É um homem da gestão, dos números. Como é que nasce o seu interesse pela cultura?.A cultura é aquilo que uma sociedade expressa como o seu comportamento coletivo. E depois, essa cultura tem diferentes expressões. Tem a forma como falamos, tem a forma como nos comportamos no trânsito - que é horrível -, a forma como as pessoas se comportam nos estádios de futebol, que a mim me aborrece, e tudo isso faz parte da nossa cultura. Depois, temos o lado da cultura que é a expressão artística. Tive a sorte de ter um professor primário que era uma pessoa muito avançada para o seu tempo, que nos confrontava com a necessidade de lermos poesia, de declamarmos, de fazermos teatro. Essa componente das artes esteve sempre muito próxima. Há uma outra componente das artes para a qual eu era um absoluto objeto, muito perto do martelo, que eram as artes da pintura e da escultura. E descobri essa sensibilidade numa visita a um museu de arte contemporânea em Boston, quando tinha 18 anos. Trabalhei todos os verões, desde o 12º até ao penúltimo ano de faculdade, nos Estados Unidos. Uma das minhas primas mais velhas, a Isabel, foi ter comigo e levou-me a uma exposição de arte contemporânea do Mark Rothko, em Boston. Nesse dia aconteceu algo dentro de mim que me fez despertar uma sensibilidade que nunca mais desapareceu. E, pelo contrário, ao longo da vida tem vindo a ficar mais próxima para a presença das artes. Tenho participado em várias ações de promoção das artes. Sou um visitante assíduo de exposições, de museus..Como é que esse seu interesse e gosto se reflete no Taguspark?.Tenho tido o privilégio de trazer essa componente das artes para o mundo do Taguspark, para o seu quotidiano. Não só através de exposições. O nosso programa de 2024, por exemplo, está absolutamente preenchido com exposições umas atrás das outras, mas também com algo muito importante, que é a construção do Museu de Arte Urbana, que tem vindo, nos últimos quatro anos, a crescer gradualmente. Temos uma das maiores coleções de graffiti under- ground da Península Ibérica, temos um parque escultórico a crescer e um acervo de arte a aumentar, que nos últimos quase seis anos passou de uma para mais de uma centena de peças. Diria que o Taguspark continuará nesta senda e será uma referência europeia em arte contemporânea, em arte urbana, nas próximas décadas..Tem tentado criar uma comunidade. Falou em civismo. Não quer que o Taguspark seja só um espaço de escritórios, mas sim que as pessoas interajam e convivam?.Essa pergunta tem dois patamares. Um é o termo comunidade. Há um provérbio de Confúcio, que diz o seguinte: "Se quer ir depressa, vá sozinho, se longe quer chegar, faça-se acompanhar." Acredito no conceito de equipa e fomento-o. Acredito no conceito de comunidade. Só podemos ir mais longe se, em conjunto, mudarmos o nosso comportamento coletivo, se formos mais exigentes com cada um de nós, para podermos ser mais exigentes com os outros. E, portanto, o conceito de comunidade começou aqui no Taguspark a ser desenvolvido na altura em que decidimos lançar o conceito de civismo, nomeadamente para resolver um conjunto de problemas de comportamento..E conseguiram resolver esses comportamentos?.Sim. As beatas no chão, o lixo fora do lugar, os automóveis mal-estacionados, o desperdício de energia e o desperdício de água. Chamámos a comunidade e ela, face a esse desafio, aderiu. Se circular hoje pelo Taguspark não é muito provável que encontre uma beata no chão. Não vai encontrar papéis fora do lugar, não vai encontrar automóveis mal-estacionados. E conseguimos esse patamar precisamente pela adesão da comunidade. Sozinhos não somos capazes de fazer rigorosamente nada, só em comunidade. Temos trabalhado para a comunidade. A nossa missão clara é garantir que criamos condições de vida e de quotidiano que acrescentem valor às pessoas, a cada um que aqui trabalha, que acrescentem valor ao seu quotidiano, à qualidade do seu local de trabalho, na qualidade do circuito que faz, na qualidade de tudo com que é confrontado. E, simultaneamente, acrescentem valor às marcas que eles próprios representam. Isto é a nossa missão. Em