Pelo segundo dia consecutivo, os georgianos manifestaram-se contra a lei dos agentes estrangeiros, aprovada pelos deputados do partido do governo Sonho Georgiano, e desta vez não foi só na capital, mas noutras cidades do país do Cáucaso que aspira a ter o estatuto de candidato à adesão à União Europeia. "Não à lei russa", gritaram os manifestantes que aproveitaram a marcha do dia do mulher e o facto de ser feriado para se juntarem em grande número..Na véspera, à manifestação em Tiblíssi a polícia respondeu com canhões de água, gás lacrimogéneo e gás pimenta, sendo que as forças de segurança foram alvo de cocktails molotov e pedras. Segundo o Ministério do Interior, 50 polícias ficaram feridos - não adiantou quantos civis - e 66 pessoas foram detidas. Entre elas, Zurab Japaridze, o líder do partido Girchi - Mais Liberdade. O provedor de Justiça Levan Ioseliani visitou os detidos e disse que Japaridze apresentava ferimentos na cabeça, resultado de bastonadas da polícia..A violência começou um dia antes no parlamento. Durante a discussão da lei numa comissão, vários deputados envolveram-se numa rixa, e no mesmo dia as autoridades dizem ter prendido 36 pessoas porque estariam a forçar a entrada no edifício parlamentar..Twittertwitter1632809835723993089.O que levou a este acirrar dos ânimos foi uma proposta de lei introduzida em meados de fevereiro por uma fação que deixou o partido Sonho Georgiano, mas que se mantém junto da maioria parlamentar..A primeira versão obriga organizações não governamentais (ONG), e meios de comunicação sociais que recebem pelo menos 20% das receitas anuais de uma "potência estrangeira" para se registarem como "agentes de influência estrangeira" ou enfrentariam multas. Dias depois, uma segunda versão endurecia o quadro penal, com prisão até cinco anos..Os seus críticos dizem ser uma cópia da lei que entrou em vigor na Rússia em 2012, uma ferramenta para Moscovo fechar organizações de defesa dos direitos humanos, de media ou da oposição. No ano passado, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem considerou que a lei russa viola a Convenção Europeia dos Direitos Humanos, em particular o artigo 11, sobre o direito de associação..A reação foi rápida: uma declaração de 400 ONG e de grupos de media, o gabinete da ONU naquele país, a comissária dos direitos humanos do Conselho da Europa, a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch criticaram ou mostraram preocupação pela iniciativa legislativa. Mais recentemente, 60 ONG e meios de comunicação anunciaram que não vão cumprir a lei, caso esta seja promulgada..A presidente, Salome Zourabichvili, que já antes anunciara o veto à lei - embora a última palavra caiba aos deputados, em nova votação - de visita aos EUA publicou um vídeo com a estátua da Liberdade em pano de fundo e no qual se disse do lado dos manifestantes porque "representam a Geórgia livre que vê o seu futuro na Europa e não deixa que ninguém lhes roube esse futuro"..Twittertwitter1633244486569541633.O partido Sonho Georgiano, no poder, também diz ter como meta o instituído na Constituição desde 2017, a integração na UE e na NATO. Mas as ligações com Moscovo do anterior primeiro-ministro, Bidzina Ivashnili, um bilionário visto como influente e poderoso, poderão estar a minar o sentido do partido e do país..Na mais recente avaliação da Comissão Europeia, de fevereiro - que em junho concedeu o estatuto de candidatos à Ucrânia e Moldávia, mas preteriu a Geórgia e recomendou uma lei antioligarcas - repetiu as conclusões anteriores: o país está politicamente polarizado e os progressos são lentos..cesar.avo@dn.pt