João Félix está nas bocas do mundo aos 19 anos. Nesta quarta-feira foi capa do jornal espanhol As como sendo o alvo do Atlético de Madrid, mas nas últimas semanas tem sido associado a alguns clubes de topo europeu, como Manchester City, Manchester United, Real Madrid, Barcelona....Mas a pergunta que se impõe é se, neste momento, vale os 120 milhões de euros que constam na cláusula de rescisão do contrato com o Benfica, valor pelo qual o presidente Luís Filipe Vieira já disse que os interessados terão de pagar se quiserem contratar o jogador. É esta no fundo a questão que muitos colocam, mas que poucos se atrevem a responder. "Se alguém pagar é porque vale. O mercado é que vai ditar", assume ao DN o ex-futebolista Hugo Leal..O treinador Manuel José é mais conservador quando se fala de tantos milhões por qualquer futebolista. "Os preços loucos do mercado levam a que se fale nesses montantes, mas são valores imorais. Nenhum jogador com a idade de João Félix vale tanto dinheiro", assume o técnico de 73 anos, cuja ideia tem a concordância de João Alves, que na última época orientou a Académica. "É chocante quando se fala destes valores, mas não consigo avaliar se ele vale isso e nem percebo como se consegue quantificar", sublinha o Luvas Pretas, de 66 anos, que como futebolista teve um percurso de alto nível no Benfica, mas também no estrangeiro..Hugo Leal também foi formado no Benfica, de onde saiu aos 19 anos para abraçar uma aventura no estrangeiro, precisamente ao serviço do Atlético de Madrid. E tendo em conta essa sua experiência avisa que, no caso de deixar a Luz, João Félix terá de ter em conta vários fatores: "Independentemente de para onde vá, irá sempre encontrar uma nova cultura e outra realidade, que implica um período de adaptação. Como tal, é importante saber se tem a maturidade suficiente para saber gerir esse processo complicado", sublinha o antigo médio, de 39 anos, que aconselha o avançado encarnado a "pesar bem os prós e os contras antes de tomar uma decisão"..Ainda assim, Hugo Leal admite que "há oportunidades que só surgem uma vez" e que na vida de um futebolista "nunca se sabe as voltas que uma carreira dá". Nesse sentido, admite que é difícil dar conselhos nestas situações. "Se tem a oportunidade de sair, se tiver vontade e se os prós forem maiores, então que vá. Mas é bom que tenha a noção de que já está num grande clube, como é o Benfica", acrescenta..Os exemplos de Renato Sanches e de Bruno Fernandes.Manuel José realça o "grande entusiasmo que se gerou à volta" de João Félix "em poucos meses". "É verdade que teve boas atuações, projetou-se muito rapidamente, tem muito talento e faz tudo bem em campo, mas é um menino de 19 anos e também teve alguns jogos abaixo do que esperavam dele", argumenta, defendendo que o avançado "devia ficar mais dois anos no Benfica". João Alves volta a concordar com esta ideia e dá mesmo dois exemplos para justificar os perigos de emigrar tão jovem: "O João Félix é ainda um jogador em construção e há dois casos que mostram bem as cautelas que se deve ter nestas idades. O Renato Sanches foi para o Bayern Munique e desde então pouco ou nada tem jogado e o Bruno Fernandes andou perdido por Itália e só agora, aos 24 anos, aparece a alto nível.".É por isso que Alves considera que o mais importante para o avançado benfiquista "é jogar e é nisso que deve estar preocupado, porque ainda lhe falta galgar muito terreno". E, nesse sentido, considera que "o ideal é ficar" na Luz, onde terá a oportunidade de "ter as melhores condições para amadurecer e crescer". "É onde ele está mais à vontade, onde é acarinhado pelos adeptos e pelos companheiros de equipa, que são fatores importantíssimos para se sentir bem na equipa e desenvolver-se", sublinha..O exemplo de Bruno Fernandes, capitão do Sporting, é também utilizado por Manuel José para mostrar a importância de estar bem preparado para emigrar. "O Bruno Fernandes esteve muito jovem no competitivo futebol