Sentiu-se a falta na ficcão portuguesa em 2009 de um romance de uma autora consagrada como Lídia Jorge ou de autores promissores como João Tordo. Nem houve narrativas de escritores que garantem obra interessante, como é o caso de Mário Cláudio ou Mário de Carvalho, mas manteve-se a edição anual, nos últimos anos assim tem acontecido, de António Lobo Antunes e de José Saramago..Do primeiro autor, Lobo Antunes, pode dizer-se que é o candidato ao melhor romance do ano com o seu Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar. O escritor não poderia ter publicado melhor livro no ano em que comemora três décadas de carreira literária nem dar aos seus fiéis leitores um volume que concentrasse mais força narrativa do que aquela que lhes deu. .Não sendo um romance fisicamente espesso como Fado Alexandrino, por exemplo, aquilo que Lobo Antunes escreveu acabou por ser uma súmula da sua melhor ficção – tendo em conta a força do texto que une várias pontas do seu trabalho na integralidade – que está a fazer-se na língua portuguesa e em todo o universo lusófono..O novo título saramaguiano mantém a prodigalidade inventiva e criadora do nobel e vai mais longe ao julgar o Antigo Testamento. A polémica que envolveu Caim após as primeiras declarações do escritor em Penafiel obscureceu o interior dessa grande novela em que o autor resume num protagonista único toda a visão católica da história da humanidade. Uma poderosa interligação entre factos e parábolas surpreende o leitor que, decididamente, não espera por esta interpretação, mesmo sendo o autor um ateu confesso e crítico da religião. Com menos de duzentas páginas, Caim lê-se mais rápido do que o debate que pode exigir ao próprio leitor que o devora..Ausentes os grandes textos neste ano que acaba, há um género de ficção que, pela primeira vez na nossa literatura, ganha um fôlego inesperado. Tem o mérito de ser de autoria de jovens autores e de explorar o género do fantástico. O jovem Filipe Faria liderou essa exploração inicial de um filão que o sucesso internacional viabilizou também em Portugal..E, numa acção desesperada da recuperação da literatura de ficção nacional, a Guimarães editou o primeiro volume das obras completas de Jorge de Sena. Sinais de Fogo é o título que abre esta reedição e que pode mostrar caminho interessante para as editoras portuguesas. JOÃO CÉU E SILVA.Ficção estrangeira.O ano dos mortos-vivos e dos vampiros No ano em que Dan Brown regressou ao «mundo dos vivos» (leia-se novo livro após seis anos de silêncio), os romances que maior furor causaram foram de autores já falecidos. Propensões mórbidas à parte de um mercado que deu sinais óbvios de recessão após a euforia recente, Stieg Larsson e Roberto Bolaño viram as suas derradeiras obras ocupar durante semanas a fio, para gáudio dos respectivos herdeiros, a liderança das tabelas dos mais vendidos..Na rentrée, assistiu-se mesmo a uma verdadeira «bolañomania», tal a euforia que rodeou o romance póstumo 2666. As mais de mil páginas do livro que o chileno legou aos filhos foram sorvidas com entusiasmo por milhares de leitores, cativados por uma prosa indomável prenhe de referências literárias tão obscuras quanto fascinantes..Derradeiro volume da trilogia Millenium, A Rainha no Palácio das Correntes de Ar brindou os leitores habituais com novas aventuras de Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander. Mas a adaptação cinematográfica de Os Homens Que Odeiam as Mulheres, primeiro tomo da série, também atraiu novos adeptos para uma trilogia que já vendeu em território nacional perto de uma centena de milhares de exemplares..Tal como O Código da Vinci deu origem, durante anos, a dezenas de sucedâneos envolvendo seitas secretas e documentos encriptados, 2009 foi o ano da vampirização da fórmula de Stephenie Meyer, a jovem autora norte-americana que, à conta da série Crepúsculo, vendeu mais de quarenta milhões de livros em todo o mundo..Fora do sempre pernicioso campeonato dos números, não faltaram romances apetecíveis. A Vida em Surdina, por exemplo, confirmou, pela enésima vez, David Lodge como um dos grandes autores britânicos de hoje; Philip Roth, com Indignação, prosseguiu a sua entronização antecipada como o maior romancista norte-americano