simultâneo, o que é que percebemos? Percebemos que temos um território, esta cidade do conhecimento, que é muito exclusivo do ponto de vista da qualidade. Muito exclusivo na arquitetura, exclusivo na forma como o nosso espaço verde e espaço público está tratado, exclusivo no sossego. Estamos a 15 minutos do centro de Lisboa, abrimos as janelas dos escritórios e não ouvimos um avião, não ouvimos uma moto, não ouvimos uma buzina, não ouvimos uma ambulância..Até se veem coelhos e garças....Vê-se coelhos, vê-se perdizes, garças, o que é de facto muito raro em contexto tão urbano e próximo de uma capital tão cheia de gente e de trânsito. Então, percebemos que tínhamos todo o interesse em garantir que atraíamos para fora das horas de trabalho pessoas que não trabalham cá e também proporcionar a quem trabalha no Taguspark momentos de lazer e de cultura fora das suas horas de trabalho..E existe um auditório para espetáculos. Com que fim?.Tivemos a sorte, o privilégio de conhecer a Yellow Star Company, que é quem hoje toma conta do nosso auditório para teatro. Temos um conjunto de atores absolutamente fabulosos a circular todas as semanas pelo Taguspark, desde o Ruy de Carvalho, à Maria Elisa, que se estreou aqui, o Virgílio Castelo, agora a Joana Amaral Dias, nos Monólogos, a Teresa Guilherme... Um conjunto de gente muito interessante e que dá o seu máximo naquele palco e que torna os nossos dias e o nosso quotidiano muito mais agradável. O que é que estamos a fazer? Uma coisa muito simples: estamos, passo a passo, a garantir que criamos cidade, cidade exemplar, cidade cívica, cidade que acrescenta valor, cidade onde a qualidade de vida está como desígnio principal..E a sustentabilidade?.Esse é outro dos nossos pilares de civismo. O civismo energético. Estamos gradualmente a investir em painéis fotovoltaicos. Hoje, cerca de 30% de toda a energia que consumimos é produzida por painéis fotovoltaicos nossos. O civismo na reciclagem também. Reutilizamos o lixo através de startups, que o transformam em novos produtos. Aquela girafa que está no hall central, em tamanho natural de girafa, é feita de material reciclado, de chinelos recolhidos nas praias da costa oriental africana..E a responsabilidade social?.Esse é o último pilar, o pilar da dignidade laboral, da dignidade humana. Todas as pessoas que auferiam o salário mínimo nacional e que trabalham para os nossos prestadores de serviços residentes, equipas de limpeza, de jardinagem, de manutenção, e de segurança, auferem hoje de um prémio Taguspark na sua folha de salários, que lhes permite ter um salário, no mínimo, 50% superior ao que tinham. Quando falam em meritocracia social-democrata, para nós a social-democracia é isto: é criar condições de vida onde todos, independentemente das suas origens, têm a oportunidade de auferir de reconhecimento, não só económico ou financeiro, mas reconhecimento meritocrático pelo valor que acrescentam à comunidade..Como é que surgiu a ideia de fazer este livro, "Falta fazer bem-feito, Poderíamos estar onde não estamos"?.Foi um desafio da Editora d"Ideias, da Paula Valente, que me contactou por via dos meus trabalhos académicos e achou por bem desafiar-me a publicar. Pensei em duas ou três coisas e uma delas era esta compilação de alguns artigos, de entre as centenas que foram escritos nos últimos 20 anos, no sentido de dar um contributo para alertar para o facto de Portugal não estar a fazer as reformas necessárias para evoluir, para se tornar um país mais dinâmico, mais inovador, onde seja mais agradável viver e um país que possa criar riqueza. Que é o que eu, por norma, falo nos meus artigos. Aliás, menciono na minha apresentação do livro que os artigos têm essencialmente quatro pilares que estão lá presentes. O primeiro é uma visão de futuro para Portugal, que não temos. Quando já a tivemos na nossa história, várias vezes. Tivemos na fase dos Descobrimentos, nos Anos 80, todos nos lembramos de uma clara e estratégica aproximação aos universos europeus, com o Relatório Porter, com a revisão constitucional, com um conjunto de reformas no país que, de facto, nos modernizaram. Mas