Duas moções de censura, dez mil toneladas de lixo e violência nas ruas de Paris

Franceses prometem não abandonar a luta contra a reforma das pensões e, este fim de semana, duas refinarias podem ter que parar de trabalhar.
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A reforma da lei das pensões já era impopular em França, mas o facto de o presidente Emmanuel Macron ter recorrido à "bomba atómica" constitucional para a passar sem um voto na Assembleia Nacional acentuou o desagrado. Esta sexta-feira, os protestos subiram de tom e a noite arriscava trazer a violência já registada na véspera, quando 310 pessoas foram detidas em todo o país. Tanto o Palácio do Eliseu como o governo de Élisabeth Borne, alvo de duas moções de censura, temem a repetição dos protestos dos coletes-amarelos de 2018 e 2019.

Ao início da noite, uma fogueira tinha sido acesa na praça da Concórdia, em Paris, a poucas centenas de metros da Assembleia. Milhares de manifestantes concentraram-se ali, com a polícia a intervir para tentar dispersar a multidão pelas 20.00 - que respondeu atirando pedras e outros projéteis, segundo o Le Monde. Noutras cidades, repetiam-se os protestos, com as autoridades a querer conter a violência para evitar que esta atinja a dimensão de há cinco anos.

Borne evocou na quinta-feira o artigo 49.3 da Constituição para impor por decreto a alteração à lei das pensões, que entre outras medidas prevê o aumento da idade da reforma dos 62 para os 64 anos. Em resposta, a oposição apresentou duas moções de censura: uma delas do grupo LIOT (sigla em francês de Liberdades, Independentes e Territórios Ultramarinos), assinada também pela coligação de esquerda NUPES, e a outra da extrema-direita do Reunião Nacional.

A discussão de ambas deverá acontecer já na segunda-feira, mas nenhuma deverá passar. Apesar de o governo ter perdido a maioria na Assembleia nas eleições de junho, já após a reeleição de Macron para um segundo mandato, seria preciso o apoio de quase metade da bancada d"Os Republicanos para poder passar. Esse cenário é considerado improvável.

Até lá, os franceses prometem continuar nas ruas e a disrupção causada pelas greves em diferentes setores irá agravar-se Um dos protestos mais visíveis é o dos trabalhadores da recolha do lixo de Paris, que dura há mais de dez dias. Segundo as autoridades da capital francesa, estão por recolher dez mil toneladas de resíduos das ruas. O governo diz que a câmara pode requerer serviços mínimos, mas a autarquia recusa fazê-lo - em solidariedade com os grevistas.

Mas outros setores deverão intensificar a luta, podendo duas refinarias ser obrigadas a parar os trabalhos. Para segunda-feira, antecipam-se mais problemas no tráfego aéreo por causa da greve dos controladores, com a situação no setor ferroviário a deteriorar-se também depois de uma melhoria hoje e amanhã. Apesar das greves, os sindicatos querem afastar-se das cenas de violência e tentam apelar à calma.

susana.f.salvador@dn.pt

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