Engana-me que eu gosto

Publicado a
Atualizado a

1. O escritor José Rodrigues dos Santos alertou-me para a quantidade de vezes que somos enganados voluntariamente sem questionamento. Num vídeo no YouTube, de 2011 (que só vi esta semana), com o fim de promover internacionalmente o romance A Fórmula de Deus, o autor termina assim a sua apresentação: "Prometo que no final do livro [o leitor] terá a resposta conclusiva para o maior mistério do universo: a existência de deus e o sentido da vida."

Sei que se trata da promoção de uma obra de ficção e que os escritores - a menos que seja Pynchon ou Kundera - precisam e apreciam anunciar o seu trabalho. Mas o romance começa como uma advertência, dizendo que as teorias do livro "são defendidas por físicos e matemáticos" - o texto, aliás, está repleto de diálogos sobre essas teorias. Ou seja, tendo usado a ciência, como pode o autor garantir que vai explicar a existência de deus e o sentido da vida?

Tal como não há uma resposta (científica ou não) para a existência de deus, tampouco existe um sentido da vida, na medida em que ele não pode ser comum a todos os humanos. Para um moleque de rua, que cheira cola e assalta em Copacabana, o sentido da vida não é o mesmo do que, por exemplo, para José Rodrigues dos Santos.

O meu desassossego não tem que ver com a história do livro, mas com o constante aproveitamento que escritores e editoras fazem hoje da ficção, vendendo-a como revelação, embrulhada em misticismo e açucarada com segredos ancestrais que a humanidade precisa de conhecer. Milhares, senão milhões de pessoas (algumas que não julgaria tão ignorantemente crédulas), acham hoje que Dan Brown descobriu que Jesus Cristo era casado com Maria Madalena, como supostamente revela a A Última Ceia, de Leonardo da Vinci, e que, séculos mais tarde, a sua descendência reinou na Gália.

No seu livro, Rodrigues dos Santos explora o conceito deísta - que rejeita um deus pessoal, como conhecemos das Escrituras, mas que defende uma inteligência superior capaz de desenhar e produzir o universo e a vida. No romance, Einstein procura respostas para a criação do cosmos em indícios secretos do Génesis, na Bíblia. Mas ciência e religião não são compatíveis na busca do conhecimento. A primeira é um esforço, baseado em evidências, em que se aplica um método de tentativa e erro, e que procura o esclarecimento e já melhorou incomensuravelmente a vida do homem. A segunda é uma projeção da mente humana, que serve ainda de impedimento ao progresso da espécie e que se refugia no dogma e no sobrenatural (nunca provado). Misturar religião e ciência é o mesmo que fazer um transplante sem instrumentos cirúrgicos recorrendo apenas ao terço.

2. Sirinhaém é uma favela de 40 mil habitantes, em Pernambuco, onde a maioria dos homens trabalha no cultivo da cana-de-açúcar. Uma médica do centro de saúde disse-me que o alcoolismo e a violência doméstica são uma epidemia: "Quase todos são analfabetos. Não conseguem trabalhar sem beber Pitú (cachaça), não conseguem dormir sem beber Pitú." Muitas mulheres estão desempregadas. E as inúmeras igrejas evangélicas na comunidade aliviam as dores. Em Sirinhaém faz sentido que a salvação (fuga) ao azar que lhes calhou na rifa cósmica esteja em Jesus, no pastor, no apoio dos outros fiéis e na oração.

Tenho de entender que a ignorância e a negligência a que foram entregues estas pessoas, bem como séculos de tradição, as empurram para uma fantasia inabalável. Mas custa--me ver aqueles que tiveram acesso à educação, e que dispõem das ferramentas necessárias para o esclarecimento, engolirem ainda as narrativas religiosas, os argumentos de que, sem religião, o homem não agiria moralmente, ou que tentem apurar a superstição com argumentos científicos. Porque preferem a preguiça e o obscurantismo do mistério da fé em vez da procura pela verdade?

Robert M. Pirsig, cientista, escreveu: "Quando uma pessoa tem um delírio, chamamos-lhe insanidade. Quando muitas pessoas partilham o mesmo delírio, chamamos-lhe religião." Custa-me compreender aqueles que podem escolher o conhecimento (e que muitas vezes o têm) e que preferem o comodismo do engano. De certa maneira, é como se, depois de adultos, escolhessem acreditar no Pai Natal.

Numa sociedade que se pretende esclarecida*, moderna e secular, dizer que o sentido da vida ou a existência de deus se encontram num livro de ficção ou na sintonia entre o religioso e científico é uma forma de charlatanismo mais sofisticado, religião 2.0, mas não deixa de ser um piscar de olho ao delírio coletivo. Talvez por isso o triunfo do engano tenha tanta audiência.

* Um estudo de Michael Shermer mostra que entre as pessoas mais instruídas há menos religiosos. Outro, de Benjamin Beit-Hallahmi, confirma a irreligiosidade da grande maioria dos prémios Nobel nos campos da ciência e literatura.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt