Eu te amo meu Brasil

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Há mais de trinta anos e durante algum tempo, o Brasil foi a minha terra de acolhimento e o Rio a minha cidade. Apesar da língua e da história comum demorei a sentir-me em casa porque tudo era dramaticamente diferente. Nesse tempo, os imigrantes portugueses pertenciam à geração valorosa do pé descalço, aportando àquelas terras para fazer fortuna, fugindo da miséria desta terra "de paus e pedras". Alguns, muitos, fizeram grandes fortunas, outros estabeleceram-se abrindo padarias "lanchonetes" e "armarinhos". Em 1975 chegou uma outra imigração que fugia dos excessos da Revolução de Abril. Éramos híbridos e também por isso não foi fácil. Nos baloiços do "calçadão" o meu filho continuava a ser chamado de "portuga". Naquela enorme metrópole tudo parecia excessivo, desordenado e desigual. As belezas naturais escondiam uma realidade tão dura que parecia não ter retorno. Era o tempo de Gabriela, a telenovela que bateu recordes de audiência e cuja banda sonora entrava diariamente pela janela da cozinha. Tudo era vendido a prestações nos grandes armazéns do povão, as desigualdades sociais eram tão gritantes que não percebíamos aquela doçura, aquela alegria, aquela vai-vem bamboleante, morro abaixo, morro acima, da favela para os bairros das zonas finas. Dizia-se, então, que o Brasil ou se ama ou se deixa: eu amei-o mesmo quando tive que o deixar. Dizia-se também que o Brasil seria sempre o país do futuro, de um futuro que nunca alcançaria. Que ironia… Foi já nesse futuro, tornado presente, que há quatro anos nasceu em São Paulo a minha primeira neta que desse modo adquiriu também a nacionalidade brasileira. Em 2016, quando ela tiver dez anos, a previsão é que o Brasil possa ser a quinta potência do mundo.

Os brasileiros deram luta eleitoral e Dilma não foi eleita à primeira volta, o que não deixa de ser bom sinal porque em democracia ninguém deve ser dado como adquirido. Estas eleições, aliás, fecham um longo ciclo de ouro, iniciado com Fernando Henrique Cardoso e encerrado com Lula da Silva, um tempo de estabilidade que permitiu as grandes medidas que fazem as grandes mudanças e um caminho que elevou o Brasil a oitava potência mundial. Mas não sabemos ao certo que ciclo vai abrir… Em matéria eleitoral as sucessões constituem sempre um risco, seja a hipotética continuidade, seja o exercício do poder por interposta pessoa.

No Brasil, como se sabe, o Presidente governa. A Cardoso cabe os louros de ter aberto o caminho e de o ter percorrido consolidando uma mudança estrutural. E não por acaso. A passagem pelos Estados Unidos, uma educação "ocidental", uma cultura humanista, tudo contou para alterar o que tinha sido o paradigma da governação brasileira, da agenda, das orientações, do estilo. A sucessão de Cardoso passava por José Serra mas foi Lula quem saiu vitorioso. Recordo-me de ouvir e ler muitos profetas da desgraça após a eleição deste sindicalista católico, um operário semi-analfabeto, como se dizia, prisioneiro dos apoios mais radicais. Mas não foi assim. Contou aqui sobretudo a especialíssima personalidade do personagem que completamente à vontade no papel galgou, no plano interno e internacional, um caminho ainda estreito, ainda íngreme, sobrevivendo não só há crise mundial como à idiossincrasia brasileira feita de estabilidade e bagunça, boas políticas e corrupção, crescimento económico e insegurança, combate às desigualdades e catástrofes naturais. É que por lá tudo acontece…

Mas quanto a mim a maior vitória destes dois ex-Presidentes foi ter conseguido compatibilizar - num país do tamanho de um continente marcado por enormes diferenças e com 190 milhões de almas cujas circunstâncias podem ser tão desiguais - o crescimento económico com o desenvolvimento humano. Durante estes consulados foram lançadas políticas sociais desassombradas que reduziram a mortalidade infantil, o analfabetismo e tiraram da pobreza milhões de famílias brasileiras.

Daqui em diante ou se prossegue ou se recua, nada está garantido. Não bastará a Dilma ir às urnas como a sucessora de Lula da Silva. E isso será tão mais assim que ganhar as eleições.

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