Holocaustos, a negação da Humanidade

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No rescaldo do Holocausto e demais tragédias da Segunda Guerra Mundial, Albert Camus (1913-1960) escrevia no jornal Combat, (19 novembro, 1946): "Temos de reafirmar a recusa de um mundo em que o assassinato é legitimado e em que a vida humana é considerada como fútil. Este é o problema político actual mais importante." Setenta e sete anos depois continuamos confrontados com a decisão de aceitar ou não a legitimação do assassinato no quadro da resolução de conflitos internacionais.

O conflito entre israelitas e palestinianos entrou na sua fase aguda em 1948 com a constituição do estado de Israel e a expulsão de parte da população palestiniana do território do novo estado. Desde então, o terrorismo e a guerra foram os instrumentos privilegiados por ambas as partes para dirimir o conflito. A prova mais evidente da inutilidade do terrorismo e da guerra para encontrar uma solução justa e estável, é a constatação de que, após 77 anos que deixaram um rasto de milhares de mortos e muito sofrimento e destruição, o conflito está mais vivo que nunca, o ódio cresceu, cega palestinianos e israelitas, e o assassinato mútuo continua imparável.

Ambos os contendores arregimentaram apoios internacionais que, aprisionados na lógica do lado que apoiam, não contribuem para qualquer solução estável. E, assim, continuarão a nascer combatentes para alimentar uma guerra inútil, futuros mártires que palestinianos e israelitas incluirão nos seus panteões e que servirão de estímulo à eternização do conflito.
Este seria o quadro de pensamento realista em que a diplomacia internacional poderia contribuir para uma solução justa do conflito. Mas, a diplomacia internacional acha-se "realista" no velho sentido, isto é, está completamente aprisionada no racional que alimenta o conflito e, assim não se constituindo como terceira parte, continuará a mostrar a sua inutilidade para contribuir para uma solução duradoura. E, sobre a inevitabilidade das actuais políticas "realistas", temos de registar que, em parte, foram os chamados realismos políticos e a recusa de alternativas - descartadas como utopias - que conduziram a humanidade aos monumentais desastres históricos das duas guerras mundiais. Voltando a 1946: "a recusa da legitimação do assassinato não é mais utópica do que as atitudes realistas de hoje." (A. Camus, Combat, 20 novembro, 1946).

Sabemos que, individualmente, a esmagadora maioria das mulheres e homens de todos os povos do mundo recusa a guerra. Mas, mais uma vez, e como sempre a dinâmica da história se sobrepõe e se opõe à soma das vontades individuais, e faz do indivíduo o instrumento e a vítima da História e não o seu destinatário e objecto. Se, no mundo de hoje, recusamos legitimar o assassinato como meio de resolver diferendos internacionais, temos de apoiar essa condenação em consensos nos fóruns onde a maior parte da Humanidade ainda tem alguma possibilidade de fazer ouvir a sua voz perante os poderes fácticos que dominam a cena internacional. E, na ONU, o maior dos fóruns internacionais há vozes lúcidas que abrem a porta a uma solução com base em valores de humanidade. O Secretário-geral António Guterres, na sua declaração de 31 de Outubro reafirmava:

"Repito a minha total condenação dos atos de terror perpetrados pelo Hamas em 7 de outubro. Não há justificação para a morte, os ferimentos e o sequestro de civis.... Condeno o assassinato de civis em Gaza e fico consternado com as notícias de que dois terços dos mortos são mulheres e crianças."

E, a 6 de Dezembro invocou pela quarta vez na história o artº 99 da Carta da ONU solicitando ao presidente do Conselho de Segurança uma reunião urgente para debater "a enorme perda de vidas humanas em Gaza e em Israel".

Manifestando uma evidente posição internacional, em 12 de Dezembro a Assembleia Geral da ONU aprovou com apoio esmagador de 153 países uma resolução não vinculativa que exige um cessar-fogo humanitário imediato em Gaza.

E, a Europa actual que nasceu no rescaldo de 6 anos de enormes morticínios e de assassinatos em massa, a Europa que recusou a guerra e se reconstruiu com base nos valores de cooperação e dos direitos humanos, a Europa que com excepção da Áustria, votou massivamente pelo cessar-fogo humanitário em Gaza, ainda prisioneira de velhos fantasmas, oscila, hesita e agora só consegue consensualizar e balbuciar um pedido de contenção a Israel.

Ambos os contendores, conduzidos pelos respectivos extremismos políticos, amarraram outros países aos seus próprios racionais políticos, e um deles capturou mesmo a maior potência mundial, num quadro em que o protector não controla o protegido, enquanto o outro é manipulado e atiçado para o combate por uma potência vizinha. Quase todos os outros, são cúmplices ou espectadores.

Neste tempo em que, de novo, o indivíduo pouco vale face ao rolo compressor da História, é urgente reafirmar que os valores primeiros que devem presidir às relações internacionais devem ser os valores humanos. Depois de passarmos por tantas tragédias temos de exigir que a primeira razão da existência dos estados seja a de servir os cidadãos, e não que estes sejam meros instrumentos dos estados para realizar a Ideia hegeliana, seja lá o que isso for!
Recusar o apoio às lógicas de assassinato partilhadas por ambos os lados, emergir como uma terceira parte que pode mediar uma real solução para o conflito com base nos valores humanos, em suma, criar condições para a recusa do terrorismo e da guerra, é prestar um inestimável serviço aos povos palestiniano e israelita.

A diplomacia internacional tem aqui a oportunidade de romper o círculo vicioso com um verdadeiro golpe de asa, e o meu País também tem a oportunidade de emergir da penumbra onde comodamente segue a opinião dos parceiros, e aparecer como referência de valores que certamente lhe garantiriam prestígio e credibilidade na cena internacional. Entretanto, continuarei a afirmar com orgulho que António Guterres é meu compatriota!

Nota: O autor escreve segundo a antiga ortografia


Professor aposentado

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