Lima Duarte: Adoro a solidão. Não sei viver de outra maneira.

Numa entrevista exclusiva à <strong>NTV</strong>, o consagrado ator brasileiro elogia a ficção nacional, não descarta a hipótese de entrar numa novela portuguesa e fala da amizade com Manoel de Oliveira. Recorda o avô português e analfabeto a quem lia as notícias, a mãe que era artista de circo e o pai que vestia paletó para ouvir rádio. E finaliza: "Sou um homem delirante."
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Viajou até ao nosso país no âmbito de um intercâmbio cultural entre o Brasil e Portugal. As novelas brasileiras, nomeadamente Avenida Brasil e Gabriela, voltaram a ter sucesso aqui...

[interrompe] Houve uma altura em que não tiveram? Ih diacho, temos de abatê-los [risos].

Acha que o sucesso de Gabriela se deve ao facto de ser um remake e de ter marcado uma geração?

Acho que não são exatamente remakes. Esta Gabriela é uma adaptação do Walcyr Carrasco, ele arranjou muitas histórias paralelas. A primeira Gabriela foi uma adaptação de Walter Jorge Durst, um homem que cunhou a teledramaturgia no Brasil. Ele era mais fiel do espírito do Jorge Amado e fez a Gabriela Cravo e Canela. Esta é a Gabriela [faz o sinal de mais ou menos com as mãos] Cravo e Canela do Walcyr Carrasco. E inclusivamente ele suprimiu personagens que eram adoráveis na primeira versão. Aqui em Portugal houve uma personagem que fez muito sucesso que era um jornalista, o Ezequiel. Na Gabriela de agora não há intelectuais.

Considera que a história ficou mais pobre por isso?

É só coronel, coronel, coronel, velha, velha, velha e a Gabriela. Mas na anterior havia o intelectual e ele andava sempre com o jornal debaixo do braço. Eu contava o sucesso das pessoas pelos convites que recebiam para o Carnaval da Mealhada. E o Jaime Barcelos veio para o Carnaval da Mealhada. Eu na altura estava aqui em Portugal e ele perguntou-me onde era a Mealhada e eu expliquei que era ao pé da Bairrada. "Mas vou desfilar em carro aberto?", perguntou ele. E eu disse: "Sim, lá em cima. Vê se não bebe nesse dia, senão cai." Mas voltando à pergunta, na minha opinião faltou isso, os coronéis enfrentavam não só os que atentavam contra a moral como também os intelectuais, os que levavam a bandeira da modernidade, enfrentavam o arcaico.

Mas gosta desta nova versão?

Eu preferia a outra. Mas como realização acho que esta é melhor porque a Globo progrediu, se bem que tem aquele Bataclan que mais parece um Moulin Rouge. A outra tinha uma adorável atriz que fazia de Maria Machadão, esse papel agora é da Ivete Sangalo. [suspira] Ah, mas a outra era muito profunda, muito bem interpretada.

E relativamente aos protagonistas de Gabriela?

Tenho uma história ótima. Eu passei uma temporada aqui em Portugal com o Armando Bogus, que fez de Seu Nacib na primeira versão. Nós fazíamos uma peça de teatro lá no Brasil, mas aqui ninguém nos conhecia. A Gabriela foi a primeira novela aqui em Portugal e na Europa. Foi uma delícia, porque eu andava atrás dele e achavam que eu era um empregado que arrumava as malas dele.

E gostava dessa sensação de anonimato?

Divertia-me imenso. O Nacib do Armando Bogus tinha o cabelo enroladinho, que fazia muito sucesso, mas no fim da novela ele cortou. E houve um dia em que nós fomos até ao Porto de comboio, atravessámos a ponte e, quando chegámos na estação, passaram duas portuguesas típicas do Norte, de preto, e uma disse: "Olha, é Seu Nacib, é o Seu Nacib." Ao que a outra respondeu: "Oh, sem os caracolinhos é uma bela merda" [gargalhada]. Depois passou o Bem Amado, em que eu fazia de Zeca Diabo, e eu deixei de estar no anonimato. Depois veio o Sinhozinho Malta de Roque Santeiro e a partir daí adeus anonimato. Vim a Portugal com a Regina Duarte, que fazia de Porcina, para o aniversário do Diário de Notícias. Fomos convidados e desfilámos num carro aberto. Foi muito bom.

