As principais fixações da autora de O Sentido da Neve são outras que não o cinema italiano. É a Inglaterra da neblina de sentimentos, dos feitios e dos diálogos contidos tão típicos do povo que vive naquela ilha. Observa-se essa mística nos livros mais recentes de Ana Teresa Pereira, designadamente em Se Nos Encontrarmos de Novo, publicado no ano passado, onde tão belamente possuímos e somos devorados pelo ambiente londrino e, também, pela sensibilidade de um jar- dim interior com o seu gazeboo, dos lagos negros e dos seus fantasmas e da indiferença perante a vida e a morte por parte dos personagens decalcados/inspirados na prosa de Iris Murdoch e dos seus vícios fantasiosos que a escritora aprecia incutir nos seus textos..Mas se as principais fixações da autora de O Sentido da Neve são outras que não o cinema italiano, há que explicar a razão de o afirmar e essa é uma justificação pessoal de quem está a ler o volume e é confrontado com as imagens a preto e branco de antigos filmes feitos em Itália ouvidos ao longe. E a voz que domina a narração é a do realizador Martin Scorsese que desfia as suas memórias sobre as antigas películas vistas na adolescência. E que fala de um filme de Antonioni com Monica Vitti que o deixou estarrecido pela beleza da busca de um homem por uma mulher, da fuga do mar que circunda a ilha, da festa em que alguém desaparece e puxa o fio de todo o filme até à ignorância sobre o que verdadeiramente aconteceu ultrapassar o entendimento do próprio filme..Ou do outro filme que o marcou, aquele onde Ingrid Bergman viaja por Itália e passa por Pompeia no momento em que se descobrem os restos mortais de alguém que o vulcão soterrou há centenas de anos. E a actriz vive o desenterrar daquele corpo solidificado pelas cinzas como se fosse o seu próprio abandono à crise interior que a rodeia enquanto o preto e branco e os diferentes tons de cinzento dão cor às memórias e receios perante o que está em si. Há nesse filme uma multidão que vista com os olhos deste tempo já se veste diferente, já olha de outro modo, já sobrevive noutro registo, mas que as películas italianas dão um aspecto neo-realista, de gritos humanos que são calados à conta de repressão policial e dos sentimentos que a Vitti e a Bergman já não podem expressar..E é ao tentar voltar à leitura do livro assim que o programa televisivo termina que o confronto com a escrita de Ana Teresa Pereira confirma como os mundos do cinema italiano e os dos seus realizadores preferidos - Hitchcock, por exemplo - são tão diferentes. Não é que os protagonistas deste O Sentido da Neve não sofram psicologicamente como os atrás referidos; que os cenários onde a acção se passa não provoquem dor junto das mulheres; ou que os homens sejam perdoados pelo mal que fazem... Há, afinal, uma grande plataforma de (des)entendimento entre estas duas realidades estéticas que, se o acaso as fizer juntar, vale a pena experimentar. Porque, afinal, a autora compromete-nos mais uma vez com uma intimidade que o leitor habitual não quer ainda perder.