"Dilma conseguiu o PIB mais medíocre da história económica do Brasil"

Professor de MBA da Faculdade Getúlio Vargas, Mauro Rochlin traça balanço arrasador da era Dilma e prevê melhorias, sob gestão do ministro das Finanças Henrique Meirelles
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Depois de cinco anos e meio de governo da presidente afastada Dilma Rousseff, qual o balanço que se pode fazer da sua gestão económica?

Os indicadores económicos do governo Dilma fazem o balanço melhor do que ninguém: ela conseguiu o PIB mais medíocre da história económica do Brasil. A inflação, sob a sua administração, duplicou de patamar só no último ano. O sector externo, mesmo com a alta do dólar e a recessão, piorou. O desemprego no último ano e meio subiu assustadoramente. Por isso, o balanço só poder ser um fracasso total.

Fala-se agora de prioridades do novo governo. O próprio Henrique Meirelles, ministro das Finanças do presidente em exercício Michel Temer, já admitiu que o corte de gastos é a prioridade das prioridades. Concorda?

Concordo. A principal prioridade tem de ser recuperar ou, pelo menos, melhorar, a saúde financeira do Estado, mensurável na relação dívida/PIB , que aumentou de forma exponencial nos últimos tempos. Se o governo mostrar que é capaz de financiar os seus gastos, se conseguir estancar o problema da dívida pública, uma vez que a tal relação dívida/PIB anda perto dos 70% por agora mas pode até chegar aos 100%, se não se fizer nada, se isso for efetuado este governo já provará que vem para melhorar a situação. Porque qualquer política de redução de gastos, seja ela qual for, tem de ser a prioridade deste governo ou de qualquer outro governo do Brasil neste momento.

A reforma prometida na segurança social, que tanta hostilidade recebe por parte dos sindicatos, é parte do problema dos gastos públicos?

É a maior parte. A segurança social insere-se neste quadro, tem de ser, aliás, o principal motor para a redução de gastos. Ela é a principal fonte de despesas e a principal responsável pelo défice, pela dimensão do problema das contas públicas do Brasil. Logo é o que mais importa controlar, até porque vem aí uma bomba demográfica para o país enfrentar. Se o governo conseguir fazer, de facto, uma reforma na segurança social, será já um contributo muito positivo para o país e para a história do presidente em exercício Michel Temer.

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Henrique Meirelles tem merecido elogios unânimes, da esquerda, com quem colaborou sob o governo de Lula da Silva, de 2003 a 2010, à direita. É um nome que tranquiliza?

O nome de Henrique Meirelles tranquiliza mercados e observadores, sem dúvida. Porque ele, enquanto presidente do Banco Central durante a administração Lula, demonstrou ser um quadro adepto do rigor e com um viés ortodoxo, ao contrário do que se poderia esperar do lulismo, que chegou a fazer temer as pessoas por poder vir a ter uma condução, em condições normais, mais heterodoxa. Ou seja, o Henrique Meirelles foi muito mais ele próprio durante a administração Lula do que o próprio Lula.

Agora com Temer tem tudo para manter esse perfil? Ou a situação, pela gravidade desta crise, é outra?

Com Temer tem ainda mais condições para ser ele mesmo mas terá sempre um teste que é saber qual é a força da oposição, ou, melhor, a força do Partido dos Trabalhadores (PT) em particular, na oposição, com os movimentos sociais, como o Movimento dos Sem Terra ou o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, e os sindicatos, como a Central Única dos Trabalhadores, muito ligada ao PT, extremamente mobilizados para se manifestarem e protestar quando começarem a ser dados os primeiros sinais de reformas amargas na área orçamental.

Pela sua experiência, ajudaria o governo ter a legitimidade do voto ou Temer terá vida facilitada dado o desastre económico que o precede?

Ajudava ter a legitimidade do voto, sem dúvida. Atrapalha sempre não ter votos e mais ainda num momento em que será necessária a aplicação de medidas muito amargas e impopulares. A consagração nas urnas seria sempre um fator que ajudaria: um exemplo histórico passa pela medida mais radical de que tenho memória na história económica do Brasil, que foi o confisco das contas no governo Collor de Mello. Na ocasião, apesar das elites económicas terem ficado com os seus bens bloqueados e a classe média sem as suas poupanças, não houve manifestações populares. Aliás, a medida passou no Congresso Nacional, porque havia a legitimidade que só o voto, de facto, pode conferir e que pode fazer falta a uma gestão de Michel Temer.

E o fator tempo? São seis meses para mostrar o que vale. Ou dois anos, caso o impeachment se confirme. É pouco?

Seis meses, primeiro, e dois anos depois, não é o suficiente para endireitar a economia de um país mas chega para mostrar, pelo menos, ao que se vem. Apesar da crise há pelo menos pequenos sinais, eu não diria de recuperação, mas pelo menos de moderação na velocidade da queda. Alguns indicadores micro-económicos sobretudo tendem a ser melhores, até porque a base de comparação é muito fraca. O câmbio do dólar a 3,50 é razoável, a inflação recua, o que abre espaço para uma redução da taxa de juros...

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Essas ligeiras melhorias devem-se a Dilma? A política económica dela pode estar a dar resultado a prazo?

Não, nada a ver com ela. As melhorias derivam do medo da bancarrota, com o aumento do risco-país. Não é crédito do governo Dilma, a queda da inflação não é obra dela mas sim da recessão espetacular que tivemos sob a sua gestão.

São Paulo

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