Ler agora as notícias que o lápis azul cortou

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Olápis azul foi inclemente com as prosas dos jornalistas de O Primeiro de Janeiro que, em Maio de 1969, na cidade de Aveiro, fizeram a cobertura do 2.º Congresso Republicano. Nenhuma notícia, das várias que preenchiam uma página em grande formato, saiu no dia seguinte. Nada escapou ao escrupuloso censor: nem a "brilhante alocução sobre a liberdade", de Urbano Tavares Rodrigues, nem a notícia que referia a intervenção de Luiz Francisco Rebelo sobre a "situação do Teatro em Portugal", a breve que informa da presença de Paulo Quintela e Miguel Torga no congresso teve o mesmo fim.

A página censurada do matutino portuense integra a exposição "O Lápis Azul da Censura", organizada pelo Museu da Imprensa, que abre hoje ao público no Auditório Municipal de Vila do Conde. Trinta e dois anos depois da liberdade de imprensa e as outras liberdades serem restituídas aos portugueses. O Primeiro de Janeiro, como é evidente, não foi o único a ser visado pela censura. O lápis azul, como está expresso nesta mostra, deixou marcas no Diário de Lisboa, O Século, República ou Comércio de Gaia.

A censura não estava apenas atenta à palavra dos oposicionistas do Estado Novo. Em 1968, o Jornal do Fundão, a partir de um estudo científico, alertava para os perigos do "bócio endémico" em vários concelhos de Castelo Branco. O assunto ocupou as páginas centrais do jornal, que, no entanto, nunca chegaram a ser lidas, porque foram integralmente censuradas.

O lápis azul proibiu a palavra subversiva dos jornais e, também, a dos livros. Muitos obras não passaram no exame prévio. Mesmo assim, alguns livros, por gesto clandestino, circularam na penumbra. Para que a memória não seja esquecida, a exposição organizada pelo Museu da Imprensa integra algumas dessas obras malditas. E voltamos então a encontrar o censurado Urbano Tavares Rodrigues e um dos seus romances mais lidos: Bastardos do Sol.

Entre os autores censurados, além dos óbvios Karl Marx e Engels, estão em exposição livros de Manuel Alegre (uma primeira edição de OCanto e as Armas, edição da Centelha), Maria Teresa Horta, Luís de Sttau Monteiro, Orlando Costa, José Manuel Mendes, César Oliveira, Luandino Vieira, Fernando Namora e Papiniano Carlos.

Cartaz maldito

Esta memória dos tempos da lápis azul, entre outros objectos, recupera o cartaz do espectáculo de A Casa de Bernarda Alba, de Federico García Lorca, que o Teatro Experimental do Porto levou à cena em 1972. No cartaz, da autoria de José Rodrigues, aparece uma mulher nua que esconde o sexo com um coração que tem uma coroa de espinhos. A simbologia religiosa escapou, numa primeira fase, ao olhar dos homens da censura. No entanto, um grupo de católicos portuenses saiu à rua em manifestação de desagravo, o governador civil também ficou chocado com o cartaz e depressa a polícia política entrou em acção.

A peça de Federico García Lorca, graças a toda esta agitação provocada pela censura do cartaz (quase todos os exemplares foram apreendidos e destruídos), teve um enorme sucesso. Durante várias semanas a sala do Teatro Experimental do Porto esteve sempre lotada, com alguns pides entre os espectadores.

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