos políticos é um pormenor e dá uma explicação pouco vulgar para um político. "De todas as causas que contribuem para a falta de sedução e para uma certa degradação da imagem da política, penso que o menos grave é a questão dos vencimentos. Porque, não podemos ser ingénuos, a política traz compensações pessoais que compensam um vencimento que pode não ser o mais atrativo. Por ter estado na política conheci pessoas que não conheceria de outra maneira.".Chegam um café e um descafeinado à mesa, e está na hora de falar de atualidade, de como Adolfo Mesquita Nunes vê o país político. O retrato é feito em tons cinza-escuro. "Estamos a crescer menos, temos uma dívida maior, estamos a pagar mais juros, estamos a afastar-nos mais da média europeia. Esta é a realidade, para lá da narrativa mediática." O dirigente centrista não hesita em falar de um governo conformista. "O que mais me preocupa em Portugal, com esta solução governativa, não é nem a sua origem, nem o processo de formação que os levou ao poder, nem sequer é a sua orientação ideológica. O que me preocupa é que Portugal vive num mundo cada vez mais competitivo, e tem o governo menos reformista de sempre." Adolfo Mesquita Nunes olha para o Partido Socialista e vê uma quebra de tradição. "O PS tem duas posturas, historicamente. Uma força de bloqueio na oposição, e um partido reformista quando está no poder. Isso quebrou-se com o atual governo. Temos o governo mais imobilista de sempre, um governo que não só reverte como não reforma nada. Ora, num mundo em que estamos cada vez menos competitivos, em que nos afastamos da média europeia e em que o grau de incerteza é cada vez maior, preocupa-me que tenhamos um governo tão pouco reformista.".Mais do que a tradicional divisão esquerda/direita, Adolfo Mesquita Nunes propõe uma outra linha divisória, entre reformistas e conservadores. E o CDS? "Aquilo que o CDS deve ser é o partido do reformismo sensato. Que as pessoas olhem para o CDS como aquele partido que traz as reformas necessárias, mas como uma calendarização e com um método de execução sensato, que permita que a sociedade se adapte a essas reformas." O antigo deputado garante que o partido dele "tem procurado matérias de consenso e apresentado propostas sensatas que só são chumbadas por pirraça ideológica". E há um exemplo, diz Adolfo Mesquita Nunes. "O CDS propôs que qualquer pessoa pudesse conhecer qual o montante expectável que vai receber de pensão, e essa proposta foi chumbada. Isto nem sequer era uma reforma da Segurança Social, era um princípio de reforma, já que permitia que as pessoas conhecessem a dimensão do problema da Segurança Social, se é que há, e depois poder fazer pressão sobre os dirigentes políticos para uma reforma.".Estes são tempos difíceis para os políticos. O dirigente do CDS afirma que "o nível de exposição mediática a que se sujeita e a perceção que hoje se tem dos políticos aconselham alguém que quer fazer política a ser independente, a não estar nos partidos, a aparecer como alguém que está fora do sistema, ou então a não participar". Adolfo considera que "um político expõe-se a um nível de comentário e de sindicância que nem sempre é uma sindicância substancial sobre a sua atividade, sobre aquilo que fez de certo ou de errado, aquilo fez de honesto ou de desonesto, mas à trica política, ao momento político. Uma frase mal dita, um lapso, transformam a pessoa num caso". O ideal, diz, seria essa sindicância, o fact-check, ser feito pela imprensa e não pela oposição. Mas, sublinha, "o fact check não pode ficar nas páginas dos jornais, deve ter consequências. Os ministros, os líderes da oposição, ou os dirigentes partidários que mentirem, ou que disserem coisas enganadoras, porque na vida política isso existe em todo o lado, devem ser confrontados com isso até explicarem o que é que disseram. Mas, atualmente, não há quaisquer consequências disso"..A propósito de factos, pergunto se não o preocupa ver como têm corrido as primeiras semanas de Trump na Casa Branca. Adolfo Mesquita Nunes diz que está preocupado com "a possibilidade de um político utilizar os preconceitos de uma sociedade, aproveitar as falhas de sindicância institucional, jornalística e política, para criar uma realidade autossuficiente, na qual ele e os seus eleitores são autossuficientes para se perpetuarem. Isso preocupa-me". E depois a pergunta: "Como é que nós podemos combater esta possibilidade? Porque esta possibilidade existe não só nos Estados Unidos, mas está a impor-se um pouco por todo o lado. No caso de Trump pode fazer-nos mais confusão porque é alguém que tem ideias abjetas, e portanto temos mais tendência para identificar o que ele diz como sendo algo de execrável, mas pode ser utilizado por políticos que nós admiramos e gostamos, e que estão apenas a tentar ser reeleitos, a manter--se no poder"..Adolfo Mesquita Nunes tem uma análise diferente do fenómeno Trump. "O que nós estamos a fazer é a criar eleitores menos exigentes. A retirar instrumentos à população para poderem perceber a realidade. O caso Trump não é, infelizmente, caso único. Ele utiliza mecanismos que estão à disposição de qualquer político europeu. Ele não só não foi buscar mais eleitores, como perde votos em relação à Hillary, em relação ao McCain e em relação ao Romney. Ou seja, ele não é eleito porque, de repente, a América enlouqueceu ou ensandeceu, não, ele é eleito utilizando esse caldo de preconceito, que existe em todas as sociedades, e nós também temos os nossos aqui em Portugal. Como é que se explica que eleitores que votaram Obama tenham votado no Trump? Não é com certeza porque estão doidos. Há aqui coisas que temos de explicar.".No meio de todo este turbilhão, há um caso mais próximo e mais preocupante. "Se a Marine Le Pen ganhar as eleições e se ela conseguir ter uma maioria para a França sair do euro, para lá dos votos, o euro não vai resistir a uma saída da França, nem a Europa vai resistir." Será o fim da Europa como a conhecemos..Regressamos a Trump com uma pergunta. Devemos lutar com as mesmas armas? Com populismo e realidades distorcidas? Adolfo acredita que não, que há aqui uma oportunidade para o regresso das grandes lideranças políticas. "Precisamos de políticos que defendam o nosso modelo de sociedade de forma positiva e não de forma negativa. Aquela fórmula, de dizer simplesmente "não votem no Trump porque já sabem o que aquilo é; ou, não votem no brexit porque já perceberam o que aí vem", já se percebeu os resultados que dá. Ou encontramos líderes para os nossos programas políticos, que o façam pela positiva, com uma narrativa e com um caminho - Obama fê-lo - ou estamos sempre em perda em relação aos populistas. Acho que, sinceramente, voltou o tempo dos políticos.".Ibo.› 2 sopas de camarão.› Salada de caranguejo.› Caril de camarão.› 2 cervejas.› Água das Pedras.› Café.› Descafeinado.Total: 70 euros