E já que falou de Seu Nacib, o que acha desta Gabriela de Juliana Paes relativamente à primeira de Sónia Braga?

[hesita] Pergunta difícil. Acho que não interessa muito a atriz, interessa a personagem. Porque a personagem é uma coisa maravilhosa. A que tinha na primeira versão era tão sensual, mas tão sensual... E ela nem se apercebia. Ela vai andando e as estruturas arcaicas vão caindo aos pés de tamanha sensualidade. E a personagem não é só carne e coxas... é espírito. E a Gabriela tem isso. As duas são boas atrizes, são bonitas.

As novelas portuguesas melhoraram muito do ponto de vista formal

Em Portugal está a ser exibido o remake de Dancin' Days, na SIC. Roque Santeiro chegou a ser uma possibilidade...

Será que tinha estrutura para isso? Tem de ter muito boi e carne porque a filha dele é a rainha do filet mignon. Uma vez eu vim aqui para falar sobre o Bem Amado e algumas pessoas não sabiam o que era um boiadeiro porque é uma realidade muito brasileira. A não ser que pusessem um campino do Ribatejo, pode ser. Será que vão fazer com elenco português?

Mas gostava que a ideia fosse para a frente?

Se fizerem, vou querer ver. Quando a Regina Duarte vier a Portugal, ela orienta isso.

Sendo uma pessoa com mais de 60 anos de carreira, como vê as novas novelas da Globo? Acha que têm conseguido reinventar-se?

Acho que a novela fotografa o seu tempo, processa e devolve um pouco. Ela surpreende o mundo, processa o mundo e devolve ao mundo. Quando vamos para casa e vemos uma novela, vemos um retrato de nós mesmos. O João Manuel Carneiro [Avenida Brasil] é um grande autor. Fiz uma novela dele muito bonita que foi o Pecado Capital. Ele sabe reinterpretar com poesia o quotidiano. Têm força, são modernas e muito poéticas. As novelas renovam-se todos os dias conforme o povo.

Na altura de Roque Santeiro, as novelas brasileiras faziam audiências brutais que chegavam aos 70%, algo que hoje é impensável.

No último episódio chegava mesmo aos 90%. Agora existem outros meios de comunicação, há muitos canais, a internet. Mas a Globo ainda mantém uma liderança absoluta. Avenida Brasil nos últimos episódios teve um grande rating, mas 70% já não existe, não é possível. Roque Santeiro teve 90% no último episódio, o que significa a quase totalidade dos aparelhos.

O que mudou entretanto?

Hoje o ser humano é outro, o mundo é outro, e a TV já não é tão novidade, tão encantadora. A telenovela já não é tanto o retrato do brasileiro, tão envolvente. E na verdade é difícil ser envolvente com um ser humano tão disperso e com tantos interesses.

Acompanha a ficção que é feita em Portugal?

De vez em quando vejo a SIC, porque passa lá no Brasil. De vez em quando dou uma olhada nas novelas. Estão bem modernos. Do ponto de vista formal melhorou muito, há atores excecionais, sem dúvida alguma. O enfoque, o enquadramento, a maquilhagem, era um pouco antigo, mas melhorou imenso. O enredo é que não sei. No ano passado ganharam um Emmy com uma novela em que participei [Araguaia]. As novelas portuguesas têm feito sucesso? Têm boas audiências?

Sim. Dancin' Days, por exemplo, é um dos programas mais vistos da TV portuguesa.

Ah, que bom. Fico feliz.

"Sou ator de uma personagem só, que é o brasileiro. Sou igual ao Chaplin"

Ricardo Pereira e Paulo Rocha, atores portugueses, estão a trabalhar no Brasil na TV Globo. Vê com bons olhos este intercâmbio entre os dois países?

Sem dúvida. Eles fazem muito sucesso lá, pelo que eu percebi.

Não existe o sentimento de que os portugueses podem estar a tirar o lugar de atores brasileiros, por assim dizer?

