José Sócrates na estrada. Livro leva-o a Bragança, convidado por líder local

Dois anos depois da sua detenção, exposição mediática de ex-primeiro-ministro do PS começa a incomodar
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Depois de Faro, José Sócrates desloca-se no próximo fim de semana a Bragança, com o seu segundo livro debaixo do braço como pretexto. Dois anos depois da sua detenção no âmbito da Operação Marquês, o antigo primeiro-ministro, entretanto libertado, não abranda no seu roadshow de apresentação da obra O Dom Profano. Considerações Sobre o Carisma, que vai também fazendo crescer o incómodo de socialistas, que poucos assumem ainda publicamente.

O convite para o encontro de sábado foi feito pelo líder da concelhia do PS de Bragança, Luís Silvestre, a que se juntou, de acordo com o semanário Jornal do Nordeste, um grupo de amigos que pretende que a vinda de Sócrates à região seja "encarada com normalidade".

É esta atitude de dirigentes socialistas que merece fortes reparos da eurodeputada Ana Gomes, das poucas que no PS assume uma posição crítica sobre Sócrates e o papel do PS perante o seu antigo secretário-geral.

Para Ana Gomes, salva-se o atual líder do PS, mas que não é seguido por muitos socialistas. "António Costa demarcou-se de Sócrates. Aliás, na primeira vez que o foi ver a Évora, disse que aquela era a visão de Sócrates, mas a verdade é que muitos militantes do PS não percebem, sobretudo quando há atitudes contraditórias de dirigentes do PS, ao nível das federações, que o convidam, e do meu ponto de vista isso é extremamente negativo para o próprio PS", criticou ontem a deputada ao Parlamento Europeu em declarações ao DN.

A 31 de dezembro de 2014, quando Costa visitou Sócrates na prisão de Évora, o líder socialista foi claro. "A personalidade dele é conhecida de todos. Vai certamente lutar pelo que acredita ser a sua verdade."

PS devia "separar águas"

Quase dois depois desse primeiro encontro entre os dois, Ana Gomes mantém as críticas à forma como o PS não separa as águas de forma clara com José Sócrates. "Obviamente que era fundamental demarcar águas: uma coisa é o julgamento que se faz sobre os anos [dos governos] de Sócrates, seja positivo, seja negativo; outra coisa é o comportamento concreto de uma pessoa que vivia uma vida que não correspondia aos padrões de ética elementares para um líder de um partido como o PS."

Para Ana Gomes, há uma ética republicana socialista que foi quebrada, admitida pelo próprio antigo primeiro-ministro: "Aquilo que ele próprio já admitiu, aquilo que já se sabe que confirmou, é suficientemente grave sobre a forma como ele conduzia a sua vida financeira privada e que é absolutamente incompatível com as responsabilidades que teve no país, de ética elementar que se exige em particular a um socialista."

O DN procurou ontem obter comentários de António Costa e do presidente do partido e líder da bancada socialista, Carlos César, sem sucesso.

Sócrates, o suspeito

Foi há dois anos que José Sócrates foi detido na "Operação Marquês". Logo na noite do primeiro interrogatório judicial, o procurador imputou-lhe a prática de três crimes: fraude fiscal, corrupção e branqueamento de capitais. Depois do ato, o juiz Carlos Alexandre decretou a prisão preventiva do antigo primeiro-ministro. Em novembro de 2014, o Ministério Público considerava que o estilo de vida levado a cabo por José Sócrates após ter saído do governo - apartamento em Paris, viagens, entregas de dinheiro por parte do seu amigo Carlos Santos Silva, a compra em massa do primeiro livro "A Confiança no Mundo" - tinha origem em dinheiro do Grupo Lena, formalmente na posse de Santos Silva, mas que, de facto, pertencia a Sócrates.

À medida que o processo foi avançando, depois do Grupo Lena, as suspeitas passariam, entretanto, para o empreendimento de Vale do Lobo, no Algarve, e a ligação deste a Hélder Bataglia, o antigo homem forte da ESCOM, uma sociedade que chegou a pertencer ao Grupo Espírito Santo. Ao mesmo tempo, o Tribunal da Relação de Lisboa foi negando a Sócrates todos os recursos contra a prisão preventiva, decretada pelo juiz Carlos Alexandre.

Só quando chegou ao processo informação de que parte substancial do dinheiro que "viajou" de Hélder Bataglia para Santos Silva teve origem na ESI, Espírito Santo International, é que a investigação passou a concentra-se a fundo na relação BES-PT-José Sócrates. Presentemente, os investigadores ainda procuram provas se Sócrates, como primeiro-ministro, influenciou a OPA da Sonae à PT, em 2007, de forma a obter contrapartidas financeiras do Grupo Espírito Santo. E se o mesmo aconteceu com o negócio da venda da posição da PT na Vivo, no Brasil, à Telefónica e posterior entrada no capital da "Oi". Em meados de setembro, a Procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal, deu seis meses aos investigadores para concluírem o processo, isto já depois de um primeiro prazo não ter sido cumprido.

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