Cândido Barbosa é uma figura incontornável das últimas duas décadas da Volta a Portugal em bicicleta. Conhecido como o foguete da Rebordosa, pela forma vigorosa como se impunha nos últimos metros de etapas que terminavam em chegadas ao sprint, o antigo ciclista acelera agora para os últimos meses de oito anos enquanto vereador com os pelouros de desporto e juventude da Câmara Municipal de Paredes.."A minha rotina é a de um autarca que tem trabalho de secretária, a despachar serviço e a gerir 80 pessoas no pelouro e o manuseamento de equipamentos como piscinas e pavilhões, que têm manutenção, consumos e despesas. Damos apoio a eventos, clubes e a associações, e temos de avaliar e orçamentar. É um trabalho invisível, que ninguém vê, mas para o qual é necessária bastante atividade", contou Cândido Barbosa ao DN, que já decidiu que não vai continuar no cargo para lá de outubro, quando se realizarem as eleições autárquicas, porque não pretende "seguir carreira política"..Aliás, a entrada para a política apanhou-o de surpresa, quando ainda era ciclista. "Recebi o convite de Celso Ferreira [hoje edil em final de mandato] como algo novo e surpreendente. Senti que podia ser útil, pela experiência que tinha no desporto. Foi de braços abertos que aceitei. Sou um vereador mais prático do que político, que prefere o terreno ao gabinete", afirmou, já afastado da competição há seis anos. A vida de autarca, confessa, envolve outro tipo de esforço e retira-lhe mais tempo do que o ciclismo retirava. "No ciclismo havia esforço físico. Nestas funções há mais esforço mental. Estamos ao serviço da comunidade e temos menos tempo disponível", desabafou..Paralelamente, é proprietário de uma creche, um jardim de infância e uma escola de 1.º ciclo, um projeto "entregue à exploração" mas "feito de raiz". E quando deixar a política, diz que vai estar ligado a eventos desportivos, um "projeto de futuro" que tem em mãos, e para o qual até já adquiriu equipamentos..Sem frustração pela Volta.Cândido Barbosa venceu 25 etapas da Volta a Portugal, o segundo melhor registo da história, atrás do recordista Alves Barbosa (34) e à frente do mítico Joaquim Agostinho (24). Foi 2.º classificado em 2005 e 2007 e 3.º em 2006, mas nunca conseguiu chegar ao final da competição com a camisola amarela vestida, algo que não o deixa frustrado. "Fiz o que estava ao meu alcance e sinto que tenho o reconhecimento do público, que vale mais do que seja o que for. Sinto-me acarinhado, porque ainda hoje me pedem para tirar fotografias e participar em passeios solidários", atirou, lembrando que os registos de Alves Barbosa e de Joaquim Agostinho foram obtidos noutros tempos. "A Volta tinha muitos mais dias. Ultrapassar Joaquim Agostinho não era um objetivo, mas foi um feito e algo que me deixa muito satisfeito", confessou, orgulhoso pela carreira que teve e pela... alcunha. "A alcunha de foguete da Rebordosa partiu da comunicação social. Eu era um ciclista rápido, um sprinter, e nas partes finais das etapas diziam que eu arrancava como um foguete. Foguete não me diz nada, mas Rebordosa diz-me muito. É giro e saudável", recordou, assumindo que tinha bastantes dificuldades em etapas de montanha e chegadas ao alto: "Eram os meus tendões de Aquiles.".Campeão europeu sub-23.Cândido Barbosa diz que tem grandes recordações da carreira "desde o princípio até terminar, desde os circuitos na Rebordosa e competições no Norte, em Felgueiras, Gondomar, Guimarães ou Canidelo". "Quando íamos a Santarém ou Alpiarça, parecia que íamos ao estrangeiro. Já em profissional, alcancei muitas vitórias e, felizmente, fiz muitas amizades", recordou, assumindo como pontos altos os três anos em que esteve quase a ganhar a Volta a Portugal e o título de campeão europeu sub-23, em 1996. "Não tinha esse objetivo, só queria fazer um bom resultado. Não estava à espera de ser campeão da Europa e foi das vitórias que mais me marcou. A minha rotina após a prova foi a mesma de sempre, ao voltar para o hotel a pedalar", lembrou, aos 42 anos..Por outro lado, não guarda mágoas. "A maior que tenho foi quando caí num circuito em Vila do Conde e fiquei com a boca destroçada. Não tive culpa da queda e tinha dito aos meus pais e amigos que abandonaria a modalidade. E abandonei, mas por apenas mês e meio", contou o antigo corredor de W52-Paredes Móvel (1996), Maia-Jumbo-CIN (1997), Banesto/iBanesto.com(1998-2001), Liberty Seguros (2002-2007), Benfica (2008) e Palmeiras Resort-Tavira (2009-2010)..Bicicleta com o filho.Retirado há pouco mais de seis anos, Cândido Barbosa já só pedala "de vez em quando". "Tenho ido a passeios solidários, mas não consigo andar de bicicleta regularmente", lamentou. No entanto, há outro Barbosa a dar uso à pedaleira, o filho Diogo, de 17 anos. "É júnior de primeiro ano e está a competir. É um miúdo muito aplicado e que gosta muito da modalidade. No entanto, é complicado pedalar na via pública, e isso não me deixa descansado. As minhas recomendações é para que ele aprenda a modalidade e não procure o resultado imediato. Resultados só de sub-23 em diante", atirou.