Acho que isso é uma coisa que acontece mais aqui, em Portugal, onde o mercado é mais pequeno. No Brasil tem muitas televisões, muitos milhões de habitantes... é possível que haja eventualmente um caso ou outro, mas não é um sentimento que perpasse os atores brasileiros. Pelo menos nunca ouvi tal coisa dos meus colegas nem senti isso. Mas também reconheço que já tenho 42 anos de casa e já não estou a competir com ninguém. Acho que não há ressentimento. Aqui tem, aqui é difícil porque é um mercado restrito.

É muito elogiado por caraterizar bem o homem brasileiro. Isso deve-se ao facto de ser um apaixonado pelo seu país, por não renegar as suas raízes?

Costumo dizer que sou ator de uma personagem só, que é o brasileiro. E tendo uma personagem apenas, sou igual ao Chaplin [risos]. E depois há aquelas personagens que me marcaram muito como o Sinhozinho Malta, Sassá Mutema... mas são todos brasileiros. Acho curioso, maravilhoso, adoro ler autores que escrevem sobre o brasileiro.

Costumam dizer-lhe isso na rua? Que se identificam consigo?

As pessoas costumavam dizer-me: "Ah, o senhor lembra-me o meu pai". Mas agora é mais: "Ah, o senhor lembra-me o meu avô" [risos]. Já pareci marido também. Pareço um brasileiro sempre.

Aqui em Portugal, alguns atores quando chegam aos 60/70 anos queixam-se de que são esquecidos e que existem poucos papéis para eles. No Brasil isso também acontece?

Não há muitos papéis para pessoas de idade. Acho que não é uma coisa do Brasil, o preconceito contra a idade é muito grande. É o maior de todos. Maior do que ser judeu, negro, homossexual, mulher... tudo. A palavra velho significa doença, incapacidade. Não existem grandes personagens para velhos. O Brasil é relativamente jovem, nós não somos mercado. Então o mercado espera que eu me afaste e que eu morra para não encher. As avenidas não são para velhos, os carros também não.

E sente-se magoado com isso?

Eu entendo e procuro apegar-me à minha gente, ao meu povo. Mas esse preconceito é uma coisa muito dolorosa e existe mesmo. No Brasil, velho é sinónimo de prejuízo, hospitais, assistência, e o velho não está na produção, só gasta. Então o ideal era que matassem um monte de uma vez só, uns 70. Mas não é possível fazer isso, então eles vão fingindo que não veem. E isso chega ao meu negócio, à televisão. Não há grandes personagens, é muito difícil porque a memória não é a mesma, não há o mesmo vigor.

Já se zangou com a televisão?

Zango-me com a televisão todos os dias, todos os minutos. Mas dou a volta, caio e levanto e caio. Tudo bem, vou procurando ajeitar-me. A Globo é muito camarada comigo, tem uma espécie de ternura comigo, felizmente. E a empresa era de um velho que morreu com quase 100 anos, Roberto Marinho, que deixou este legado fantástico.

Gostava de fazer uma participação numa novela em Portugal?

Eu fiz quatro filmes em Portugal. Dois com o Manoel de Oliveira, um com o Zé Fonseca e Costa e um do Paulo Rocha. Gostaria de fazer uma telenovela? Sim, mas por pouco tempo. Não posso ficar muito tempo longe da minha terra, tenho muitos compromissos e muitos netos, não gosto de estar longe deles. Mas seria gostoso, seria bom. Podiam convidar o Manoel de Oliveira para dirigir a novela [risos] e aí eu viria. Ou então o Zé Fonseca.

É um grande amigo do realizador Manoel de Oliveira, a quem chama carinhosamente brazuca...

[interrompe] Ah, esse sim, é velho [risos].

Vê-se a seguir o exemplo dele e a trabalhar até aos 104 anos?

Ele é um grande artista. Grande artista. Tem uma cabeça maravilhosa, nunca fica parado. Ser como ele é difícil, mas era bom. Acho que é o amor ao trabalho que o mantém vivo. Ele disse-me coisas lindas e teve grandes pegas com o John Malkovitch [risos]. O Manoel disse-me: "Quando o John Malkovitch entra em estúdio toda a gente fica parada. Contigo não param, só param quando começas a atuar." É muito bonito, não é?