temos, desde então, estado relativamente estagnados. No fundo, a ditadura da burocracia, do não funcionamento da justiça e o estrangulamento fiscal, são matérias que nos impedem, enquanto nação, enquanto povo, de progredir. Esse é o ponto número um. O ponto número dois é a necessidade de reconhecermos os nossos erros. Sem isso continuamos a insistir neles e, pior do que isso, a garantir que eles fazem parte do nosso quotidiano com a normalidade da aceitação. O terceiro diz respeito ao civismo. Acreditamos, e aqui no Taguspark temos feito por isso, que o civismo é a melhor forma de implementar a democracia. Porque o civismo é o respeito pelo próximo..De que forma se pode promover o civismo?.Tornar Portugal num país mais cívico. Diria que é um desígnio que nos tornará, certamente, mais civilizados. E isso está diretamente ligado ao ensino, está diretamente ligado à própria legislação energética, à reciclagem, às leis laborais, que são muito pouco cívicas e promotoras de uma igualdade caduca e não da igualdade de oportunidades. E não da meritocracia, também. Este é o quarto ponto. A meritocracia social-democrata, sendo que o social-democrata aqui nada tem a ver com o Partido Social-Democrata, nomeadamente o atual PSD que, na nossa leitura, pouco tem de social-democrata. São quatro os pilares que norteiam o pensamento analítico, sociopolítico e socioeconómico que se reflete nos meus artigos. Uns são mais cáusticos, mais de casos, mas gosto pouco de falar de casos e de pessoas, gosto mais de falar de projetos. Mas alguns, por via deste tempo que atravessamos, onde toda a gente bate "casos "e "casinhos", são cáusticos. Sou, às vezes, atraído também para esse campo. Mas é um campo que prefiro não frequentar com tanta intensidade..Como é que se faz uma seleção de 20 anos de artigos de opinião?.É relativamente fácil. Tive a preocupação de escolher artigos que abordem diversas temáticas e que representem uma evolução no tempo. Há artigos com 19 anos. O mais antigo é de 2004 e há artigos já de 2023. As duas preocupações foram uma longitude no tempo e, por outro lado, uma tentativa de abordar temas amplos..Ao analisar esses artigos, sente que o seu pensamento mudou?.A forma como nos vemos é sempre diferente da forma como somos vistos. O prefácio do presidente da Câmara de Oeiras, Isaltino Morais, menciona precisamente isso, uma "enorme coerência" que ele me apontou no seu discurso no lançamento do livro. Disse que era raro ver na sociedade portuguesa alguém que não fosse ao sabor do vento e que mantivesse estável o seu pensamento analítico e as suas posições. Diria que estou sempre a evoluir. Porquê? Porque somos fruto das nossas experiências, das nossas viagens, das nossas leituras, daquilo que ouvimos, daquilo que vemos e é natural que eu seja hoje uma pessoa diferente daquela que era há 20 anos..Mas há uma linha condutora que se mantém?.Os princípios éticos, os princípios da meritocracia, os princípios da responsabilidade social, estão lá todos. Mas estes estão lá desde criança. Portanto, não se alteraram. São reforçados para o maior reconhecimento, para a maior experiência. Acho que, ao contrário do que deveria ter acontecido, estou mais paciente, apesar de ter menos tempo, apesar de ter menos tempo de vida. Portanto, deveria estar mais impaciente, porque cada dia que passa é menos um dia que temos para fazer coisas e para podermos contribuir para a mudança..Será um sinal de adaptação? De conformismo?.Diria que não, mas às vezes receio que possa ser..Como vê o tecido empresarial português?.Vejo o tecido empresarial português refém de três grandes problemas que convinha resolvermos. O primeiro é a ausência de uma estratégia para o país. Não há uma estratégia, não há um caminho. Gosto de dar o exemplo dos Descobrimentos, porque toda a gente percebe que tinham um desígnio político e uma orientação estratégica para aquilo que queríamos ser. Queríamos, orientados para o mar, avançar para novas rotas de comércio. Esse era o desígnio político. Para isso era necessário investir em conjunto na sociedade e era necessário criar projetos de ciência e tecnologia que nos permitissem ter