Vimos no artigo anterior que quer a China quer a Índia tiveram um desenvolvimento económico notável nas últimas décadas. Tal permitiu que, nos últimos 40 anos, tenham sido retirados da pobreza 800 milhões de pessoas na China; na Índia também 415 milhões de pessoas foram retiradas da pobreza entre 2005 e 2019. Não obstante, a Índia continua a ter altos níveis de pobreza e subnutrição (>10% da população da Índia continua a viver abaixo da linha de extrema pobreza do Banco Mundial de US$ 2,15 / dia). Em 2019-21, 16,3% da população da Índia estava subnutrida, em comparação com menos de 2,5% da população da China, de acordo com o mais recente relatório das Nações Unidas sobre o Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo. A Índia também tem uma das piores taxas de subnutrição infantil do mundo. E, apesar do notável crescimento económico da Índia nos últimos anos, nas últimas décadas o ritmo de crescimento da sua manufatura, exportações e PIB ficou muito aquém do da China. Referimos algumas razões estruturais para tal, e mencionámos um dos setores onde a diferença é mais visível - o das infraestruturas críticas. Mas as principais diferenças radicam no investimento em capital humano - sobretudo na Educação, na Saúde e na qualidade de força de trabalho - na igualdade de género, na ciência e tecnologia..Uma das maiores diferenças entre a China e a Índia radica no investimento no seu capital humano. Para além da política de abertura ao exterior e de liberalização económica, a China assentou a sua bem-sucedida estratégia de desenvolvimento em investimentos em desenvolvimento de capital humano - com elevação dos padrões de Educação (taxas altas de educação primária) e Saúde (cuidados de saúde quase universais) - e maior participação feminina na força de trabalho, áreas em que a Índia ficou atrasada. O maior acesso à Educação e a maior taxa de participação feminina na força de trabalho, em conjunto com a política de um único filho na China urbana (até dois nas zonas rurais, se a primeira criança fosse do sexo feminino), resultaram em taxas de natalidade mais baixas e melhores práticas de educação infantil. O Índice de Capital Humano 2020 do Banco Mundial - que mede os resultados de Educação e Saúde dos países em uma escala de 0 a 1 - deu à Índia uma pontuação de 0,49, ao nível do Egito e do Camboja, ambos países com baixo PIB per capita. A China obteve 0,65, o mesmo ranking de países com mais alto PIB per capita, como o Chile e o Bahrein. Enquanto que na China a percentagem da população feminina em idade laboral ativa diminuiu de 80% em 1990 para 61% em 2022, a da Índia caiu no mesmo período de 32% para 24%. A violência contra as mulheres, especialmente nas áreas urbanas, tem dificultado que mais mulheres indianas entrem no mercado de trabalho. Em conjunto, capital humano mais educado e qualificado e maior igualdade de género permitiram que a produtividade laboral na China seja quase o dobro da da Índia..No sistema educativo, a China também parece estar mais bem preparada para as oportunidades. Sete universidades chinesas estão classificadas entre as 100 melhores do mundo, com a Universidade de Tsinghua e a Universidade de Pequim entre as 20 melhores. Nove universidades chinesas estão entre as 50 melhores do mundo em matemática e Tsinghua é considerada a universidade líder mundial em ciência da computação. Ainda não há uma universidade indiana entre as 100 melhores do mundo..No desenvolvimento da ciência e tecnologia, a China forma quase o dobro de estudantes STEM do que a Índia. A China gasta 2,5% do seu PIB em investigação e desenvolvimento, enquanto a Índia gasta 0,7%. Quatro das 20 maiores empresas de tecnologia do mundo (em receita) são chinesas; nenhuma é baseada na Índia. A China produz mais da metade da infraestrutura 5G do mundo, a Índia apenas 1%. TikTok e outras aplicações semelhantes criadas na China são líderes globais, o que ainda não sucedeu com produtos de tecnologia indiana. No que tange à capacidade de produzir inteligência artificial (AI), a China é o único rival global dos EUA. A companhia chinesa SenseNova lançou recentemente o SenseTime AI que compete com o GPT da OpenAI; a Índia ainda não conta neste setor. 65% dos pedidos de patentes de AI do mundo provêm da China, em comparação com 3,4% da Índia. As empresas de AI da China receberam US$ 95 000 milhões em investimentos privados de 2013 a 2022, contra US$ 7000 milhões na Índia. E os investigadores de AI de primeira linha provêm principalmente da China e dos EUA, seguidos da Coreia do Sul..A Índia é já hoje uma grande potência económica e comercial e um pilar essencial da nova ordem mundial multipolar em desenvolvimento. Mas, por ora, ainda está longe do poderio económico da China, dos EUA e da Europa. Em todo o caso, para que a Índia beneficie do seu dividendo demográfico, aumente o seu rendimento per capita e a qualidade de vida da sua população melhore significativamente e possa atingir o estatuto de superpotência económica numa das próximas décadas, é crucial investir no seu capital humano e aumentar a participação feminina na força de trabalho..Consultor financeiro e business developer www.linkedin.com/in/jorgecostaoliveira