Dormiu três noites debaixo de um camião de mangas e morou num bordel

O fim da Segunda Guerra Mundial coincidiu com a sua certeza de que queria ser ator para o resto da vida...

E foi o momento em que eu também percebi que a minha mãe era uma estrela. Ela era atriz de circo, na altura eu tinha 11 anos e acompanhava a minha mãe. Quando ela estava a atuar o público começou a dispersar e ela ficou apavorada. Ela disse-me: "Menino, vai ver o que aconteceu! Eu fui a correr e percebi que tinha acabado a guerra, que foi terrível para todos nós. Quando ela soube o que tinha acontecido improvisou e disse: [começa a declamar] "Ouviram do Ipiranga as margens plácidas". O povo começou a cantar, e ela construiu um momento de teatro raro, eu fiquei siderado. A guerra não acabou, foi ela que acabou com a guerra [sorriso]. Então percebi que eu queria ver se recuperava aquele momento sempre que atuasse. Tem sido difícil.

O seu avô, que era português, também teve um papel importante na escolha da sua profissão...

[faz sotaque de Portugal] Não só era português como era de Trás-os-Montes, era analfabeto e chamava-se Joaquim. Tinha muito naquela altura. Os imigrantes sofreram muito e quase substituíram os escravos. Ele também me ensinou a ser ator à sua maneira, sim.

De que maneira?

Porque ele comprava um jornalzinho, levava--me para trás de uns arbustos e dizia: "Você aí, veja como é que está a guerra lá na Europa." Ele não queria saber se Portugal tinha acabado, afundando, queria saber como tinha sido a guerra. Os grandes heróis naquele tempo eram os generais e o dele era um inglês chamado Montgomery. E uma vez li: "Montgomery bate em retirada com os seus homens." Ao que ele disse: "O que é isso, menino? Montgomery não se retira." Então eu comecei a mudar a guerra e fiz uma guerra para nós dois e na minha versão Montgomery já estava em Washington [ar pensativo]. Mas ele percebeu e estimulou a minha imaginação. Foi lindo, não foi?

E quando era jovem fez uma viagem num camião de mangas. O que aconteceu?

O meu pai expulsou-me de casa, eu tinha 14 anos e tinha acabado a guerra. Ele disse: "Vai embora, vai embora, vai para São Paulo." Sempre fui delirante e pensei que tinha de ir embora, senão ficava louco. Ali era só roça e mato. Dito e feito, pus-me em cima de um camião de um amigo meu carregado de mangas que ia para São Paulo, eram dois dias de viagem.

E o que aconteceu? Conseguiu desenrascar-se por lá?

Cheguei ao mercado de São Paulo e pensei: "Preciso de comer." Então perguntei a um rapaz que lá estava: "Posso ajudar a descarregar?" E assim ganhei algum dinheiro para a janta. Fiz isso várias vezes e dormi debaixo do camião umas três noites. Na terceira noite chamaram para ir à zona das mulheres e eu falei: "Iihh, mulher? Mas mulher, mesmo?" Eu fui e amiguei-me com a dona da casa [risos] que era uma judia francesa e fiquei a morar lá. E foi ela que me levou para a rádio porque dizia que eu era muito louco e tinha uma grande necessidade de expressão. E a rádio para mim tinha um grande significado...

Por algum motivo em especial?

O meu pai teve o primeiro rádio de Desemboque [localidade situada em Minas Gerais]. E ele na altura já sabia que quem detém informação detém o poder. Então ele punha o rádio bem baixinho, para ninguém ouvir. A casa era muito pobre, tinha as janelas baixas, e as pessoas juntavam-se todas para ver o meu pai a ouvir rádio [risos]. O meu pai chegava mesmo a vestir paletó para ouvir rádio, tal era a importância do acontecimento.

De aprendiz de rádio com voz de sovaco a estrela de televisão

E quando chega à Rádio Tupi como é que as coisas correm? O que acharam da sua voz?

