Quase meio milhão de habitantes - precisamente 467 626, de acordo com os dados mais recentes (2004). Uma população activa que não ultrapassa os 300 mil. Um PIB per capita de cerca de nove mil euros e um poder de compra que se situa no índice 100. Indicadores de desenvolvimento que estão próximos da média nacional , mas bem longe dos registados pela capital. Mas são os que traduzem a realidade de cinco dos nove concelhos da península de Setúbal - Almada, Seixal, Barreiro, Montijo e Alcochete. No mesmo ano, Lisboa teve um PIB per capita de 21 224 euros e um índice de poder de compra de 169,35, dados da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo..Tão perto e tão longe do concelho mais desenvolvido do País. Mas tem sido assim desde as décadas de 1960-70 - quando teve início o boom demográfico e urbanístico na margem sul do Tejo, logo após a construção da Ponte 25 de Abril e a instalação da indústria pesada nacional naquela zona ribeirinha - até à actualidade. Almada, Seixal e Barreiro foram concelhos que nasceram para descentralizar a actividade económica e os movimentos demográficos que surgiam em Lisboa. Rapidamente se tornaram concelhos apelativos pelo preço barato das casas, dos terrenos para construção e pela boa acessibilidade, na altura, à capital e ao Sul do País. Cresceram desordenadamente como zonas dormitório e não mais conseguiram abandonar essa imagem, ainda hoje marcada pelo caos urbanístico e conflitualidade social, ambos difíceis de gerir. . "Cresceram espontaneamente. O movimento demográfico ocorreu, em larga medida, com a construção da Ponte 25 de Abril, com a indústria e com o alargamento da linha do caminho-de-ferro, mas a um ritmo que as autarquias não tiveram capacidade para responder com a criação de infra-estruturas. Tudo isto resultou no estraçalhar incontrolado do território, com muita construção ilegal, existente ainda nalguns concelhos", explica ao DN socióloga Isabel Guerra, especialista em urbanismo e professora do Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa..Falhou visão de conjunto.O problema é que, nestes 40 anos, "não houve um pensamento conjunto para o desenvolvimento da Margem Sul". "Por isso, estamos perante concelhos inacabados, que ainda correm riscos", sublinha. .Os mais graves serão o de não conseguir travar o crescimento espontâneo, que ainda ocorre nalgumas zonas, ou o de repetir os mesmos erros nos concelhos que agora estão a mudar a sua vivência. Mas para todos, o desafio maior será o de "acompanhar o desenvolvimento da capital", argumenta Isabel Guerra.. Para tal, há que apostar na "qualificação do espaço, da actividade económica, do emprego e da formação. Sem esta qualificação não há desenvolvimento. É preciso não esquecer que a Margem Sul ainda mantém índices elevados de emprego precário e de escolaridade básica", refere, acrescentando que uma das vias da qualificação poderia ser a aposta na formação profissional para colmatar as necessidades da região. A socióloga do ISCTE reconhece, no entanto, haver municípios que já estão neste caminho, mas os passos dados não chegam. "Almada tem esta perspectiva e apostou forte no pólo universitário. O Seixal tem mostrado um dinamismo apelativo e está a tentar pôr ordem num concelho que, em cada década, duplica a população e que é fortemente marcado pela miscigenização - ali se fixaram populações oriundas do Sul do País e de países africanos sem políticas de inclusão. O Barreiro foi pensado em função da actividade económica, foram construídos bairros para o operariado. O fim da indústria tornou--o numa zona envelhecida e pesada, mas o seu historial deveria ser preservado", sublinha. Quanto ao Montijo e a Alcochete, afirma: "Ainda têm problemas de infra-estruturas, devido às suas características rurais, e precisam de uma gestão urbanística muito controlada para maior qualidade de vida e do espaço.".Não houve desenvolvimento .Para Ricardo Martinez, sociólogo do Instituto Politécnico de Setúbal, não houve desenvolvimento na Margem Sul, apenas crescimento. "Os cinco concelhos cresceram em tempos diferentes e com grandes diferenças a nível historial e de estruturação demográfica. Nenhum pode ser caracterizado como concelho desenvolvido", defende. O boom urbanístico e o demográfico não foram integrados, em parte, devido às autarquias, mas também "por responsabilidade do poder central, que colocou dificuldades à descentralização". Não é por acaso que estes concelhos "mantêm bolsas de pobreza e que são um barómetro do País em termos de conflitualidade social", salienta. Por outro lado, a Margem Sul ainda é muito dependente da capital no que toca a vivência urbana, apesar das "boas" agendas culturais e desportivas de Almada e Seixal. "Lisboa é uma cidade cosmopolita, mas o outro lado do rio não conseguiu alcançar um prolongamento deste estilo, desenvolvendo um outro totalmente diferente". .Hoje cometem-se os mesmos erros.Para a presidente da Secção Regional do Sul da Ordem dos Arquitectos, Leonor Gomes, estes concelhos não são exemplo de planeamento e de qualidade de vida urbana, mas reconhece haver autarquias que têm melhorado. "O Plano Director de Almada é um exemplo. Tem visão, planeamento e controlo urbanístico. Há lógica no território". Nos restantes municípios ainda há muito a fazer. Aliás, no Montijo e em Alcochete, que só recentemente integraram o conceito de regiões descentralizadoras de Lisboa, estão a cometer-se os mesmos erros de há 40 anos. "A construção está a surgir em série e sem preocupações de qualidade arquitectónica e de vida urbana. Serão novos dormitórios, quando o conceito de habitar deveria ser diferente. Ter marcas da vivência local, caracterizada pela ruralidade, e isso não está a acontecer", argumenta. ."O desenvolvimento do território depende muito das vontades autárquicas e das equipas técnicas que os acompanham, mas as pessoas ainda não estão habituadas a pensar em termos de qualidade de vida das cidades. As próprias pessoas refugiam-se na habitação e, se puderem, fazem tudo de lá, até compras pela Net. Só que isto é claramente o contrário de uma vida urbana com qualidade", sublinha, acrescentando: "A vida urbana vai muito para além das áreas comerciais. São precisos espaços públicos dignos.".A presidente da autarquia do Montijo rebate esta visão e defende que a preocupação do concelho tem sido " a da qualidade de vida aliada à sustentabilidade económica, social e ambiental". Na autarquia de Alcochete, e apesar dos pedidos do DN para a disponibilização de dados e de um técnico para caracterizar o concelho, não obtivemos resposta até ontem. A Comissão de Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale Tejo também optou por não responder aos pedidos do DN para a obtenção de dados e entrevistas com técnicos. .Nota: Suplemento 'Especial Cidades' Margem Sul tem a sua versão completa (de oito páginas) no DN em papel