vivo obriga e até Paul Auster pôs termo às suas elucubrações políticas recentes pouco menos que entediantes, regressando aos romances de fôlego, com Invisível..Se a literatura anglo-saxónica voltou a dominar as opções editoriais, houve sinais, ainda que ligeiros, de uma crescente dispersão geográfica. Além dos bem-sucedidos novos romances de Le Clézio (A Música da Fome e Estrela Errante), Erri de Luca (Caroço de Azeitona e O Dia antes da Felicidade), Patrícia Melo (Jonas, o Copromanta), assinale-se a aposta das Edições 70 na criação de uma chancela dedicada à literatura espanhola contemporânea. Em três meses de vida, a Minotauro já publicou autores como Álvaro Pombo, Esther Tusquets e Antonio Fontana, entre outros. SÉRGIO ALMEIDA.Poesia.Um ano de «toda a poesia».A arte poética desafiou a crise: 2009 em língua portuguesa (suporte papel) foi ano de «toda a poesia»: antologias e «poesia reunida» estão na primeira linha do balanço possível. Com perfis diferentes, são marcantes a Antologia da Poesia Grega Clássica, tradução e notas complementares de Albano Martins, e Poemas Portugueses, Antologia da Poesia Portuguesa do Século XIII ao Século XXI, organizada por Jorge Reis-Sá e Rui Lage; prefácio de Vasco Graça Moura..De grandeza ímpar, a primeira lega-nos uma cultura fundadora, de Homero a Paulo Silenciário, num trabalho que volta a testemunhar a excelência do poeta Albano Martins. A segunda (267 autores, mais de dois mil poemas e verbetes de prestigiados ensaístas) revela-se um tratado da lírica portuguesa, uma panorâmica excepcional que vai dos cancioneiros medievais ao verso contemporâneo, oito séculos revisitados..Quanto à «poesia reunida», pontificaram, nos seus diferentes registos, Manuel Alegre, Maria Teresa Horta, Herberto Helder (Ofício Cantante). Não menos importantes, porém, e entre outros, os volumes A Luz Fraterna, de António Osório, Algumas das Palavras, de Fernando Guimarães, Os Poemas, de Gastão Cruz, e Dobra, de Adília Lopes, celebrando décadas de sólida criatividade e desafiante originalidade, tal como acontece em A Carvão, de Fernando de Castro Branco..De novos livros, assinalamos a densidade metafórica, a transfiguração do real, a tensão dos contrários e as grandes buscas que passam pelos afectos, pela interioridade e reflexão. Destacamos: Lugar de Estudo, de Fernando Echevarría, Odes, de António Salvado, Uma Ânfora no Horizonte, de Maria do Sameiro Barroso (Prémio Palavra Ibérica), O Silêncio: Lugar Habitado, de Graça Pires (Prémio Ruy Belo), O Livro das Aves, de Tiago Patrício (Prémio Daniel Faria)..A par destes: Ana Luísa Amaral assina Se Fosse Um Intervalo e Victor Oliveira Mateus dá-nos A Irresistível Voz de Ionatos; Alice Vieira diz-nos O Que Dói às Aves, José Mário Silva cria Luz Indecisa, José Agostinho Baptista escreve O Pai, a Mãe e o Silêncio dos Irmãos; Rosa Alice Branco conta como O Mundo não Acaba no Frio dos Teus Ossos, João Miguel Fernandes Jorge lança Mãe-do-Fogo e Teresa Rita Lopes surge com O Sul dos Meus Sonhos. Ondjaki fala-nos de Materiais para Confecção de Um Espanador de Tristezas e Luís Carlos Patraquim oferece-nos Pneuma..Refira-se, também, a publicação de Poemas, de Herman Melville (tradução de Mário Avelar) e O Livro de Horas, de Rainer Maria Rilke (traduzido por Maria Teresa Dias Furtado). MARIA AUGUSTA SILVA.Ensaio.Da queda do muro ao lugar da utopia.Vinte anos depois da queda do Muro de Berlim, o mundo editorial agitou-se, mas pouco. Um punhado de livros fez regressar a história e os seus fantasmas, recuperando esperanças e desilusões que marcaram boa parte do violento século XX. Merecem destaque A Queda do Muro, de Olivier Guez e Jean-Marc Gonin (ed. Oceanos), relato da marcha vertiginosa dos acontecimentos; O Mundo Perdido do Comunismo, História do Quotidiano do Outro Lado da Cortina de Ferro, de Peter Molloy (Bertrand), sobre a experiência de vida na RDA, Checoslováquia e Roménia; e Revolução de 1989 – A Queda do Império Soviético, de Victor Sebestyen (Presença), crónica dos meses que mudaram a face da Europa de Leste, escrita por um jornalista que já tinha contado a história do levantamento de Budapeste de 1956..O ano de 2009 trouxe-nos ainda dois livros de referência em áreas aparentemente esgotadas: Hitler, de Ian Kershaw (D. Quixote), monumental biografia do homem que representou a face do mal no século XX; e O Século XX Esquecido, de Tony Judt (Edições 70), ensaios escritos ao longo de 12 anos que reavaliam aspectos importantes da história contemporânea. Leitura atenta merece Os Desaparecidos, de Daniel Mendelsohn (D. Quixote), reconstituição da história do Holocausto através da memória de sobreviventes..Da grande história do século à nossa pequena história vai um passo, dado por autores que continuam a escrutinar Portugal como problema. Um livro de Manuel Ros Agudo, A Grande Tentação – Os Planos de Franco para Invadir Portugal (Campo das Letras), confirma os rumores de décadas, apesar do tranquilizador (para alguns) Pacto Ibérico. O jornalista João Paulo Guerra deu-nos uma versão revista e aumentada de Descolonização Portuguesa, o Regresso das Caravelas (Oficina do Livro), livro fundamental sobre a saída de África que o país absorveu mas depressa quis esquecer. Também sobre a descolonização, mas sobretudo evocando (e revelando) passagens importantes dos nossos «anos de brasa» (1974/75) é Capitão de Abril, Capitão de Novembro, interessante testemunho do ex-conselheiro da Revolução Sousa e Castro, que revela como os protagonistas da mudança em Portugal tiveram de fazer a aprendizagem política em marcha acelerada..Esquecendo a (relativa) decepção que foi Em Busca da Identidade – O Desnorte (Relógio de Água), o mais recente livro de José Gil, cujo Portugal Hoje – O Medo de Existir fora, há quatro anos, um inesperado mas justo best seller, fica para o fim aquele que é, provavelmente, o mais importante livro de reflexão dos últimos anos sobre «os caminhos de Portugal»: À Espera de Godinho – Quando o Futuro Existia (Bizâncio). Quatro expatriados em Bruxelas – Amadeu Lopes Sabino, Jorge de Oliveira e Sousa, José Morais e Manuel Paiva – narram a sua trajectória dentro e fora do Portugal salazarista, a recusa à guerra que os atirou para o exílio, a ditadura e a democracia e discutem o país que saiu de África a correr para os braços da Europa e o lugar da utopia no mundo de hoje. Imprescindível. ALBANO MATOS.Banda desenhada.Altos e baixos no mundo dos quadradinhos Em ano de crise, podendo discutir-se se a culpa é da conjuntura ou do agravamento de factores já conhecidos, é indiscutível a redução de títulos de BD, que afectou até as recolhas de tiras de imprensa, o que indica que a vontade de rir é pouca e leva a ignorar Pérolas a Porcos, Zits ou Ferd’nand, cuja qualidade e humor até podia ser paliativo para as dificuldades quotidianas..A questão económica da edição até poderá ter sido (falsamente) compensada por best-sellers como O Livro de Ouro de Astérix e Obélix, ou Blake e Mortimer – A Maldição dos Trinta Denários, a par de apostas seguras em nomes consagrados como Bilal (Quatro?), Schuiten e Peeters (A Teoria do Grão de Areia) ou Bourgeon (Passageiros do Vento #6 – A Menina de Bois-Cayman)..Destaco, por revelar algum atrevimento editorial, As Aventuras de Juan sem Terra, de Isusi, e como opção a repetir, pela capacidade de chamar para a BD público diferente, Câncer Vixen, de Marisa Acocella Marchetto..Curiosamente, o final de 2009 deixa uma sensação enganadora pois O Gato do Simon, de S. Tofeld, Tarzan dos Macacos, de Foster, Krazy + Ignatz + Pupp – Uma Kolecção de Pranchas a Kores Kompletamente Restauradas, Marvels ou Peanuts – Obra Completa – 1959/1960 são obrigatórios em qualquer biblioteca..E se 2009 ainda não foi o ano do manga em português, limitado a meia dúzia de títulos (secundários), obrigando os (muitos) fãs do género a esperar por melhores dias, que poderão ser já em 2010, apesar de alguns problemas de distribuição assistiu-se a uma estabilização da oferta em quiosque, quase toda proveniente do Brasil, via Panini (Marvel, DC Comics, Turma da Mónica) e Mythos (Bonelli)..Finalmente, saliente-se o dinamismo da edição dita independente, que oferece algumas das mais estimulantes propostas nacionais, a multiplicação de edições patrocinadas por autarquias, a reedição do clássico Eternus 9, de Victor Mesquita, a revelação de Filipe Pina e Filipe com BRK, a surpresa Regina Pessoa com NiePOoRTland e a adaptação do Romance da Raposa, de Aquilino Ribeiro, por Artur Correia. F. CLETO E PINA