italiano e no ano passado disse que, quando rescindiu com o Sporting, teve a oportunidade de ir para grandes clubes, mas não aceitou porque ainda não se sentia preparado. Agora, depois da boa época que fez diz que já sente ser o momento. E este é, para mim, um bom exemplo para o João Félix, até porque não tem o mesmo talento que o Messi e o Cristiano Ronaldo tinham aos 19 anos", frisou..Saber lidar com a pressão dos milhões.Uma outra questão levantada por Manuel José prende-se com o facto de como um jovem de 19 anos lida com a pressão de um clube que paga muitos milhões por ele. "Nesta idade, a pressão seria enorme e constante, pois iriam exigir-lhe que fosse o melhor em todos os jogos e não é fácil lidar com isso", frisa, lembrando que "Bernardo Silva, que é um dos grandes jogadores em Inglaterra, esteve primeiro num clube sem pressão como o Mónaco para se afirmar e só depois foi para o Manchester City"..Hugo Leal admite que "aos 25 anos, por exemplo, está-se mais bem preparado do que aos 19", mas ainda assim considera que os tempos mudaram: "Os jovens estão cada vez mais preparados para lidar com esse tipo de pressão e seguramente que estão mais bem preparados do que eu estava quando tinha 19 anos, pois agora há mais informação e pessoas que pessoas que podem ajudar a gerir todas as questões que surgem.".Já João Alves considera que essa questão de como lidar com os milhões varia consoante a personalidade de cada um. "Eu não o conheço pessoalmente, sei que em campo é forte e tem barba rija, como se costuma dizer, mas, mais do que como lidar com o valor de uma transferência, o principal problema será a integração num novo clube e noutra realidade", assume..Atlético de Madrid desaconselhado.João Alves não tem dúvidas de que "João Félix é um grande talento e será um grande jogador" e, como tal, tem a certeza de que o Atlético de Madrid, que surge como um dos pretendentes à sua contratação, "não seria o melhor clube para o João Félix"..Esta convicção é partilhada por Manuel José, sobretudo pela forma como a equipa treinada por Diego Simeone joga. "Seria obrigado a jogar mais longe da baliza e em ataques rápidos, o que não iria favorecê-lo. Mas, a sair já do Benfica, acho que o clube ideal seria o Manchester City, porque é uma equipa muito organizada, com uma ideia de jogo consolidada, que domina os adversários e permitia-lhe estar mais perto da baliza para mostrar a qualidade que tem", diz, deixando uma garantia: "Ir para qualquer outro clube neste momento seria muito arriscado.".Uma época para recordar.João Félix falhou o Europeu sub-19, que Portugal conquistou, para marcar presença na pré-época benfiquista às ordens de Rui Vitória no início da temporada 2018/19. E valeu bem a pena. Titular a espaços com o treinador ribatejano, começou a dar nas vistas com um golo ao Sporting na 3.ª jornada do campeonato, mas foi com Bruno Lage que se mostrou ao melhor nível. O técnico setubalense puxou-o da ala para o eixo do ataque, onde fez uma dupla infernal com Seferovic..No espaço de poucos meses, tornou-se a coqueluche do Benfica e uma das principais revelações da temporada a nível europeu, captou a atenção dos principais clubes do continente, foi chamado à seleção nacional e blindado com a cláusula de rescisão mais alta de um jogador a atuar em Portugal: 120 milhões de euros. Para tal muito contribuíram as nove assistências e os 15 golos que apontou no último campeonato e a forma como se agigantou nos jogos com os rivais Sporting e FC Porto..Com passagem precisamente pela formação dos dragões, não convenceu os responsáveis azuis e brancos e acabou por rumar ao Seixal, tornando-se rapidamente uma das bandeiras do centro de formação encarnado. Após ganhar estaleca na equipa B ainda com idade de júnior, mostrou-se rapidamente preparado não só para suportar a exigência como para ser um dos protagonistas da equipa principal na última época, contribuindo de forma decisiva para o 37.º título de campeão do Benfica.