Disseram que a minha voz saía do sovaco [gargalhada], para eu ir embora. Mas quando eu ia a sair o operador perguntou: "Você não quer trabalhar aqui?" E eu falei: "Quero. Eu moro na zona com as meretrizes". Então eu comecei como operador de som, ligava os microfones e tal. Até que um dramaturgo resolveu dar-me um papel, isto em 1948, antes de chegar à televisão.

O seu nome verdadeiro é Ariclenes Venâncio Martins. Como surge o Lima Duarte?

Bom, a minha mãe era atriz, o que naquela altura era sinónimo de prostituta. Além disso era epilética e espírita. Ela era triplamente uma vagabunda [risos], coitadinha. E ela venceu tudo isso e impôs-se. Mas quando eu estava na rádio e disse o meu nome verdadeiro eles não gostaram porque era muito comprido e pediram para arranjar outro. E como na altura estava na moda usar dois nomes próprios eu sugeri chamar-me Luís Alberto.

Hoje poderia ser o consagrado ator Luís Alberto. Mas não foi o que aconteceu...

Pois, porque o meu chefe não gostou, disse que era nome de veado [homossexual] e mandou-me arranjar outro mais forte. Então liguei à minha mãe, disse-lhe que estava a trabalhar na rádio e ela ficou muito contente. Ela não percebeu por que motivo não gostavam do meu nome, ela achava que era lindo. Eu disse: "Põe o nome do meu guia de luz e vais ser muito feliz. Ele chama-se Lima Duarte". [silêncio] Eu acredito em milagres...

Entretanto, dá-se a sua estreia em televisão. O que recorda desse momento?

No dia 18 de setembro de 1950 foi para o ar a primeira transmissão de televisão da América Latina na TV Tupi de São Paulo e foi uma agitação enorme. No estúdio estavam 28 pessoas e agora só eu é que estou vivo. Dá que pensar...

"Adoro a solidão, gosto de andar no mato e beber um copo de cachaça"

E no futebol perde-se de amores pelo São Paulo?

Eu sou São Paulo até no cuspo. Se eu cuspir agora vai sair tricolor [risos].

E em Portugal tem algum clube?

FC Porto. Sou sócio honorário. Quando o FC Porto ganhou a Taça Intercontinental eu estava aqui. E sabe o que é que eu trouxe para os jogadores? Uma caixa cheia de mangas.

Por algum motivo em especial?

Um amigo meu sabia que eu vinha a Portugal e deu-me uma caixa de mangas lindas para eu dar aos jogadores e eu pensei: "Mangas? Mas porquê mangas?" E o meu amigo disse: "Você não tem ideia como eles vão valorizar isso." Então eu trouxe e os jogadores ficaram loucos e levaram-me para conhecer a sala onde estão os troféus e o presidente.

Então conhece Pinto da Costa?

O quê, ainda é o mesmo? Então é um ditador [risos]. É muito simpático.

E o que achava de Portugal nessa altura?

Eu estava aqui no 25 de Abril. Tinha uns amigos comunistas e um dizia uma coisa maravilhosa: "Dizem que os comunistas comem crianças ao pequeno-almoço, mas os capitalistas comem o pequeno almoço das crianças." O sentimento de liberdade era muito bonito, mas Portugal era muito sujo, Lisboa era feia. Mas agora está belíssima, crise à parte, não é? Andei a passear por aí e gostei muito de ver a gente, a cara das pessoas.

Vive sozinho. Gosta da solidão?

Adoro, não sei viver de outra maneira. Adoro a solidão, gosto de caminhar pelo mato, beber o meu copo de cachaça. Há quem pense que sou uma pessoa ruim [má] porque não quero viver com ninguém. Tenho cavalos, cães e tenho netos na Austrália.

É um homem saudosista? Gosta de recordar momentos da sua vida?

Não sou saudosista, vivo no passado. Sou um homem do passado, por isso nem sei o que é isso de saudade. Quem viveu os eventos que eu vivi não pode interessar-se por mais nada. Eu vivo da minha mãe a declamar quando acabou a guerra, do meu pai a ouvir rádio, do meu avô a esbofetear-me por causa de Montgomery.

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