os meios de transporte. Portanto, as nossas naus, as nossas embarcações, os instrumentos de navegação, as escolas de navegação, as velas... Era necessário que todo um povo e toda uma economia estivesse concentrada nesse desígnio. Quando não há desígnio, como é o caso da economia atual portuguesa, é o salve-se quem puder. Esse é o primeiro nível que prejudica logo à partida o tecido empresarial português. O segundo é a burocracia. Há todo um conjunto de burocratas que se entretêm em não deixar fazer. Mesmo sem orientação estratégica, mesmo debaixo de um esforço enorme, o nosso tecido é essencialmente de pequenas e médias empresas. Mesmo com essa vontade toda, há depois um conjunto de instituições burocráticas, sem cara, que ninguém conhece, que têm um poder desmesurado, que ninguém elege, que se entretêm a não deixar fazer, a esquecer-se da autorização, do carimbo, da assinatura..E que saem caras..Sim, e que ainda por cima são caras, porque depois vivem à conta das taxas, das "taxinhas", dos impostos, por aí fora.... Depois temos um terceiro problema, que é quando as coisas correm mal. Há uma justiça que se entretém a não funcionar. A economia portuguesa está refém destes três pilares que a impedem de respirar. Estamos com uma economia com grande dificuldade de oxigenação. Temos uma carga fiscal elevadíssima sem, infelizmente, o devido retorno, porque temos uma máquina burocrática associada ao Estado que é demasiado pesada, que não produz e custa dinheiro. E que alguém tem de alimentar. E quem é que a alimenta? É o resultado dos impostos das pessoas, das famílias e das empresas. E os que são taxados são os que produzem riqueza, os que produzem trabalho. E são cada vez menos. Portanto, a taxa tem de ser cada vez maior, porque o grau de despesismo do resto da economia é cada vez maior também. É isso que é necessário reformar a fundo. Na burocracia, reformar no papel do Estado, reformar no poder local, reformar na Justiça, reformar na fiscalidade, reformar na Educação..Mas essas reformas só podem ser feitas com legislação..Essas reformas só podem ser feitas por quem pense devidamente o país. Como os nossos políticos só pensam na distribuição dos cargos, cada vez em número maior, cada vez mais exorbitantes, não se dedicam às reformas, porque isso, para eles, não é importante. Aliás, ninguém entra nos partidos, são instituições muito herméticas, muito fechadas, porque não querem concorrência. Veja-se os atuais líderes do PS, o potencial líder do PS e o atual líder do PSD. São uma nulidade em competência, são uma nulidade em história, são uns incapazes de reformar o que quer que seja. São uns bem-falantes, com graciosidade, com jocosidade. São uns bem-falantes a dizer mal dos outros, a dizer bem de si, sem provas dadas, sem nenhum desígnio para o país, sem nenhuma reforma efetiva. A forma em que vivemos hoje é de uma falsa democracia. Vivemos debaixo de uma ditadura de incompetentes ligados aos partidos políticos. É por isso que o povo português está cada vez mais afastado, por isso é que as franjas desiludidas votam cada vez mais nas vozes mais populistas que dão voz ao descontentamento, mas não apresentam soluções..E qual é a solução?.A solução é que é preciso parar para, com desígnio, com consciência e com profissionalismo, reformar. Enquanto não reformarmos e continuarmos a manter camadas em cima de camadas, não temos qualquer hipótese. Enquanto não reformarmos esta burocracia louca, enquanto não exigirmos decência na Justiça. E o que é a decência na Justiça? É acabar com a Justiça da praça pública e garantir que a Justiça tem tempos cívicos. O tempo da Justiça é o tempo de uma ditadura. Os direitos dos queixosos, de quem quer ver os seus temas resolvidos, não existem perante a Justiça portuguesa. O segredo de justiça não existe. Rebenta-se com as vidas das pessoas só porque sim. E, portanto, é inaceitável. Estamos num patamar de civilização muito mais atrás do que seria sensato para um país europeu do século XXI..Justiça, Saúde, Educação, habitação, todas deficitárias....São consequências desta ausência de criação de riqueza. É disso que os meus artigos falam.